Por fim, a Europa levantou a luva

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Em 2008, em Berlim, falando para 200 mil pessoas, Barack Obama afirmou sua crença em “aliados que prestam atenção uns aos outros, que aprendem com cada um, que, acima de tudo, confiam uns nos outros”. Ele se referia à amizade entre Europa e EUA, nascida nos tempos da 2ª Guerra Mundial.

Foi quando os EUA se tornaram um “país indispensável” aos europeus por sua atuação decisiva na expulsão e derrota dos invasores nazistas. Na Guerra Fria, os norte-americanos continuaram sendo vistos pela Europa como seus líderes e protetores, diante da expansão da União Soviética e dos partidos comunistas.

A situação não mudou depois da queda dos soviéticos e do comunismo mundial. Embora não houvesse mais inimigos poderosos a temer, os governos da União Europeia não dispensaram sua estreita ligação com os estadunidenses. Em parte, por já terem se acostumado, em parte, por não ousarem se separar da mais forte potência do mundo.

Putin, com razão ou sem ela, reviveu o “perigo russo”, embora numa dimensão bem menor. A imagem de um EUA onipotente e onisciente, um amigo sempre solidário, transmitia aos europeus segurança e tranquilidade.

Valia a pena ter um líder desta magnitude, embora, por vezes, seus interesses fossem outros, em certas ocasiões quando alguns governos da Europa divergiam dos norte-americanos em questões pontuais, como na invasão do Iraque, contestada pela Alemanha e a França.

Por confiarem no discernimento dos líderes do outro lado do Atlântico, os europeus aceitaram unir-se ao presidente Obama contra a Rússia, sancionando-a por ter anexado a Criméia e por ajudar os dissidentes do leste ucraniano. Mesmo apesar das perdas econômicas de muitos países europeus, causadas pelo corte do comércio com Moscou.

A aliança fraternal e inabalável de 73 anos, que Obama, em Berlim, celebrou, e o povo aplaudiu, está virando pó por obra e graça de Donald Trump. Aterrados, os europeus assistiram aos golpes sucessivos vibrados por The Donald contra seus aliados de além mar.

Traições

Cedo perceberam que o America first rebaixava a Europa de parceiro e amigo para mero satélite, sem direito a opinar sobre questões de interesse recíproco, ou para inimigo, caso insistisse em ter luz própria.

Trump voltou sua artilharia contra a União Europeia, aprovando ruidosamente o Brexit e estimulando outras nações a seguirem esse caminho, desastroso para a comunidade.

Mais recentemente, nas vésperas de sua viagem ao Reino Unido, não teve dúvidas em pressionar esse país, até então virtualmente considerado sócio de Tio Sam. Avisou a primeira-ministra Teresa May que, no Brexit, caso aceitasse um acordo de mercado livre com a União Europeia, poderia dizer adeus a acordos com Washington, supostamente mais vantajosos.

Ameaçou retirar-se da OTAN, fazendo os governantes dos países ex-comunistas perderem o sono, temendo serem abandonados, sem defesa, à voracidade territorial de Vladimir Putin.

Para agradar especialmente às empresas locais produtoras de carvão, petróleo e gás, The Donald desertou do Acordo de Paris, que os países civilizados da Europa e do resto mundo sabiam ser necessário para enfrentar o aquecimento da Terra e seus efeitos catastróficos para todos, num futuro próximo.

Atendendo a Israel e seus poderosos lobbies nos EUA, ele também desertou do acordo nuclear com o Irã, que a Europa via como a solução para prevenir possíveis guerras no Oriente Médio, com reflexos negativos para a segurança mundial.

E fez mais: de modo imperial, decretou o bloqueio econômico do Irã, impondo a pena de fechamento do riquíssimo mercado norte-americano a quem ousasse desafiar seu diktat. Deu prazo até novembro para que ninguém mais comprasse petróleo e gás de Teerã, que, se atendido, vibraria um golpe destruidor na economia persa e na estabilidade do seu governo moderado.

