A diplomacia das ameaças

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Foi no Senado que Mike Pompeo, o secretário de Estado dos EUA, anunciou a nova orientação da política externa do presidente Trump: a diplomacia e as negociações são preferíveis em relação ao conflito e à hostilidade.

O modo com que o governo norte-americano está lidando com a Turquia, no caso da detenção do pastor Brunson, levanta dúvidas quanto ao neopacifismo de The Donald.

Esse reverendo missionário foi preso em dezembro de 2016, sob acusação de colaborar com a tentativa de golpe de Estado contra o governo Erdogan. Declarou-se inocente, é claro. Posteriormente, ele ganhou o benefício da prisão domiciliar. Recorreu várias vezes, a terceira em julho deste ano. Sempre sem êxito.

Se Brunson era culpado ou inocente, não temos aqui condições de saber.

Já Trump achou que sabia, tuitou neste mês clamando que Brunson era um grande patriota e exigiu sua liberdade ao governo de Ancara. Os turcos não se tocaram, a decisão estaria nas mãos da Justiça local.

Nada satisfeito, o mandatário estadunidense partiu para uma dura punição, dobrando seletivamente as tarifas sobre as importações do aço turco, que ficaram assim sem viabilidade comercial. Especialmente porque os EUA já tinham, em janeiro deste ano, aplicado um aumento das tarifas sobre as importações de aço, sobretaxadas, agora.

Os dólares auferidos nas vendas externas desse metal são muito importantes para as finanças do governo de Ancara. Sua sobretaxação contribuiu para detonar uma crise, aliás já em estado latente, que causou a desvalorização da lira turca em 40%.

Para Edwark Parks, da Brooks MacDonald, firma inglesa de gerenciamento de investimentos, as novas sanções “são a palha que quebra as costas de um camelo” (RT News, 18 de julho de 2018).

Erdogan, presidente da Turquia, não deixou passar batido. Reagiu à altura, dobrando as tarifas aduaneiras de uma série de produtos norte-americanos como automóveis, bebidas alcoólicas, entre outros itens.

A Casa Branca demostrou grande irritação. Através de Sarah Sanders, sua porta-voz, declarou a taxação turca ilegal, uma chocante retaliação. Segundo Sarah, muito diferente da sobretaxa norte-americana, que teria sido imposta com um motivo justo, os interesses da segurança nacional.

O que teria a segurança nacional dos EUA a ganhar com o corte da competitividade do aço turco no mercado estadunidense, a porta voz de Trump não explicou.

Nem precisava, na lógica do império nenhum país que considera periférico tem direito de retaliar as agressões da metrópole, ainda mais usando o mesmo tipo de armas por ela aplicadas.

Para Washington, isso se tratava de algo inadmissível, um desrespeito à ordem internacional.

Mike Pompeo, o fiel secretário de Estado, revelou a reação do seu chefe, proclamando que, agora, mesmo que Erdogan soltasse o pastor, as sobretaxas não seriam retiradas.

Mas deu um conselho aos turcos. Vocês “fariam melhor em não testar Trump”. Seria pior para os turcos. E The Donald tratou de mostrar o quanto isso significaria, ameaçando lançar novas penalidades caso seu pastor continuasse atrás das grades.

Faz lembrar o modo com que os mafiosos advertiam comerciantes que se recusavam a pagar por proteção. O clássico “é melhor para você fazer o que exigimos, senão...”

Não parece que o jeito de Trump negociar esteja sendo efetivo. Se ele diz que não adianta Erdogan soltar o pastor, pois as sanções não seriam retiradas, porque o presidente turco irá atender seu pleito? Acho que The Donald sabe disso. O que faz duvidar de que a prioridade do presidente seja, de fato, conseguir a liberdade do bom pastor, por sinal evangélico.

É de se crer que Donald Trump deve estar agindo por impulso do seu ego, ferido pela atitude desafiadora de uma nação de segunda classe. E ainda por cima, asiática. Impõe-se que aplique o devido corretivo, acenando com represálias assustadoras. O que, certamente, forçará Erdogan a fazer humildemente o seu mea culpa e libertar o reverendo.

E aí, já pensou? Os evangélicos norte-americanos se encherão de santa alegria pela ação vitoriosa do seu destemido presidente.

Estima-se que o eleitorado evangélico nos EUA soma 25 milhões de crentes. A maioria costuma votar no morador atual da Casa Branca. Ele espera que com o salvamento do pastor, essa tendência se reforce nas eleições parlamentares de novembro.

