Bloqueio saudita espalha fome e epidemias no Iêmen

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A revolução houthi defenestrou o presidente Hadi, que fugiu para a Arábia Saudita. Solidários, os sauditas montaram uma coalizão de nações amigas e invadiram o Iêmen.

Exércitos da coalizão conquistaram o importante porto de Áden e boa parte do país. Enquanto isso, a aviação saudita deflagrou uma campanha de pesados e constantes bombardeios contra os houthis e o povo das regiões por eles controladas.

Apesar de dois anos e nove meses de guerra, os rebeldes resistem, ocupando quase toda a região norte, inclusive a capital, Saná.

O lançamento pelos houthis de um míssil contra o aeroporto de Riad deixou o rei e o príncipe herdeiro furiosos. Apesar do engenho, interceptado pelo sistema local antimíssil, não ter causado dano algum, eles ordenaram o bloqueio total do aeroporto e dos portos sob domínio dos adversários. Foi uma retaliação e tanto.

Os houthis não puderam mais receber do exterior os alimentos (90% são importados), medicamentos e combustíveis indispensáveis ao povo.

Na verdade, os iemenitas já vinham sofrendo as terríveis consequências dos anos de guerra. A infraestrutura do país, a rede de serviços públicos, suas empresas, seu sistema de abastecimento e o aeroporto de Saná encontravam-se semidestruídos pelas centenas de bombardeios sauditas. E o bloqueio naval do porto de Hodeida reduzia drasticamente as importações concretizadas, causando escassez de alimentos e carências graves na saúde pública.

Problemas que, com o bloqueio total, tendiam a crescer e se agravar de forma cada vez mais devastadora.

Daí os sucessivos apelos da ONU e das organizações de direitos humanos no sentido da interrupção do bloqueio total. Jamais atendidos.

Em 30 de novembro, Teresa May, primeira-ministra do Reino Unido, pediu ao príncipe herdeiro Mohamed que sustasse o bloqueio, devido a suas consequências desumanas.

Pouco depois, em 6 de dezembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, fez o mesmo, invocando também razões humanitárias.

Sendo aliados íntimos do reino dos petrodólares, esperava-se que seus apelos tivessem resultado.

Num gesto majestoso, o príncipe saudita concedeu um alívio ao bloqueio. Permitiu o desembarque de um grande carregamento de alimentos.

Mas, ficou nisso. Hoje, 17 de dezembro, o bloqueio continua e dura  41 dias.
Em todo o caso, valeu a intenção de Teresa e Donald.

Possivelmente resultado de suas consciências pesadas. O governo da líder britânica já vendeu 4,6 bilhões e dólares em caças e armas de vários tipos que, certamente, aumentaram a eficiência da coalizão na sua obra destrutiva.

Por sua vez, The Donald manteve o reabastecimento em voo dos aviões sauditas (iniciado por Obama), permitindo que pudessem voltar a bombardear de imediato houthis e civis. E, no começo de novembro deste ano, anunciou um pacote de 110 bilhões de dólares em vendas dos mais modernos armamentos, a serem usados pelos sauditas na guerra do Iêmen.

Para muitos experts, a estratégia de Riad para submeter os houthis é usar a fome como arma de guerra. É a opinião de uma entidade altamente respeitável, o World Food Programme (Reuters 11-12-2017).

Há dados objetivos em favor desta análise. Relatório de pesquisa de Martha Mundy, professora emérita da London School of Economics, diz: nos primeiros 17 meses da campanha de bombardeamentos sauditas revelaram-se “fortes evidências de que a estratégia da coalizão visava destruir a produção e distribuição de alimentos” das áreas controladas pelos houthis e aliados (The Guardian, 12-12-2017).

Os números relativos aos bombardeios, principais protagonistas na execução dessa estratégia foram registrados pelo Yemen Data Projetc: 356 raids aéreos atingindo fazendas, 174 atingindo mercados e 61 raids aéreos contra depósitos de alimentos – contabilizados somente no período de março de 2015 a setembro de 2017. Somando aos ataques realizados nos demais dias da guerra, esses números serão bem maiores.

Também houve uma preocupação especial para reduzir ao mínimo as possibilidades das pessoas comerem peixe. Segundo o líder da União dos Pescadores de Hodeida (principal porto controlado pelos houthis), mais de 250 barcos de pesca foram destruídos ou danificados e 152 pescadores mortos por vasos de guerra e helicópteros sauditas.

Esta “estratégia de fome” era muito usada para submeter cidades amuralhada durante a Idade Média, quando os direitos humanos não eram valorizados como atualmente. Aparentemente, essa evolução não passou pela Arábia Saudita...

Não se pode negar que os resultados obtidos pelas forças armadas da coalizão liderada pelos sauditas foram contundentes.

Em 4 de dezembro, havia 400 mil crianças iemenitas sofrendo severa e aguda má nutrição, conforme a World Humanitarian Organization

Para um funcionário sênior da ONU, 8,4 milhões de pessoas estavam “a um passo da fome”.

A OCHA (coordenação de ajuda humanitária da ONU) informa que 20,7 milhões de pessoas no Iêmen precisam de algum tipo de ajuda humanitária para sobreviverem, sendo que cerca de 9,8 milhões acham-se em necessidade aguda de assistência. E a OCHA calcula que 17 milhões do habitantes - 60% da população total do país – vivem em situação de insegurança alimentar, sem acesso permanente a alimentos.

