O que vale para uns, não vale para outros

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Vendo Trump, Macron e madame May se apresentarem como defensores da liberdade, dos direitos humanos e das leis internacionais, ameaçados pela Rússia e países islâmicos aliados, é de se imaginar: que grandes artistas Hollywood está perdendo.

Lembramos dos reis da Idade Média, que convocavam o mundo cristão para conquistar Jerusalém dos bárbaros turcos, clamando: Deus o quer!

Na verdade, quem o queria eram eles, de olho na busca de saídas para seus problemas políticos, econômicos, demográficos e até psicológicos.

Como no passado, os líderes das grandes potências atuais invocam seus elevados valores para encobrir razões interesseiras. E de forma seletiva. Só valem para condenar os povos que não rezam pela cartilha ocidental. São letra morta quando violados por nações cuja amizade lhes interessa.

Os casos da península da Crimeia e das colinas de Golã são bons exemplos dos dois pesos e duas medidas vigentes na política internacional.
Habitada por tártaros, a Crimeia foi conquistada em 1783 pela czarina Catarina a Grande, sendo então integrada ao império russo.

Cerca de 150 depois, já no regime comunista, Stalin deportou 190 mil tártaros (toda a população da Crimeia) para o Uzbequistão, dizendo que tinham sido colaboradores dos invasores nazistas. Mais de 40% morreram na viagem ou no exílio.

Em lugar dos tártaros expulsos, muitos milhares de russos étnicos foram se mudando para o clima suave da Crimeia, fugindo do rigoroso inverno da Rússia.

Em 1954, Nikita Kruschev decidiu passar a península para a Ucrânia, então uma das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Mas, somente em 1981, os tártaros puderam voltar para seu país de origem.
Em 1991, depois da queda do regime soviético, a Ucrânia tornou-se independente, porém, a Rússia continuou mantendo estreitos laços políticos e econômicos com a nação.

A Crimeia e o Golã

Em 2014, com participação ativa dos EUA, triunfou na Ucrânia uma revolução contra o regime pró-Moscou, considerada por George Friedman, presidente do respeitado think-tank Strafor, “o mais clamoroso golpe da história”.

Ao ver a perda dessa ovelha do seu rebanho, a Rússia reagiu, ocupando militarmente a Crimeia.

Algo semelhante aconteceu nas chamadas Colinas de Golã. Trata-se de uma região que era da Síria há séculos. Sua população foi sempre quase toda síria, com pequena porcentagem de drusos.

Em 1967, Golã foi tomada pelas tropas de Israel, durante a guerra desse país contra os sírios e outros povos árabes.

Derrotado, o exército de Damasco retirou-se. Enquanto isso, metade da população síria de Golã fugiu para o território sírio, temendo os bombardeios israelenses.

Esperavam que, com o cessar-fogo, pudessem voltar para seus lares e terras no Golã.

Mas Israel não permitiu. Os refugiados sírios que procuraram cruzar a fronteira foram taxados de infiltrados e recebidos à bala, para desestimular novas tentativas.

Aqueles que conseguiram penetrar foram alvo de perseguições intensas pelos soldados, sendo capturados e sentenciados a penas de prisão.

Terminada a guerra, as dezenas de milhares de sírios, que tinham permanecido no Golã, não escaparam da expulsão. Apenas os drusos puderam continuar na região.

Em 2010, investigação do jornal Haaretz mostrou que cerca de 130 mil sírios tinham sido expulsos do seu próprio país, em 1967. Na mesma época, o exército de Telavive destruiu 200 aldeias sírias.

Segundo o jornal online +972 (edição de 18-7-2017), os soldados forçaram os moradores sírios a assinarem cartas nas quais afirmavam estarem entregando suas casas e saindo do país voluntariamente, completando-se assim o domínio total das Colinas de Golã pelo Estado de Israel.

Foi diferente na Crimeia. As autoridades provisórias, nomeadas pelo exército russo, promoveram um referendo, em 2014, logo depois da ocupação. A população deveria dizer se preferia tornar-se parte da Rússia ou continuar sendo ucraniana; 96,87% declararam que queriam integrar a Crimeia na Rússia. Os tártaros, então entre 10% e 12% da população, preferiram se abster.

Para se organizar a anexação e a organização da península, realizaram-se eleições, vencidas pelo Partido Rússia Unida, que elegeu 70 parlamentares, seguido pelo Partido Liberal e pelo Partido Comunista.

O governo de Telavive não perdeu tempo nem com referendos, nem com eleições. Em 1981, limitou-se a declarar o Golã oficialmente anexado ao Estado de Israel, sendo sua administração entregue a políticos escolhidos pelo governo.

Tratou-se então de estimular judeus a virem se instalar em assentamentos. Em 2008, estimava-se que 12 mil deles já viviam nas terras e cidades no Golã, tomado da Síria.

Os sírios mal organizados, realizaram assim mesmo uma série de manifestações pedindo que a região fosse devolvida ao país, ao qual sempre pertencera.

A mais significativa verificou-se em junho de 2011. Reporta o Clarin que pelo menos 23 manifestantes sírios e palestinos foram mortos e 315 feridos por disparos de soldados israelenses, numa jornada de protesto, lembrando a Guerra dos Seis Dias e a chamado Nakba (memória da derrota e expulsão dos palestinos de Israel).

Seis meses depois, uma multidão de ativistas tentou cruzar a fronteira, vindos da Síria. O exército de Israel reagiu da forma costumeira, matando a tiros 14 dos manifestantes e ferindo centenas (Associated Press, 5-11-2017).

