Obrador no México: chance da esquerda mostrar serviço

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Lopez Obrador foi o primeiro esquerdista eleito presidente do México depois de Lázaro Cárdenas em 1934, que distribuiu terras aos camponeses e nacionalizou a exploração do petróleo. Com 53% dos votos, superou  seus principais adversários por mais de 30%, a maior margem já verificada numa eleição presidencial.

Depois de perder duas eleições presidenciais anteriores, Obrador ganhou movido pelo desencanto do povo por um sistema incapaz de resolver seus problemas cruciais: a pobreza, a corrupção e a insegurança.

Inicialmente, Peña Neto, o presidente anterior, parecia poder dar conta do recado.

Fiel seguidor do neoliberalismo, ele era visto nos meios econômicos como o “salvador do México”, pelas grandes reformas que promoveram a abertura do setor energético para a empresa privada, o aumento das exportações industriais igualando o total dos demais países latino-americanos, a inflação baixa (menos de 4%), entre outros pontos positivos.

Nada disso beneficiou as classes trabalhadoras, abandonadas pelo establishment político, indiferente aos baixos salários e às precárias condições de saúde e educação do povo.

De acordo com a ortodoxia neoliberal, o Banco do México (estatal) tornou-se não apenas o guardião da política monetária, como também da contenção salarial.

O resultado foi lógico. Como diz artigo do El País (12 de junho, 2018), a produtividade das manufaturas descolou dos gastos com mão de obra. Enquanto cresceu 18% em 10 anos, o salário médio real caiu 7,5%.

Afirma Boltvinik, do Colégio do México, que os salários reais no governo Peña Nieto foram inferiores aos pagos nos anos 70. Quase 49 milhões de pessoas não podem satisfazer às suas necessidades básicas com o que recebem mensalmente.

Apesar de o México ser a segunda economia da América Latina, seu PIB per capita é atualmente o 69º do mundo, no continente, atrás do Uruguai, Chile, Argentina, Brasil e Costa Rica.

Quarenta e seis por cento das pessoas vivem abaixo da pobreza, sendo que 25% estão ameaçadas de cair para essa situação.

Segundo informou Alícia Bárcena, secretária executiva da CEPAL, em entrevista à Telesur, o México é um dos países mais desiguais do mundo. Dois terços de toda a riqueza do país estão concentrados em 10% das famílias, sendo que um terço cabe a apenas 1%.

Bastariam estes números para justificar o voto do povo mexicano em um candidato contrário a Peña Nieto e aos demais representantes do sistema que colocou o México nessa situação pouco meritória.

Mas os níveis de criminalidade e corrupção também pesaram bastante. As gangues de traficantes de tóxicos, os chamados cartéis, são verdadeiras multinacionais, faturando 20 bilhões de dólares anuais. Isso lhes confere tamanho poder que controlam regiões inteiras, incluindo políticos, oficiais, governantes e membros do judiciário;

Eles travam verdadeiras guerras entre si e contra os soldados e policiais do governo. Calculam-se as perdas humanas nessa guerra civil em 355 mil mortos e 17 mil desaparecidos.

Os números dessa tragédia crescem de ano para ano. Em 2017, houve 31.174 pessoas assassinadas. Só em seis meses de 2018 chegamos a mais de 16 mil assassinatos, ou quase 26 para cada 100 mil habitantes.

Os abusos infligidos à população civil por aqueles que deviam cuidar de sua segurança vêm se multiplicando.

Em 2006, o procurador geral recebeu 23 queixas de torturas praticadas pelo exército e pela polícia. Oito anos depois essa cifra aumentou para 2.304.

Antes da eleição, o PRI, o partido de Peña Nieto, dominante na maioria das regiões do país, acumulou um número expressivo de ações corruptas por parte de políticos das várias instâncias do poder. Alguns deles já estão atrás das grades, muitos encaram processos criminais e investigações policiais.

Os episódios mais escandalosos foram protagonizados pelo ex-governador de Vera Cruz, Javier Duarte, preso por desviar 3 bilhões de dólares, e pela própria esposa do presidente, que recebeu um régio presente de uma empresa com grandes obras públicas: mansão, avaliada em sete milhões de dólares.

De um modo geral, a plataforma de Obrador falava em elevar a condição de vida dos trabalhadores, principalmente os mais pobres, reduzir o crime e eliminar a corrupção.

Nada de muito original. Acontece que ele dispõe de algo raro: credibilidade, alicerçada nas duas vezes em que governou o estado do México.

Antes mesmo de tomar posse – será em 1 de dezembro – Obrador já começou a fazer o que os políticos em geral não fazem: cumprir suas promessas de campanha.

Como ele tem maioria no Congresso recém-eleito (empossado em 1 de julho), o partido que lidera aprovou lei, limitando os salários de todos os que trabalham para o governo. De juízes e governadores de estado a funcionários públicos, nenhum poderá ter um salário maior do que o do presidente, que ganharia 108 mil pesos (24 mil, 710 reais), 60% menor do que ganhava o ex-primeiro mandatário, Peña Nieto. A lei também pôs ponto final nas pensões pagas a cinco ex-presidentes.

Foi atingido um número apreciável de altos funcionários do governo federal e do judiciário, que embolsavam entre 17 a 24 vezes o salário-mínimo.

A Suprema Corte, cujo presidente faturava 300 mil pesos, havia, pressurosamente, preparado um plano de austeridade adequado aos novos tempos. Claro, não tocava nos salários de seus eminentes membros e dos altos funcionários da república.

Os senadores do MORENA (nome da coligação que elegeu Obrador) rejeitaram essa obra por ser um tanto insuficiente – cortaria apenas 1% do orçamento do Judiciário.

O novo presidente dá muito valor à austeridade, pretende economizar, sim, mas sem descuidar da urgência em melhorar a vida da população mais pobre.
Ao contrário de presidentes do Brasil que costumam anunciar que estão cortando na própria corte, quando na verdade, reduzem salários, pensões e empregos alheios, Obrador informou que reduzirá pela metade o salário dele, presidente.

E mais: o palácio presidencial será transformado num centro de artes. A economia projetada por Obrador irá ainda mais longe, com a venda do avião do presidente. Trata-se de um Boeing 787 Dreamliner, que, encomendado na gestão de Vicente Calderón, começou a voar em 2012, levando o presidente Peña Nieto.

Obrador criticou as características de luxo desta aeronave, comentando que “nem Donald Trump tem igual”.

Em 1 dezembro, Lopez Obrador toma posse da presidência do México. Vai ser uma grande chance para a nova esquerda provar que sabe administrar com eficiência e moderação, valorizando o bem estar das massas, sem esbanjar recursos públicos em obras e ações populistas.

Objetivo, aliás, para lá de ambicioso. Especialmente no México, onde existe um profundo abismo social, que tem de ser transposto.

Salto que pode ser travado por recursos insuficientes e a fatal oposição de poderosos interesses locais e estrangeiros.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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