O sistemático bombardeio de redes sanitárias, usinas elétricas, hospitais e redes de água, somam-se à falta de alimentos e combustíveis, tonando os iemenitas extremamente suscetíveis de contraírem moléstias graves.

Quatro quintos da população de 28 milhões de habitantes – inclusive 11 milhões de crianças - necessitam de alguma assistência humanitária urgente (Libertarian Institute, 13-12-2017).

Nesse cenário desolador do Iêmen, instalou-se uma epidemia de cólera. Em 2 de novembro, a Chatam House calculava em 900 mil o número de casos suspeitos, mais do que os 815 mil do Haiti. O que faz a epidemia de cólera do Iêmen a maior do mundo, na história recente. De acordo com o Save the Children, 600 mil crianças já estão infectadas.

Espalhando-se celeremente, a epidemia de cólera atingiu no mês de dezembro 1 milhão de pessoas, superando em 100 mil o recorde de novembro. Em outubro, registravam-se mais de 2 mil mortes (World´s Health Organization).

Mas o pesadelo continua. A Arábia Saudita não pretende cancelar o bloqueio total do Iêmen, diz que isso já foi feito. Até os EUA discordam.

Mark Green, administrador da USAID, comenta: “isso significa que um número de comunidades continuará ou em breve ficará sem água, em ambos casos há terríveis preocupações quanto a perspectivas de cólera e perspectivas de sobrevivência” (Reuters, 12-12-2007).

Há muito mais a dizer

Centenas de milhares de pessoas morrerão nos próximos meses se não receberem os cuidados desesperadamente necessitados (The Libertarian, 13-12-2017), incluindo nessa fúnebre previsão 150 mil crianças carentes de uma alimentação minimamente saudável (World Food Program).

Antes do início do bloqueio, outra epidemia maligna havia se abatido sobre o povo iemenita: a difteria.

O New York Times (1-12-2017) denunciou que o bloqueio rapidamente tornou mais grave o que já era uma das maiores crises humanitárias, ao negar ao Iêmen a disponibilidade urgente dos necessários alimentos, combustíveis e remédios. Trouxe a difteria, uma doença que havia desaparecido do Iêmen há 25 anos, a qual já é encontrada em 13 dos 25 governadoratos (definição equivalente aos estados regionais) do país.

A difteria se espalha facilmente, como um resfriado. Pode ser ainda mais fatal do que a cólera, especialmente entre crianças com menos de cinco anos, que não foram vacinadas. Dois em cada cinco casos de difteria terminam em morte (Médicos Sem Fronteiras).

Autoridades no assunto advertem que, por se disseminar rapidamente, a difteria pode, em pouco tempo, gerar uma epidemia no Iêmen, caso os profissionais de saúde não possam aplicar antitoxinas e vacinas. No momento, eles dispõem de pequenas quantidades.

Num balanço em 14 de dezembro, a World Health Organization verificou que já existem 33 mortes causadas por difteria e 200 casos suspeitos, contando-se entre eles muitas crianças, sendo que a maioria não foi imunizada contra a doença (Middle East Eye, 14-12).

Mark Lowcook, técnico sênior da ONU, fez um prognóstico dos mais sombrios: pelo menos 7 milhões de iemenitas morrerão de fome por causa do bloqueio. A não ser que ele seja totalmente cancelado, o país sofrerá “a maior fome que o mundo já viu em muitas décadas”.

É uma situação em que se torna mais necessária uma ação firme e urgente da ONU.

Afinal, na guerra do Iêmen, a coalizão saudita já infringiu uma série de decisões da entidade, de cláusulas da Convenção de Genebra, dos direitos humanos e do Direito Internacional. Com isso, causou a maior crise humanitária no planeta, nos dias de hoje. E ainda ameaça provocar uma fome no Iêmen jamais vista, além de espalhar terríveis epidemias por todo o país.

Ouço dizer que, por iniciativa dos EUA, Antonio Guterres, secretário-geral da ONU vai convocar uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, para discutir se o míssil que recentemente maculou os ares sauditas era de autoria iraquiana. O que tornaria o governo de Teerã culpado de, imagine só, desobedecer resolução anterior do organismo das Nações Unidas.

Aparentemente, Guterres, e os governos dos EUA e dos demais países que apoiam a solicitação norte-americana, consideram o lançamento deste míssil – que não feriu ninguém, nem causou qualquer dano mais grave do que os horrores desencadeados sobre o povo do Iêmen pelos milhares de mísseis e bombas da coalizão saudita.

Sua Majestade, o rei Salman, e Sua Alteza, o príncipe herdeiro Mohamed bin-Salman estão recebendo consideração incomparavelmente maior do que a recebida pelas dezenas de milhões de vítimas do furor destas nobres figuras.

Como disse Albert Camus, “um homem sem ética é uma besta selvagem, deixada solta no mundo”.

Acho que o mesmo sentimento pode ser aplicado a países e governos.
O Tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes dos nazistas, talvez não fosse tão complacente com os responsáveis pela guerra do Iêmen, como as grandes potências são.

Veja o que escreveram os juízes em Nuremberg: “iniciar uma guerra de agressão não é apenas um crime internacional; é o supremo crime internacional, diferente dos outros crimes de guerra porque ele contém em si o mal acumulado de todos os outros (crimes de guerra)”.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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