Os EUA ordenam, o Iraque não obedece

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Já não se respeita os EUA como antigamente. O secretário do Estado, Rex Tillerson, acaba de receber esta dura lição.

Em reunião com Abadi, o primeiro-ministro iraquiano, o representante de Donald Trump determinou: “as milícias iranianas que estão no Iraque, agora que a guerra contra o Estado Islâmico (EI) está chegando ao fim, devem voltar para casa. As milícias estrangeiras no Iraque precisam voltar para casa e deixar que o povo iraquiano recupere o controle”.

Na ocasião, um assessor norte-americano sênior informou que Tillerson referia-se às milícias patrocinadas pela Quds Force, a poderosa força paramilitar do Irã (BBC News, 26-10-2017). Disse ainda que, quanto às milícias iraquianas xiitas, o secretário de Estado as quer desmobilizadas, com seus integrantes alistando-se no exército do governo de Bagdá ou dando adeus às armas.

Com sua declaração, Tillerson cometeu dois erros. O primeiro foi um desrespeito à soberania do Iraque. Esse país não é uma colônia dos EUA, a quem se pode dar ordens, com certeza de serem reverenciadas.

Apesar do decisivo apoio aéreo norte-americano na guerra contra o EI, o Iraque não está mais ocupado militarmente por forças dos EUA. É um país independente, livre para tomar as suas decisões, sem atender a exigências estrangeiras.

Seu primeiro-ministro disse “não” ao secretário de Estado estadunidense. O segundo erro da autoridade foi chamar de iranianas as milícias que, integradas às forças de Bagdá, participam das lutas contra o EI e na recuperação de territórios ocupados pelos curdos.

A maior das milícias, o PMU (Unidades de Mobilização Popular) é uma coalizão de grupos basicamente iraquianos xiitas, embora integrada também por turcomanos, yazidis, árabes de outros países e até mesmo iranianos. O primeiro-ministro Abadi é membro destacado do principal grupo, a Badr Brigade, que lutou ao lado dos norte-americanos no cerco de Mosul e contra eles, durante a ocupação do país pelas forças de Washington.

É fato que as milícias do PMU são financiadas, armadas e treinadas pelo Irã, mas a grande maioria dos seus membros é de iraquianos, comandados também por iraquianos.

Foi o que Abadi disse a Tillerson, acrescentando que “eles (os milicianos) devem ser encorajados porque serão a esperança da nação e da região”.

Talvez emocionado, o primeiro-ministro completou: “(eles) defendem sua nação e se sacrificam para derrotar o Estado Islâmico”.

Nem pensar em desmobilizar as milícias e mandar seus integrantes para casa. Mesmo porque eles já estão em casa...

Por sua vez, uma autoridade iraquiana informou que as milícias desempenham um papel importante no país. Elas integram formalmente a estrutura das forças de segurança, estando adstritas a um ministério do governo de Bagdá.

As milícias se formaram em 2014, quando dezenas de milhares de cidadãos atenderam a apelo de Sistani, o principal aiatolá do Iraque, depois do ISIS conquistar um terço do território nacional.

Hoje são 100 mil milicianos, uma força respeitável, indispensável ao Iraque, como Abadi fez sentir a Tillerson.

Falando aos jornalistas, o primeiro-ministro não foi muito diplomático: “os norte-americanos estão fazendo seu próprio jogo, usando suas próprias regras e confiando em certas facções. No entanto, o Iraque opera no seu próprio território, de acordo com seus próprios poderes, confiando no apoio dos seus filhos, seus partidos e movimentos políticos, com apoio daqueles que se sacrificam pelo bem de sua nação”.

Claro, sem os ataques da força aérea estadunidense seria difícil recuperar os territórios tomados pelos fanáticos radicais islâmicos. No entanto, é preciso considerar que Trump não está gastando o dinheiro dos contribuintes com a ajuda militar ao Iraque por amor aos iraquianos. Mas porque interessa aos EUA.

Tillerson deve ter aprendido com Abadi que a gratidão de países amigos tem limites. Talvez por isso ele tenha sido mais comedido na segunda etapa de sua excursão de propaganda anti-Irã pelo Oriente.

Depois de ouvir da primeiro-ministro da Índia que seu país mantinha boas relações com Teerã e queria continuar assim, Tillerson respondeu “tudo bem” e salientou que os EUA nada tinham contra o povo iraniano, apenas não gostavam das Qud Forces.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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