Fidel, o Robespierre que venceu

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Quanto mais mergulho nas leituras sobre a Revolução Francesa, mais a considero como o episódio épico mais expressivo da história da Humanidade.

 

E penso assim, principalmente, pelo seu período mais marcante como luta de classes, entre 1792 e 1794, quando o conceito da Fraternidade é adicionado aos da Liberdade e Igualdade, estabelecidos a partir da ruptura com o Absolutismo das monarquias divinas, em 1789.

 

Revolução Bolchevique de 1917, lutas de libertação nacional que marcaram a metade do século 20 – com destaque para a do Vietnã -, com toda a simbologia que trouxeram juntas, não foram mais longe do que o que se disse, escreveu e fez entre aqueles dois anos marcantes do século 18.

 

Só um episódio, para mim, por suas características e desdobramentos, pode ser apresentado como algo comparável ao que veio na sequência da Queda da Bastilha. Esse episódio é a Revolução Cubana.

 

E por que o afirmo, diante de tantas hesitações de alguns combativos representantes do que ainda resta de esquerda pensante no mundo, presos aos preconceitos que impõem um cada vez mais desagregador modelo burguês de “democracia ocidental”? Afinal, esse regime tratado hegemonicamente como o único válido, o único civilizatório, não conseguiu concretizar de forma plena um dos itens fundadores sequer da Revolução Francesa, onde foi gerado e de que tanto se beneficiou pelo que distorceu.

 

Porque, tanto lá como cá, na avaliação dos dois processos, a utilização falaciosa dos conceitos de liberdade e ditadura, e da denúncia criminosa das lideranças mais marcantes, se sobrepõe de forma acintosa às conquistas sociais.

 

Robespierre e Fidel, distantes no tempo, mas sob pressões e ameaças externas semelhantes, são os alvos dos mesmos ataques, tanto dos representantes do grande capital quanto dos fariseus de seu próprio campo.

 

Não vou repetir o que Robespierre, em seus discursos e nas Resoluções que tornaram vitoriosas na Convenção, tem de universal e permanente até os dias de hoje. Não vou repetir o que defendeu sobre propriedade condicionada a interesse social e sobre controle popular do aparelho do Estado. Não vou repetir o que defendia como direitos fundamentais da pessoa humana até hoje invocados e só chegados a uma parte mínima da população mundial. E nem vou lembrar que ele o fez bem antes do surgimento das teorias sobre o caráter essencialmente predatório do capital, que Marx só viria a revelar quase um século depois.

 

Só vou lembrar quão grande é o ódio que as classes dominantes a ele dedicaram no registro de não existir uma rua ou um monumento sequer, em Paris, portando seu nome. Só é lembrado nas “mairies” (prefeituras) comunistas.

 

Volto a Robespierre pelo que se começa a entabular, a partir da “reflexão” de alguns pensadores claramente identificados com o campo da esquerda, mas com boa parte da sua mente contaminada pelo apelo à “liberdade individual”, a prevalecer sobre o interesse social, coletivo, imposta pelos que não hesitam em suprimi-la ao verem seus privilégios ameaçados.

 

Tratam como corriqueiros, como se não fossem quase que exclusivamente conquistas do regime cubano, os exemplares sistemas de educação e saúde públicas, que resultam numa das sociedades de mais alto nível cultural do continente, e talvez do mundo.

 

E não se perguntam, antes de rotular em Fidel o que a burguesia mundial rotulou em Robespierre, colocando em ambos o carimbo de inimigos da liberdade - "ditadores” – algumas questões básicas.

 

Não se perguntam, por exemplo, como um povo de tantas tradições libertárias, de coragem coletiva comprovada historicamente, com tal nível de educação, nunca se levantou, passados mais de meio século, contra o regime ditatorial que o “oprimiria”.

 

Dissidentes? Mas claro que há. Tantos que são capazes de ser lembrados nominalmente nos dedos das mãos. Indiferentes? Sem dúvida.

 

Porque é do gênero humano a distinção de leituras sobre um fenômeno, até mesmo entre familiares.

 

Mas, socialmente, ninguém pode contestar o apoio popular comprovado, aliás, por uma equipe insuspeita de reportagem – da reacionária GloboNews – mostrada recentemente. Uma equipe enviada certamente para encontrar as sequelas e mazelas, e termina mostrando dois repórteres surpreendidos pelo que encontraram de positivo. Pasmos diante do apoio ao regime socialista, mesmo entre jovens que viveram momentos de imensas dificuldades materiais.

 

Achar que esse povo com tal grau de dignidade, cultura e saúde se dobraria diante de uma “ditadura”, por conta da “servidão voluntária diagnosticada há séculos por Etienne de la Boétie”, sem levar em conta que o dito cujo se referia a massas ignorantes, submetidas à divindade do poder monárquico, como fez um ensaísta progressista, é, no mínimo, fazer uma leitura “fora do contexto”.

 

Que fiquem estes, portanto, com seus ideológicos e até materialmente corruptos Danton, Kerensky e os correspondentes social-liberais de hoje. Fico eu com Robespierre, Sain Just, Lenin e Fidel. Luta que Segue!

 

 

 

Milton Temer é jornalista e ex-deputado federal pelo PT entre 1998 e 2006.

 

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