Conheça agora a continuação deste episódio, conforme o Middle East Eye relatou

Um diplomata turco informou à reportagem do site que, na semana passada, uma delegação de elementos, credenciados pelo governo de Ankara, viajou aos EUA para tentar resolver o impasse, em conjunto com os norte-americanos.

Eles propuseram que, em troca da soltura de Brunson, os EUA seriam lenientes numa investigação sobre o banco estatal turco Halkbank, ora acusado de burlar a proibição norte-americana de se negociar com o Irã.

Em resposta, os representantes de Trump informaram que o judiciário dos EUA era independente, não poderia ser convencido a atender Erdogan.

Ok, disseram os turcos, então libertem o vice-CEO do banco, que já está curtindo uma prisão local condenado a 32 meses por ter participado do mesmo lance em favor do Irã.

Os norte-americanos não quiseram saber de nada. “eles nos disseram”, informa a fonte do Middle East Eye: “Soltem Brunson imediatamente. Ou nós vamos impor novas sanções na Turquia”.

Por sua vez, The Donald afirmou enfaticamente que “os EUA não pagarão nada” pela libertação do pastor. Só restava aos enviados turcos fazerem as malas e voltarem para casa.

Indignado, Erdogan rugiu: “o que vocês estão fazendo? Isto é a Turquia! Nós não somos seus servos, nós somos uma nação de 81 milhões de habitantes que se mantém de pé em suas próprias pernas”.

Agora, é esperar pelos novos tuites de Donald Trump.

Agir assim, usando pressões e hostilidade, em vez da “diplomacia e das negociações”, supostamente privilegiadas pelo neopacifismo presidencial, é o verdadeiro estilo Trump de fazer política externa.

É o que está acontecendo quando ele tenta bloquear comercialmente o Irã para gerar uma crise de tal porte que obrigue Teerã a se render. E aceitar alterar o Acordo Nuclear, de acordo com as ideias de Donald Trump e do seu fraternal parceiro, Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel.

Visando dar maior eficácia à sua estratégia para liquidar o regime iraniano, o tuiteiro presidencial está pressionando, até mesmo seus tradicionais aliados da Europa. Ameaça fechar o riquíssimo mercado norte-americano para quem negociar com o Irã. Países e empresas que já estão atuando nessa região ou ali tem projetos de investimentos, veem-se obrigados a recuar, perdendo o muito já gasto, e/ou os altamente vantajosos empreendimentos que pretendiam implantar.

Mas, na eventualidade de o Irã não entregar os pontos, mesmo que as ameaças norte-americanas causem uma seríssima crise, The Donald leva na manga a carta de sua tremenda força militar. Apoiado por Israel e a Arábia Saudita, ele pode fazer chover mísseis sobre o país inimigo, em volume suficiente para “salvar” os iranianos do seu regime, ainda que precise massacrar uma multidão deles.

Para forçar os palestinos a aceitarem o “acordo do século”, que liquida o sonho palestino de independência, Trump não precisa recorrer às vias de fato.

Ele está usando como arma o poder econômico do seu país.

A ONU conta com uma agência que cuida dos milhões de palestinos, expulsos por Israel em 1948 e 1967. Essas pessoas vivem em campos de refugiados em diversos países árabes. A agência da ONU recebe de países e empresas os fundos para poder alimentar os refugiados e garantir escolas para as crianças. Os EUA, como o país mais rico, é o maior doador.

No começo do ano, The Donald anunciou um grande corte nos recursos que os EUA costumam disponibilizar. O objetivo era forçar a Autoridade Palestina a negociar com ele o seu inaceitável plano para a crise palestina.

O neopacifismo do presidente está funcionado. Até agora só chegaram 60 milhões de dólares dos 365 milhões anteriormente previstos (Reuters, 24 de abril, de 2018).

A situação dos refugiados começa a ficar desesperadora.

A Autoridade Palestina, que administra uma parte do território sob ocupação do exército de Israel, também está sofrendo na sua própria carne os cortes presidenciais. The Donald mandou congelar o fundo de 303 milhões oferecido pelos EUA para pagar despesas da administração e ajudar as populações mais desfavorecidas da região.

É injusto que o país líder da maior parte do planeta use seus recursos econômicos e militares superiores para obrigar os demais países a atenderem a seus interesses, mesmo quando contrários aos deles.

Num rebanho, a liderança de um cão pastor é sempre benéfica. Mas, e se o cão for, na verdade, um lobo?

Não há como negar a forte tendência lupina dos EUA de Donald Trump.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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