Os opositores tártaros do governo da Crimeia também não estão sendo bem tratados. Eles reclamam contra discriminações na região; um tártaro só é contratado se nenhum russo quiser o emprego.

Desde anexações, ativistas tártaros étnicos que se opõem ao governo têm sido presos e submetidos a violências em instituições mentais antiquadas, acusa Robert van Voren, ativista holandês de direitos humanos e cientista político.

A Crimeia SOS, um grupo de advogados ucranianos, anunciou que 43 ativistas tártaros foram sequestrados desde a anexação – provavelmente por autoridades russas. Dentre eles, 18 estão em local desconhecido e seis foram encontrados mortos.

Dois pesos e duas medidas, como sempre

São apenas alguns exemplos, há mais, atingindo também russos e tártaros contrários aos governos do presidente Putin e da península. No Golã, a situação dos sírios está longe de ser aceitável.

Em 2016, a população total do Golã era de 47 mil habitantes, sendo 25,2 mil judeus; o restante drusos, em maioria. Os poucos sírios que sobraram das perseguições habitam uma única aldeia. Eles são alvo de contínuas discriminações pelas autoridades.

Já os drusos (que não são muçulmanos) vivem em quatro aldeias e são bem tratados pelo governo, que lhes oferece até a cidadania israelense. A maioria tem recusado, preferindo manter sua nacionalidade síria.

Há dois anos, os judeus estavam instalados em 30 assentamentos. Segundo o ministro Naftali Bennett, expoente do partido Lar Judeu, objetiva-se aumentar a população judaica em cerca de 100 mil pessoas, no prazo de 5 anos.

Há um plano do governo de Telavive em desenvolvimento que beneficia os judeus (em especial) e também os drusos. Os habitantes sírios estão de fora.
Todos estes dados são de estudo publicado pelo Haaretz em 6 de maio de 2016.

Os recursos de água do Golã são abundantes, abastecendo 1/3 das necessidades do Estado de Israel.

Em 2015, a empresa Afek descobriu importantes reservas de petróleo na região, calculadas em um bilhão de barris. O que poderá produzir 100 milhões de barris por ano, atendendo ao consumo de Israel e tornando o país independente da importação do produto.

As prospecções estão em pleno andamento. Se Israel quiser seguir as regulamentações internacionais, os lucros da exploração deveriam ir para a Síria. O acordo de Haia determina que os recursos naturais de um país ocupado não poderão reverter para a potência que o ocupa. Até agora, Israel tem ignorado essa sua obrigação legal. Ninguém acredita que vai mudar de postura.

A Crimeia também está sofrendo diferenças significativas desde sua anexação à Rússia, em 2014.

Nesse ano sua população era de dois milhões, duzentos e quarenta mil habitantes, a maioria de etnia russa, sendo os tártaros entre 240 mil e 300 mil.

Como o Ocidente não reconheceu o novo status da região, várias firmas norte-americanas se retiraram do país.

No entanto, segundo o chefe do legislativo local, um ano e seis meses depois da anexação, a região atingiu um índice de crescimento entre 17% e 18%, devido especialmente ao incremento do turismo russo e a cobrança criteriosa dos impostos.

Por outro lado, com a equalização dos salários dos funcionários públicos da Crimeia aos dos demais funcionários públicos russos, houve uma redução significativa.

Tanto a anexação de Golã quanto a da Crimeia foram condenadas pela ONU. Ambas são ilegais diante do direito internacional.

Em conformidade com esses fatos, o Ocidente penalizou a Rússia. Pesadas sanções foram aplicadas contra o governo de Moscou pelos EUA e a Europa, abalando a economia russa, que caiu 2,8% em 2015.

Mas o país conseguiu se recuperar, atingindo um crescimento de 1,5% em 2017, prevendo-se um PIB de 2,1% para este ano.

A carcomida hipocrisia ocidental e onusiana

O tratamento dado pelas potências ocidentais a Israel, pela anexação do território sírio do Golã, foi muito diferente.

Alguns países, inclusive os EUA, manifestaram-se contra a ação israelense.
No entanto, nem os EUA, nem a Europa e muito menos a ONU aplicaram qualquer sanção ao governo de Telavive.

E hoje não se fala mais no caso. Tranquilo quanto a isso, o primeiro ministro Benjamin Netanyahu declarou que o Golã “permanecerá em mãos de Israel para sempre”. Esta espantosa afronta ao direito internacional e à ONU foi feita diante do próprio presidente da organização, Antonio Guterres, que se limitou a um sorriso amarelo.

Não dá para concluir de outro modo: o que vale para a recalcitrante Rússia não vale para Israel, o maior amigo dos EUA, segundo o presidente Trump.
Como o agente 007, Israel tem licença para matar qualquer proibição legal internacional. Os EUA garantem.

Quanto à comunidade europeia, ainda liderada por Washington, nunca tentou, nem provavelmente tentará, obrigar Israel a devolver o Golã à Síria, a quem legitimamente pertence.

Nem por isso, os grandes estadistas russos e europeus deixam de proclamar sua incondicional defesa dos valores da civilização moderna. Em toda e qualquer circunstância. Justificando sua participação no bombardeio da Síria, Macron chegou a se exaltar, tomado aparentemente por forte emoção.

Cada vez mais me parece menos exagerado o desabafo de Robert Fisk, o mais antigo e reputado comentarista político do Oriente Médio: “por que nos preocupamos com o que os grandes líderes do Ocidente falam, quando nós todos sabemos que é aquele tipo de matéria que sai do traseiro de um boi?”.


Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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