Unificação da resistência palestina: até quando?

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Depois de duas tentativas frustradas, o Hamas e o Fatah, por fim, assinaram um acordo de reconciliação.

Assim termina uma dualidade de poder entre os movimentos palestinos que enfraquecia a causa pela independência do seu país. Agora, a luta dos palestinos poderá ser mais efetiva.

Infelizmente, não foi este a verdadeira razão que levou os dois movimentos a buscarem uma unidade frente a Israel, unindo Gaza e a Palestina ocupada (Cisjordânia) sob um só governo.

Razões políticas circunstanciais foram o leit motiv que levaram Hamas e Fatah a esquecerem seus agravos, na busca de uma reunificação que atendia aos interesses partidários (caso do Hamas) e particulares (caso de Abbas, chefe do Fatah).

Motivos pragmáticos

Administrar Gaza tornava-se um peso insuportável para o Hamas. Depois de vencer as eleições palestinas de 2007, ele expulsou os membros do Fatah da região. Israel, os EUA e o Reino Unido não aceitaram a vitória do Hamas, que Telavive considera terrorista, apesar da afirmação oficial dos líderes do movimento de terem abandonarem essas práticas ilegais.

Em consequência, Israel fechou sua fronteira com Gaza, impedindo importações, exportações, viagens para tratamento médico ou estudos, isolando a região do mundo.

E os EUA e o Reino Unido eliminaram seus subsídios, fundamentais para a população local.

Na semana passada, Tony Blair - ex-primeiro-ministro do Reino Unido – reconheceu que errara ao apoiar a decisão do presidente George W. Bush de cortar a ajuda e as relações econômicas com o Hamas.

Segundo Blair, o certo seria negociar com o Hamas para tentar convencê-lo a reconhecer Israel e renunciar à violência. Mas, “obviamente foi muito difícil, Israel se opôs bastante a isso (The Lobby funcionou)”.

Nos anos seguintes a 2006, constantes bombardeios israelenses, especialmente nas três guerras contra Gaza, destruíram a infraestrutura de serviços públicos, além de hospitais, escolas, mesquitas, edifícios do governo, casas de habitação, fábricas, oficinas e lojas.

Os prometidos auxílios feitos por diversas potências e pela Turquia, em particular, chegaram de forma mínima. Hoje, o povo dispõe de apenas 4 horas diárias de energia e muitas vezes é obrigada a beber água imprópria para consumo.

E, ainda mais grave: o desemprego chega a desanimadores 80%. A maioria da população depende da ONU e outras entidades para sobreviver.

Relatório da ONU de 2015, diz que, se as coisas não mudarem logo, em 2030 não haverá condições de vida em Gaza.

Contexto atual

Neste ano, a situação se agravou com cortes pela Autoridade Palestina (dominada pelo Fatah) na energia elétrica e de 30% a 70% nos salários dos profissionais de saúde. Tudo para arruinar a imagem do Hamas junto ao povo, responsabilizando-o por essas maldades.

Passando a administração para o governo Abbas, o Hamas se livra de um encargo que não tem recursos para exercer bem, ficando à vontade para atuar militarmente, através do seu exército de 25 mil homens. Sem contar as vantagens da sua participação política no novo governo de união a ser formado.

Esse novo governo passará a administrar as duas partes que compõem a Palestina: a Cisjordânia, sob ocupação israelense e o estreito de Gaza, atualmente sob o controle do Hamas.

Mahmoud Abbas – chefe do Fatah – preside a chamada Autoridade Palestina, que administra a Cisjordânia de forma bastante limitada, pois dispõe de poucos poderes, e assim mesmo em parte da região, toda ela governada efetivamente por Israel.

Perante a ONU e outras entidades internacionais, quem representa a Palestina é a administração de Abbas, função que ele ocupa há 13 anos. O período que deveria durar seu mandato já venceu há muito tempo e ele só se mantém devido à separação entre as áreas dominadas pelo seu Fatah e pelo Hamas. Com a unificação, Abbas não teria mais justificações para continuar presidindo a Autoridade Palestina.

