Freixo: “o Rio perdeu uma grande oportunidade nos anos de prosperidade econômica”

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Cinquenta e cinco cidades brasileiras voltarão às urnas para o segundo turno das eleições municipais e, na maior delas, a reta final vê um aumento da temperatura na disputa entre Marcelo Crivella (PRB), líder das pesquisas, e Marcelo Freixo (PSOL), entrevistado pelo Correio da Cidadania. O nome mais representativo da esquerda brasileira no processo eleitoral analisou a gestão de Eduardo Paes, a atual conjuntura da política brasileira, seu sistema de representação e falou das principais necessidades da capital fluminense.

 

“O Rio de Janeiro recebeu muitos recursos neste período, especialmente por ter abrigado a final da Copa do Mundo e as Olimpíadas, entre outras razões. Não temos dúvidas de que era possível ter feito muito mais, se não houvesse tantos contratos suspeitos e pouco transparentes, e se a gestão da cidade tivesse sido planejada tendo como eixo as pessoas”, afirmou.

 

Sobre seu programa de campanha, Freixo afirma se tratar do mais moderno que a esquerda desenvolveu e destacou a participação de cerca de 5 mil pessoas em sua elaboração. Em linhas gerais, diz que sua prioridade são os direitos humanos e a diminuição do custo de vida na cidade, um dos maiores do mundo, além de lamentar algumas questões que têm permeado as disputas políticas e eleitorais no país.

 

“A antirreforma eleitoral conduzida por Eduardo Cunha promoveu retrocessos à democracia brasileira. Outra medida antidemocrática foi o cálculo do tempo de TV. Por causa dele, tivemos que fazer uma campanha com menos de 11 segundos de TV. Conseguimos ir para o segundo turno com muita dificuldade. A redução do período de campanha pela metade também foi bastante negativa, produzindo um clima morno nas ruas, que desfavorece candidaturas de opinião como a nossa. Cunha está preso, mas os rastros de sua ação deletéria ainda permanecem na sociedade brasileira”, avaliou.

 

A entrevista completa com Marcelo Freixo pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como analisa, de forma geral, a disputa eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro? Como recebeu os resultados deste primeiro turno no Rio de Janeiro?

 

Marcelo Freixo: A disputa eleitoral nos ensina muitas coisas. Demonstra, por exemplo, o desgaste do PMDB, após grande deterioração de seus governos. Mesmo com o tamanho da máquina que tinha, e a quantidade de recursos, seu candidato não foi para o segundo turno. O resultado do primeiro turno também demonstra um perigoso crescimento da extrema-direita, representada especialmente em um dos candidatos. E revela, principalmente, o perigo da viabilização do projeto do fundamentalismo religioso. E não digo isso como uma crítica à religião – afinal somos apoiados por uma gama enorme de matrizes religiosas. O que eu critico é o fundamentalismo, a mistura de política com religião.

 

A disputa eleitoral do Rio de Janeiro, no entanto, também dá sinalizações positivas. O Rio tem sido o eixo da resistência ao projeto tradicional de política do qual a população brasileira se cansou profundamente. As enormes mobilizações populares brasileiras dos últimos três anos são complexas. Porém, uma coisa é clara: o povo brasileiro não aguenta mais esse modelo de governo em que se aluga o poder público em troca de apoio parlamentar. As pessoas querem governos que escalem os melhores nomes para cada setor, e querem um governo que lhes permita governar junto. Acho que foi isso que fez os cariocas me levarem para o segundo turno, com significativas chances de vencer. Já podemos dizer que o PSOL construiu, no Rio de Janeiro, uma alternativa real de poder e um modelo moderno de esquerda.

 

Correio da Cidadania: O que projeta para este segundo turno e o que comenta de seus debates diretos com Marcelo Crivella?

 

Marcelo Freixo: Desde o início, queríamos fazer uma campanha propositiva, onde se discutisse o Rio de Janeiro. Estávamos convencidos da superioridade de nosso programa de governo, elaborado por mais de 5 mil pessoas. Chegamos ao segundo turno sem boa parte da população carioca nos conhecer – porque no primeiro turno, devido às nossas escolhas políticas, tivemos apenas 11 segundos de televisão. Assim, tínhamos certeza de que a população da cidade iria nos preferir à medida que nos conhecesse.

 

No entanto, nosso adversário não se comportou da mesma maneira. Ainda na primeira semana, seus aliados iniciaram um processo vil de difamação, poucas vezes visto na história da política brasileira. Há estudos de que mais de 3 mil robôs foram criados no Twitter para divulgar mentiras e boatos. No WhatsApp, um festival de áudios e vídeos mentirosos sobre a nossa candidatura chegou aos celulares de quase todos os cariocas. Enquanto isso, Crivella fazia pose de bom moço na TV. Crivella propunha, contra nossa vontade, uma campanha rebaixada.

 

Nas inserções de TV, as mentiras e boatos criados na internet foram abordados como se verdade fossem. Fomos obrigados a nos defender, e também a apontar as contradições de sua candidatura e as informações que ele tentava esconder. Queríamos um segundo turno com debates em torno dos dois diferentes projetos para o Rio. Além de não apresentar com clareza seu projeto, nosso adversário transformou a campanha em um debate moral. A política carioca não merecia isso.

 

Correio da Cidadania: O que pensa das novas regras eleitorais, que entre outras coisas limitaram o financiamento empresarial de campanha, mas também criam dificuldades para a inserção política de partidos atualmente menos representados no parlamento?