Depois dos iranianos, quem mais sai prejudicado são os países da União Europeia, cujas empresas, que haviam investido no Irã e planejavam ampliar pesadamente sua participação, têm agora de encarar a opção de ceder à pressão de Washington e assim renunciar a rendimentos substanciais.

Ainda neste ano, os antigos aliados ficaram chocados quando Trump, sem explicações, retirou-se da reunião do grupo dos 7, chamando o anfitrião, o primeiro-ministro canadense, de incompetente e fraco. E ainda se recusou a assinar as conclusões do evento, impedindo assim sua publicação, algo inédito na história do Grupo dos 7.

Desdenhando dos princípios do liberalismo econômico, que ele diz respeitar, impôs pesadas tarifas sobre as importações de alumínio e aço, prejudicando os países exportadores, vários deles, europeus.

Sua reação aos protestos foi típica dos autocratas: ameaçou, particularmente os “ex-irmãos” europeus, de aplicar taxas sobre todas as importações dos produtos deles.

A justificativa foi uma piada de mau gosto: “nós não temos jogo limpo com a Europa nos negócios, atualmente. Eles nos tratam horrivelmente”. Sem dúvida uma ideia original, pela primeira vez na história do planeta seriam os satélites que exploravam a metrópole.

Mas, afirmou The Donald, “isso vai mudar. Se eles não mudarem, vão pagar um alto preço. E eles sabem que preço será”.

Novos tempos

A Alemanha ganhou menção especial, por ser o mais destacado país da União Europeia. “Os alemães são maus, muito maus... Vejam os milhões de carros que eles vendem nos EUA. Terrível. Vamos acabar com isso”, clamou o mandatário ianque.

Entre outras observações semelhantes, ele veio com esta: “a Alemanha deve vastas somas de dinheiro à OTAN e os EUA deveriam ser bem pagos pela poderosa e muito dispendiosa defesa que dá à Alemanha”.

Depois de algumas das posturas bizarras do morador da Casa Branca contra a União Europeia, a primeira-ministra Angela Merkel concluiu que muita coisa havia mudado.

Em maio de 2017, ela proclamou: “este parece ser o fim de uma era, na qual os EUA mandavam e a Europa obedecia”. Mais adiante: “os tempos em que poderíamos confiar nos outros (referindo-se aos EUA), acabaram”. E ela apontou a saída: “nós europeus temos realmente de tomar nosso destino em mãos”

Trump pôs mais lenha no fogo, em entrevista à CBS News, em 15 de julho último: “eu penso que a União Europeia é um inimigo, pelo que eles fazem conosco no comércio”.

Por fim, tendo aguentado mais de um ano e meio de pancadas, respondidas apenas com suaves críticas, temperadas com declarações de um amor na verdade desfeito, a Europa resolveu agir.

As ameaças de tarifar pesadamente suas exportações para os EUA disparadas por Donald foram contra-atacadas à altura: também seria tarifada a entrada de produtos estadunidenses, desde arroz, jeans e suco de laranja até motocicletas e diversos produtos de aço.

Defendendo o direito de as empresas europeias negociarem com o Irã, apesar das sanções, a União Europeia lançou uma nova regulamentação. Aconteceu na noite do mesmo dia em que os EUA anunciaram a segunda etapa de suas sanções contra as empresas estrangeiras que ousassem desafiar a proibição.

Mudanças de comportamento

Nathalie Tucci, conselheira especial da União Europeia explicou: “se as empresas da União Europeia respeitarem as sanções secundárias, elas serão, em troca, sancionadas pela União Europeia”.

O The Guardian de 6 de agosto último deu, mais informações “As firmas europeias foram instruídas a não respeitar às exigências da Casa Branca para que encerrassem todos os seus negócios com o Irã. Aquelas que decidirem sair por força das sanções dos EUA terão de receber autorização da comissão europeia, sem a qual irão encarar os riscos de serem processadas pelos Estados-membros da União Europeia. Um mecanismo está também sendo aberto para permitir que negócios europeus afetados pelas sanções possam processar a administração dos EUA nas cortes nacionais dos Estados-membros”.

