“Freixo ajudou em um processo de mobilização que será muito importante no próximo período”

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As eleições municipais se encerraram após o segundo turno que ainda mobilizava 55 cidades e, no chamado campo progressista, a campanha de Marcelo Freixo (PSOL), derrotado pelo candidato e bispo evangélico Marcelo Crivella (PRB) no Rio de Janeiro, foi certamente a mais marcante. Para comentar a sensação deixada por essa candidatura e fazer uma análise geral do pleito, o Correio da Cidadania entrevistou Flavio Serafini, deputado estadual pelo mesmo partido de Freixo e que disputou a prefeitura de Niterói.

 

“A vitória do Freixo era muito difícil pelo momento que a esquerda vive no Brasil. O desfecho do governo do PT foi uma desmoralização sua e também de parte da esquerda. Mesmo assim, vimos um processo muito importante de reoxigenação (...) Freixo não só conseguiu um resultado muito expressivo como ajudou a retomarmos uma mobilização que não se via há mais de dez anos no Rio de Janeiro. A candidatura contribuiu para uma mobilização que será muito importante no próximo período”, afirmou.

 

Na conversa, Serafini pondera que seu partido, apesar de maior consolidação institucional, se vê diante da contradição de ainda não conseguir marcar presença em todos os processos de lutas sociais brasileiras. Quanto à suposta guinada à direita, reconhece uma certa saída do armário de setores ultrarreacionários, mas não a ponto de tomar de impor uma nova cultura política, o que em sua visão ainda frustrará os planos do governo federal e sua política de austeridade total.

 

“É um momento de reabertura de diálogos na esquerda. Os ex-governistas terão de tirar um balanço do que fizeram. É importante que tenham a compreensão da ilusão que é a política de conciliação no Brasil. E que foram expulsos da festa por reproduzirem as mesmas práticas dos antigos donos. Se houver essa autocrítica, será possível reabrir diálogo na esquerda, de forma mais ampla”, destacou.

 

A entrevista completa com Flavio Serafini pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, o que você comenta do segundo turno das eleições municipais no Rio de Janeiro, que terminou com a vitória de Marcelo Crivella sobre Freixo?

 

Flávio Serafini: A vitória do Freixo era muito difícil pelo momento que a esquerda vive no Brasil. O desfecho do governo do PT foi uma desmoralização sua e também de parte da esquerda. Nós que saímos do PT o fizemos por compreender que as práticas assumidas pelo partido não só contrariavam o sentido da esquerda – luta por igualdade, reformas estruturais etc. –, mas também reproduziam as práticas da direita, que tinha a corrupção como instrumento de fortalecimento dos grandes grupos e interesses econômicos no país.

 

Alguns aparatos da direita foram muito eficientes em usar o ranço da corrupção não como práticas também de seus grupos que governavam ao lado do PT, mas como práticas do conjunto da esquerda, o que não é verdade. Tanto que nós do PSOL estamos nos construindo como alternativa e fazendo oposição ao governo mesmo quando setores da direita estavam ou no governo ou fazendo oposição com base nas mesmas práticas.

 

Assim, a narrativa que se fez, de que o Brasil e sua desmoralização pela corrupção são fruto de erros da esquerda, e não de um de seus setores, que governou ao lado da direita, colocou toda a esquerda na defensiva no processo eleitoral. Ao lado da crise econômica e da ofensiva do grande capital, que visa retirar direitos trabalhistas e desfazer o mínimo de conquistas sociais, inclusive do último período, nos colocaram numa defensiva que fez da vitória eleitoral algo muito difícil.

 

Mesmo assim, vimos um processo muito importante de reoxigenação da esquerda. Freixo é um parlamentar que se elege pela primeira vez no PSOL surgido na luta dos direitos humanos, que incorpora ao mandato a luta do servidor público, do sindicalismo e que não só conseguiu um resultado muito expressivo como ajudou a retomarmos uma mobilização que não se via há mais de dez anos no Rio de Janeiro. Eram praças frequentemente tomadas, comícios em diferentes lugares da cidade...

 

A candidatura do Freixo contribuiu para uma mobilização que será muito importante no próximo período, em especial para ajudar na resistência aos ataques que já vemos, tanto em nível federal como estadual.

 

Correio da Cidadania: O que comenta do desempenho geral do seu partido nessas eleições, em todo o país?

