Príncipes rebeldes armam golpe contra o príncipe coroado saudita

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Príncipe Ahmed bin Abdulaziz, que reside em Londres, à frente do rei Salman


O príncipe coroado Mohamed bin Salman (MBS) é considerado o verdadeiro poder no governo do seu pai, o rei Salman.

É quem dá as cartas na política internacional, segurança interna e externa, economia e no mais que lhe interesse.

O rei é a última autoridade na Arábia Saudita, só que ele costuma tomar decisões em momentos raros.

Como há um mês, quando cortou as asas do príncipe MBS, que estava voando alto demais, ao conspirar com o inefável Trump e Israel para impor um acordo desastroso aos palestinos.

“Aí não”, o rei teria dito a Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, “não vou permitir que cancelem os direitos do povo palestino”.

Agora, ele deve estar sendo pressionado, externa e internamente, para puxar o tapete do seu atrevido filho.

O assassinato do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi, foi uma bola fora de MBS.

Ele não esperava que o resto do mundo reagisse com tal furor contra a sua criminosa armação.

Afinal, pouco se protestara contra a guerra aérea saudita aos houthis, que no Iêmen já matou cerca de 17 mil civis e deixou 8 milhões dependendo da ajuda internacional para sobreviver.

Por que o assassinato de um único homem levaria a comunidade internacional a sair do seu conforto para fazer tanto barulho?

Responde Justin Raymondo, em Antiwar de 1 de novembro: “A atrocidade sobre Khashoggi trouxe o barbarismo dos sauditas para a escala humana individualizada”.

Parece que as compras bilionárias em armas, com que a Arábia Saudita vinha seduzindo a União Europeia e os EUA, não estão mais conseguindo os manter na linha.

No Reino Unido, a primeiro-ministra Teresa May recusa-se a aceitar as frágeis desculpas do reino do deserto. E os partidos da oposição, apoiados por parte dos conservadores, exigem sanções contra o reino.

E, nos EUA, o parça, Donald Trump, vai gradativamente aproximando-se da atitude belicosa da maioria do Congresso e da opinião pública. Fala até em eventuais sanções duras contra o responsável pelo assassinato.

E verdade que continua se negando a cancelar as exportações de armas para o reino do deserto.

Muito vivo, The Donald está se aproveitando do momento embaraçoso da Arábia Saudita para obter de Riad um grande aumento na produção de petróleo, a preço tão baixo que pode tirar o Irã do mercado internacional.

Cenário dos sonhos do presidente dos EUA, pois o favor saudita seria mais um duro golpe na já combalida economia iraniana. Por sua vez, MBS começa a viver um novo pesadelo.

O príncipe Ahmed bin Abdulaziz viaja para Riad com o fim de liderar um grupo de príncipes que deseja a queda do filho querido do rei Salman. Este novo ator que ora entra em cena é o irmão mais novo do rei Salman.

Em novembro do ano passado, o então todo-poderoso bin Salman promoveu uma razia nas altas rodas do reino, prendendo (e às vezes torturando) um punhado de grandes empresários civis e, principalmente, de príncipes vistos como opositores ao príncipe coroado.

No entanto, ninguém do ramo da família do príncipe Ahmed foi atingido, sua posição é muito forte.

Bem que MBS gostaria, pois Ahmed sempre se revelou um rebelde, uma pedra no seu caminho em direção ao trono real.

Ele foi um dos três membros do Conselho real contrários à entronização de MBS como príncipe coroado e sucessor do rei Salman.

Quando o rival foi oficializado como príncipe herdeiro, Ahmed não lhe prestou qualquer juramento de lealdade, ao contrário do que fizeram quase todos os outros príncipes reais.

Em 4 de setembro, um grupo de manifestantes realizou um protesto em frente à casa do príncipe Ahmed, em Londres, gritando slogans contra ele e a dinastia dos Saudi.

Ahmed foi ao encontro do grupo e afirmou que deveriam centrar suas críticas nos responsáveis pelo governo da Arábia Saudita, ou seja, o rei Salman e seu dileto príncipe coroado.

O príncipe rebelde estava em Londres quando se reuniu com vários outros membros da família real saudita, que, como ele, haviam se retirado do reino com medo de cair nas garras de MBS.

Previamente, ele já tinha consultado personalidades de destaque nos affairs do reino, que o apoiaram.

Nesses encontros, a opinião geral era de que chegara a hora de fazer o príncipe coroado cair do cavalo. O escândalo que ele provocara passava muito além dos mais vastos limites.

Segundo fonte do Middle East Eye, próxima ao príncipe dissidente: “Ele (Ahmed) e outros membros da família sentiram que MBS se tornara tóxico”.
Precavido, o príncipe Ahmed obteve garantias de altos funcionários dos governos dos EUA e do Reino Unido de que seria protegido contra eventuais punições ordenadas por MBS.

Diz a fonte do Middle East Eye que os representantes dos dois países apoiaram a ideia de Ahmed liderar um movimento pela destituição do príncipe coroado.

A mesma fonte esclarece que o príncipe dissidente almeja mesmo ser protagonista das mudanças necessárias.

Como a Arábia Saudita é uma monarquia, digamos, um tanto medieval, o príncipe Ahmed, somente por ser irmão do rei atual e filho de antigo rei, tem todas as credenciais para tomar o lugar do seu sobrinho.

Talvez não com tantos poderes, a essas alturas, o rei Salman deve ter aprendido que não foi uma grande jogada ceder tanto espaço a seu filho dileto. Não iria se arriscar outra vez.

Enquanto as coisas ainda andam turvas na corte de Riad, seu governo continua recusando que os investigadores do assassinato de Khashoggi vistoriem um poço nos jardins da casa do cônsul, há 500 metros do consulado. Para os autores do crime, seria muito conveniente para se ocultar os restos do jornalista.

Esse suspeito obstáculo é um indício de que o governo do reino não quer que as investigações avancem.

Como o procurador-geral da Turquia informou, as conclusões finais só seriam apresentadas depois de achado o cadáver de Khashoggi.

Enquanto isso, o príncipe real Turki bin Faisal Al Saud declarou: “o clamor nos EUA demonizando a Arábia Saudita sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado do reino em Istambul, ameaça os laços estratégicos EUA-Saudi.”

Diz a Reuters (31 de outubro) que esta advertência é um recado do reino aos EUA: o preço da imputação do crime à Arábia Saudita seria muito caro. Portanto, deixem o príncipe em paz.

Evidentemente, na frase do príncipe Turki, “Arábia Saudita” está sendo usada para se referir ao príncipe MBS.

Conclusão: o rei Salman não deve estar muito convencido de que vale a pena sacrificar MBS. E tudo indica que a posição do monarca no comando do país ainda é sólida. Se ele manda, todos murmuram amém.

O príncipe Ahmed não tem muitas chances de êxito em sua missão. Se conseguir voltar para Londres inteiro, não será de todo mal.

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Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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