Um ano de retrocessos e de volta ao passado

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Com um país governado pelo quadrilhão do PMDB da Câmara, que tem Michel Temer como presidente, o ano de 2017 pode ser retratado pela perda dos direitos trabalhistas em função de uma reforma aprovada a toque de caixa pelo Congresso e que entrou em vigor no início de novembro já com efeitos à vista, como várias demissões – definitivas ou para recontratação em posições precarizadas.

O ano se encerra com um último esforço fracassado do governo para aprovar uma reforma da Previdência que também não foi sequer discutida com a sociedade. Esse parece ser um problema crucial da nossa falta de democracia atual: o fechamento do sistema político é cada vez maior, como se fosse um cachorro correndo atrás do próprio rabo, o que é talvez o maior dos retrocessos em um país que ainda se clama democrático. Nada é discutido com a sociedade, todas as decisões são tomadas apenas pelos representantes eleitos a cada quatro anos, mesmo para decisões que vão afetar a vida de todos por muito mais tempo.

Mas a volta ao passado não para aí. Quando a grande esperança no campo progressista para as eleições de 2018 se chama Lula estamos de volta ao passado também. E desconsiderando tudo que faltou de autocrítica ao PT depois de ser defenestrado do governo federal pelo PMDB e PSDB. Basta ver que o grande líder Lula ainda costura alianças com partes do PMDB, algumas que inclusive apoiaram o golpe contra o governo Dilma.

A esperança em Lula é reflexo dos curtos bons momentos que seus governos proporcionaram aos brasileiros, mas também do deserto que atravessamos na falta de renovação de lideranças políticas e das crises em que estamos mergulhados, vide o drama dos funcionários públicos do estado do Rio de Janeiro que ficaram e ainda estão há meses sem receber seus salários neste ano que se encerra.

A Lava Jato começou a agonizar em 2017, curiosamente (ou não) a partir do momento em que chegou perto do presidente Michel Temer, do senador Aécio Neves e condenou Lula. Não conseguiu mais avançar por conta do Congresso, que protegeu Temer duas vezes, e parece que começa a perder fôlego depois de várias estocadas que vem sofrendo dos três poderes, em especial do Supremo Tribunal Federal. A operação periga fazer parte do passado a partir de 2018.

2017 também foi um ano de guerras culturais promovidas principalmente pelos conservadores, que tiveram no Movimento Brasil Livre (MBL) um ícone. Ao pautar valores, em especial no campo das artes, durante certo período do ano parecem ter conseguido ampliar seus tentáculos sobre a sociedade brasileira que ainda é muito conservadora, configurando mais um retrocesso de volta ao passado de uma censura que agora é social, não mais estatal, como na época da ditadura.

Por fim, assistimos impassíveis à ausência de manifestações de rua massivas contra as reformas propostas pelo governo Temer e um movimento sindical que se mostra cooptável em sua maioria, por vezes jogando contra a mobilização, como na greve geral do dia 5/12 que foi cancelada na véspera.

Tudo isso colabora para a visão de retrocessos e de uma volta ao passado neste 2017 que termina sem muita esperança de que 2018 seja diferente. Afinal de contas, tudo pode piorar e podemos sentir saudades do passado, o que, aliás, vem sendo cada vez mais recorrente.

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador da UERJ.

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