Novas eleições deverão ser programadas e o Hamas espera vencê-las, assumindo a Autoridade Palestina, com o território aumentado pela inclusão de Gaza.

Por sua vez, Abbas vê na unificação o fortalecimento da sua posição diante dos EUA, de Israel e mesmo da Europa, pois passará a representar toda a população palestina, não apenas a da Cisjordânia.

Além disso, ganhará pontos junto a Trump, que apoiou a ideia da Palestina unida. No caso existe uma autêntica simbiose, pois a The Donald interessa valorizar Abbas, já que considera o líder do Fatah alguém fácil de manobrar, ao contrário do Hamas, um movimento radical com histórico de rebeldia a Tio Sam. Abbas e Trump acreditam que, sendo reeleito o atual presidente da Autoridade Palestina, o Hamas fora do poder seria rapidamente esquecido pelos habitantes de Gaza.

Não se sabe se Abbas irá se candidatar a presidente ou apoiar um aliado. No entanto, lhe interessa explorar a união, apresentando-se como seu arquiteto e líder na transição. Bem que ele precisa, em todas as recentes pesquisas seu prestígio aparece em baixa.

As exigências de Israel

É previsível que, com a troca da guarda em Gaza e a substituição do Hamas por Abbas e seu moderado Fatah, os EUA e a Europa voltarão a enviar ajudas financeiras consistentes, aliviando a situação terrível do povo de Gaza. E, é claro, melhorando substancialmente a imagem de Abbas.

Como era esperado, Israel é contra. Para seu governo de ultradireita, é uma má notícia o aumento da musculatura dos palestinos, consequência da unificação. O gabinete ministerial de Netanyahu emitiu um ukase no qual impunha 7 exigências ao Hamas e ao Fatah para Telavive aceitar a coalizão dos dois grupos.

Algumas, com uma ou outra dificuldade, deverão ser atendidas: retorno dos corpos de soldados israelenses mortos e de civis presos, reconhecimento de Israel que já foi feito pelo pessoal de Abbas e que o Hamas vai acabar topando; parar com o terrorismo o Hamas já parou, basta dizer que entre os três únicos assassínios de civis israelenses no último ano nenhum foi cometido por alguém do Hamas.

Provavelmente, os israelenses consideram “terrorismo” os lançamentos de foguetes de Gaza contra seu país. O que é altamente discutível, já que a maioria deles foi em retaliação a ataques israelenses.

Há outras exigências também aceitáveis, cujo simples enunciado dá para mostrar como Abbas é bem visto por Israel. Depois de 10 anos presidindo a Autoridade Palestina sem conseguir absolutamente nada para o povo palestino, ele tinha mesmo de ser apreciado pelo governo de Netanyahu.

Daí o motivo de o primeiro-ministro e os membros do seu gabinete exigirem que Abbas controle totalmente a segurança em Gaza, inclusive as passagens para Israel e o Egito e o combate ao contrabando, e todas as ajudas financeiras e em equipamentos só sejam fornecidas a Gaza através do amigável líder do Fatah.

Nuvens pesadas invadem esse céu de brigadeiro, quando se analisa certas exigências que pintam como inaceitáveis.

Desarmamento do Hamas é o mesmo que arrancar as garras de um tigre. Em caso de atritos com Israel, Gaza ficaria à mercê do exército de Netanyahu, pois não teria de encarar forças militares armadas.

Continuar o desmonte da estrutura do Hamas na Cisjordânia iniciada pelo obsequioso Abbas é outra bomba contra o movimento revolucionário. Supõe-se que os chefões de Israel se referem a fábricas de explosivos, equipamentos de comunicações e coisas assim. O lógico é que, passando Abbas de inimigo a aliado, essa infraestrutura deveria se incorporar à defesa da Palestina unificada, não destruída já que, com Netanyahu ou algum político similar, continuará sendo uma ameaça.