 

Flávio Serafini: O PSOL conseguiu melhores resultados em diversas grandes cidades, elegeu mais parlamentares em grandes capitais e centros urbanos e caminhou no sentido de se consolidar no espaço institucional, não só nos grandes centros. O drama é que o PSOL cresce devagar e ainda não conseguiu se aproximar e fomentar mais as lutas sociais do Brasil.

 

A verdade é que as lutas ainda estão muito fragmentadas do ponto de vista sindical e muito explosivas, descontínuas, em termos de movimentações mais amplas, das quais as manifestações de 2013 foram o maior expoente. O partido ainda não estabeleceu laços mais orgânicos com tais processos de luta e de alguma forma incorporá-los em seu horizonte estratégico.

 

Um partido que surge para renovar a esquerda precisa também ser capaz de reoxigenar suas práticas e horizontes estratégicos, a partir do novo momento das lutas de classes no Brasil.

 

O PSOL saiu com essa contradição: cresce e se consolida mais institucionalmente, mas ainda tem o desafio de se interligar mais aos movimentos que ocorrem na sociedade.

 

Correio da Cidadania: E dos partidos compreendidos à esquerda no espectro total, como avalia seus desempenhos?

 

Flávio Serafini: A esquerda sai do governo, em especial o PT, sob amplo processo de derrota e desmoralização. O PT precisa rever seus horizontes estratégicos. Iludiu-se de achar que poderia usar dos mesmos expedientes da direita e ser tratado da mesma maneira.

 

Não foi assim, o partido foi enxotado da Casa Grande e agora tem de rever horizontes, porque se não o fizer tende a perder completamente a alma e se tornar mais um partido brasileiro sem horizonte e autenticidade. É o principal elemento que fica, com peso sobre todo o conjunto da esquerda. Apesar das alianças com setores da direita e do grande capital, em alguns momentos o partido ainda cumpriu o papel de barrar uma agenda ainda mais conservadora, embora em outros momentos fosse o próprio porta-voz de tal agenda.

 

No balanço geral e no contexto de retrocesso, avanço do PSDB, aprovação da PEC 241 na Câmara dos Deputados, dentre outros fatores, temos uma derrota que recai sobre o conjunto da esquerda e dos trabalhadores brasileiros.

 

Correio da Cidadania: Acredita numa guinada à direita do país ou os resultados são mais circunstanciais?

 

Flávio Serafini: Acredito que existe hoje na sociedade um movimento à direita, que se expressa tanto pelo crescimento de expressões mais radicais, com setores que diríamos mais próximos ao fascismo, que defendem a ditadura, a tortura, o machismo e o racismo de forma mais ou menos explicita, como naquilo que faz parte do programa tradicional da direita.

 

Mas não é absoluto, é mais reflexo do momento. O governo Temer tem uma agenda de retirada de direitos e atendimento da agenda do grande capital em ritmo muito acelerado, de modo que tende a entrar em choque com as demandas da população e frustre aqueles que imaginaram que o impeachment e o novo bloco de poder seriam capazes de garantir estabilidade social ao Brasil.

 

Eles se verão diante de um recrudescimento da luta de classes frente à disputa de distintos projetos para a sociedade.

 

Correio da Cidadania: O que vislumbra para o próximo ano em termos de movimentações políticas e sociais? Onde seu partido e grupos de orientação semelhante deverão focar esforços?

 

Flávio Serafini: Em primeiro lugar, precisamos de um debate importante sobre a reorganização dos instrumentos de luta dos trabalhadores e movimentos sociais, hoje muito dispersos. Precisamos reafirmar o radicalismo ligado aos movimentos populares, manter o classismo, não se dobrar à logica burocrática a que boa parte do sindicalismo dirigido pelos ex-governistas se rendeu. Precisamos de mais unidade, há muita dispersão entre correntes e centrais sindicais, algo grave diante do momento de ataques que vamos viver.

 

Em segundo lugar, é um momento de reabertura de diálogos na esquerda. Os ex-governistas terão de tirar um balanço do que fizeram. É importante que tenham a compreensão da ilusão que é a política de conciliação no Brasil. E que foram expulsos da festa por reproduzirem as mesmas práticas dos antigos donos. Se houver essa autocrítica, será possível reabrir diálogo na esquerda, de forma mais ampla.

 

Caso contrário, a esquerda brasileira passará a conviver com dois polos que disputarão horizontes estratégicos de forma muito clara. Infelizmente, o segundo cenário é o mais provável, embora não seja o mais desejável.

 

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Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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