Os funcionários da Europa Unida afirmam que serão rigorosos na revisão das exceções, para evitar a anulação dos efeitos das medidas europeias por eventuais autorizações excessivas.

Essa proteção a empresas interessadas no Irã estava demorando a vir. Por isso, as sanções de Trump já haviam começado a funcionar. Por exemplo: as exportações alemãs aos iranianos caíram 4% nos primeiros cinco meses de 2018, depois de terem crescido 16% no ano passado, conforme a Câmara Alemã de Comércio e Indústria.

Subitamente, parece que um outro Trump tinha assumido a presidência dos EUA. Uma semana depois de lançar a segunda etapa das sanções contra empresas, inclusive europeias, que investissem no Irã, ele vestiu uma pele de cordeiro ao convidar Juncker, o presidente da comissão europeia, para um papo amigo em Washington. E aí, para surpresa geral, The Donald propôs uma nova aliança com os inimigos de poucas semanas atrás. “Vamos zerar as tarifas de comércio entre nossos países”.

Aturdido, Juncker topou e já foi anunciando que poria os técnicos europeus a trabalharem no estudo dessa ambiciosa proposta.

O morador da Casa Branca apressou-se a declarar para jornalistas que a aliança já estava consumada.

Falou que as duas forças “iriam zerar tarifas, zerar barreiras não tarifárias e zerar os subsídios em produtos industriais não-automotivos. Nós também vamos trabalhar para reduzir as barreiras e aumentar o comércio em serviços químicos, farmacêuticos, produtos médicos, assim como em soja”.

E Trump ainda adiantou, talvez sem ter ouvido Juncker, que a Europa iria preparar instalações portuárias para poder importar gás líquido dos EUA.
Aí, parece ter pulado para conclusões precipitadas.

No referente ao gás, a Alemanha é sócia da empresa russa Gazprom na produção do gasoduto Nord Stram 2, que irá duplicar as vendas de gás natural à Europa e atender a 80% das necessidades alemãs.

Ainda outro dia, Trump, preocupado em vender o gás líquido de seu país, atacou as volumosas importações alemãs do gás russo, afirmando que isso estava acarretando a dependência do governo alemão ao de Putin, o que provocou uma irritada réplica de Merkel, farta da inconveniente sofreguidão do morador da Casa Branca.

Não é de se crer que a Europa vá mudar de fornecedor a fim de favorecer as empresas norte-americanas protegidas por Trump. Se fosse assim, teria de pagar preços mais altos, além de incorrer em substanciais despesas na construção de instalações específicas para receber o gás líquido dos EUA.

Desgaste indisfarçável

A verdade é que The Donald está longe de ser uma figura bem vista na maioria dos países do velho continente. Aceitar sua tarifa zero, sem profundas análises, é um risco desmedido, um salto demasiado alto, que poderia resultar numa queda do mesmo teor.

Apesar da euforia de Junker em já ir dando o sim, há dúvidas que de que esse ambicioso plano de tarifa zero seja concretizado.

Dúvidas subsistem na explicação da brusca mudança de Donald Trump nas suas relações com os europeus.

A mais provável é que, tendo começado uma guerra econômica contra a poderosa China, o irrequieto morador da Casa Branca sinta a necessidade de ter aliados.

Ainda que ele veja nos europeus concorrentes e adversários, convém unir-se a eles para enfrentar uma potência mais forte.

Terá antes de superar a falta de uma confiança que existia e ele próprio destruiu.

Cecilia Malmström, assessora da Comissão Europeia, anunciou a elaboração de uma lista com 20 bilhões de dólares em bens dos EUA, cujas importações seriam gravadas, em retaliação a uma eventual imposição por Washington de tarifas sobre bens exportados por países europeus.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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