Por fim, um ultraje: rompimento das relações com o Irã. Seria um atentado à soberania do futuro Estado palestino, antes mesmo de ser formalmente criado como governo de Gaza e da Palestina hoje ocupada.

O Irã tem ajudado o governo de Gaza nas áreas militar e econômico-financeira. Natural que os palestinos valorizem suas relações com o governo de Teerã e queiram mantê-las. Isso Netanyahu não admite. Ele exige que os palestinos briguem com um bom amigo somente para atender aos interesses políticos de Israel.

É mais uma forma de reduzir os meios para os palestinos enfrentarem eventuais pressões israelenses. É possível que Abbas engula tal exigência.

Antecipando-se a uma provável recusa dos palestinos a fazerem tudo o que ele exige, o primeiro-ministro israelense já declarou que com o Hamas aliado ao Fatah, Israel não negocia a paz.

Pode parecer estranho que da lista das 7 exigências não constem os pontos mais importantes para Israel: a manutenção de quase todos os assentamentos, a continuação de Jerusalém inteira como capital de Israel e a proibição dos palestinos expulsos pelo exército de Israel recuperarem as propriedades que lhes foram tomadas.

Tudo isso não depende de nenhuma ação ou atitude palestina, pois representa um status quo que Israel não admite ser alterado. Portanto, não é uma exigência a ser cumprida por eles, basta quer aceitem.

É de se crer que todas estas divergências sejam do conhecimento da equipe de Trump, que está estudando a proposta ”salvadora do presidente”.

Pelo menos o Hamas não deixará sem resposta as 7 exigências dos sábios de Sião (perdoem pelo trocadilho). Como algumas deverão ser contestadas, é bem possível que haja uma contrarréplica.

The Donald e seus aliados vão perceber que o Hamas, uma vez unido ao Fatah, terá de ser considerado na proposta em que estão trabalhando há tanto tempo... Isso poderá ser um elemento complicador.

Domar o Hamas, usando os poderes de Abbas, ou tentar uma acomodação ou mesmo forçar ideias que o movimento radical rejeite, tudo isso está na dependência do que Trump decidir. Difícil saber o caminho que ele vai seguir, são insondáveis os desígnios do mercurial The Donald.

Longe da paz

Seja como for, serão necessários novos contatos entre a equipe da Casa Branca e os líderes do Fatah e também do Hamas.

A julgar pela velocidade com que esses assessores do presidente estavam levando para concluir sua proposta, podemos cotar mais meses, meses e meses de angustiosa espera. E mais um bom número de meses para Trump avaliar e enriquecer a proposta com o produto do seu QI campeão.

Dá para prever muitas chances de o Hamas e chefes mais corajosos do Fatah levantarem um certo número de contestações.

O que adiará ainda mais a criação da “proposta salvadora” do morador da Casa Branca.

Tudo poderá voltar ao marco zero. O que é exatamente o que Netanyahu e aliados desejam. Mas não podemos afirmar que as coisas vão acontecer assim.

O que você deve ter sentido pela leitura deste comentário é que divergências radicais separam o Hamas e o Fatah.

Todas elas partem de uma colocação básica: enquanto Abbas e a maioria do Fatah acreditam que a independência da Palestina só sai com o apoio paternal de Washington, o Hamas sustenta que jamais acontecerá sem uma confrontação com Israel, não necessariamente militar (inviável).

Partindo desta divergência central, existem diversas outras divergências, quando se analisa propostas sobre itens concretos.

Também com base nas visões opostas entre Hamas e Fatah, cada um deles, já no início do processo de reunificação, procura garantir posições mais fortes para seu movimento e impedir que o outro faça o mesmo.

Se nada mudar, não há por que ter muito otimismo na continuidade da união Fatah-Hamas. A menos que, antes de começarem a negociar com Israel e Trump, os dois concordem numa mesma estratégia para nortear suas ações por uma Palestina livre.

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Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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