 

Marcelo Freixo: É preciso diferenciar uma coisa de outra. Quem decidiu que as eleições fossem realizadas sem financiamento empresarial foi o Supremo Tribunal Federal (STF). Já a decisão de dificultar as eleições de partidos médios e pequenos foi da Câmara dos Deputados, no período em que era comandada pelo ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB), hoje preso e abandonado por quase todos os antigos aliados.

 

A decisão do Supremo foi acertada, e é um avanço para a democracia. O financiamento empresarial subordina o poder político ao poder econômico, regulamentando informalmente o lobby para empresas nos parlamentos brasileiros. Sempre fomos contra e já na última eleição, de 2014, fizemos uma campanha sem qualquer doação de empresas, antes mesmo da decisão do STF. Nessa eleição, tivemos esse avanço, muito embora – é preciso que se diga – os partidos tenham aparentemente encontrado formas alternativas de se financiar através de empresas.

 

Já a antirreforma eleitoral conduzida por Eduardo Cunha promoveu retrocessos à democracia brasileira. Um deles, foi a decisão de que partidos com baixa representação no Congresso não pudessem participar de debates de TV – felizmente, o STF derrubou essa regra. Outra medida antidemocrática foi o cálculo do tempo de TV. Por causa dele, tivemos que fazer uma campanha com menos de 11 segundos de TV. Conseguimos ir para o segundo turno com muita dificuldade.

 

Mas, em outras capitais, candidaturas do PSOL foram muito prejudicadas, como a de Luiza Erundina em São Paulo, a de Elson Pereira em Florianópolis e a de Luciana Genro em Porto Alegre. A redução do período de campanha pela metade também foi bastante negativa, produzindo um clima morno nas ruas, que desfavorece candidaturas de opinião como a nossa. Cunha está preso, mas os rastros de sua ação deletéria ainda permanecem na sociedade brasileira. Lutaremos.

 

Correio da Cidadania: Como analisa os oito anos de governo Paes? O que houve de mais positivo e mais negativo?

 

Marcelo Freixo: Fizemos oposição ao governo Paes durante estes oito anos. Apontamos todas as muitas contradições do modelo de gestão do PMDB, na prefeitura e no governo fluminense. No entanto, quando avaliamos que houve acerto, sempre tivemos a grandeza de reconhecer. O principal elemento a ser criticado é a completa subordinação da prefeitura às decisões tomadas dentro de gabinetes de empreiteiras. A cidade, durante os anos Paes, sempre foi tratada como mercadoria a ser vendida. E as principais decisões vinham sendo tomadas pelas próprias empresas, que administram diretamente alguns projetos.

 

O Rio de Janeiro recebeu muitos recursos neste período, especialmente por ter abrigado a final da Copa do Mundo e as Olimpíadas, entre outras razões. Não temos dúvidas de que era possível ter feito muito mais, se não houvesse tantos contratos suspeitos e pouco transparentes, e se a gestão da cidade tivesse sido planejada tendo como eixo as pessoas. Algumas reformulações urbanas são bastante vistosas hoje, mas quem acompanhou o processo sabe que elas foram viabilizadas com a utilização de remoções forçadas, além de serem questionáveis como prioridade de investimento. Quero destacar também o absoluto abandono da Educação neste período, com o sucateamento de escolas e a remuneração baixíssima aos educadores.

 

Elogiamos algumas iniciativas, como as clínicas de família, que pretendemos manter. O sistema de BRT também produziu melhorias no cotidiano dos cariocas, embora seja necessário dizer que teríamos optado por outro modelo de transporte, mais eficiente e barato. Enfim, há elementos a serem elogiados. Mas de forma geral, consideramos que o Rio perdeu uma grande oportunidade, nestes anos de prosperidade econômica, de avançar mais do que avançou.

 

Correio da Cidadania: Quais as maiores necessidades da cidade do Rio de Janeiro, dentro daquilo que pode ser feito em um mandato de quatro anos?

 

Marcelo Freixo: As necessidades são muitas. A gente vai priorizar algumas coisas. Uma delas é garantir eficiência e baixo custo do sistema de transportes, hoje muito caro e ineficiente. Essa medida está atrelada a uma iniciativa central em nosso governo, que será a de baixar o custo de vida no Rio, um dos maiores do mundo. Também pretendemos dar transparência aos contratos da prefeitura, medida que serve de controle da ameaça de corrupção. Na saúde e na educação também vislumbramos grandes avanços, em termos da concepção do modelo de gestão destes setores, e também na relação transversal com outras áreas, como esporte e cultura. Será desafiador, mas o Rio de Janeiro nunca teve um projeto de esquerda tão maduro quanto o nosso.

 

Correio da Cidadania: Para além dos tempos eleitorais, quais as grandes necessidades e urgências do Rio de Janeiro?

 

Marcelo Freixo: A redução do custo de vida é um deles, como falamos anteriormente. A redução dos índices de violência também é um elemento importante – e pra isso contamos com os melhores especialistas do setor. As outras prioridades são as de sempre: mobilidade urbana, saúde, educação, cultura, gestão e planejamento, entre outros.

 

Correio da Cidadania: O que fazer para garantir os direitos humanos na cidade do Rio de Janeiro e frear a escalada de violência e militarização que toma conta da cidade especialmente nas áreas mais pobres?

 

Marcelo Freixo: Há muito a ser feito, e temos entre nós os melhores profissionais. Vamos atuar especialmente na prevenção, mapeando os dados sobre a violência no território da cidade. Além disso, a Guarda Municipal estará presente nas ruas, atuando. E vamos estabelecer como prioridade a chegada de serviços em áreas de vulnerabilidade social.

 

 

 

 

Gabriel Brito é editor-adjunto do Correio da Cidadania; Raphael Sanz é jornalista.

 

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