A centro-esquerda de Israel vira à direita

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“Precisamos entender algo muito simples: nós é que somos os fortes aqui. Eles sempre nos temeram, nós somos os mais fortes. Nós somos mais fortes do que os árabes. Não devemos ter medo deles: os árabes é que devem ter medo da gente”. Se você pensa que esta frase é de Netanyahu, errou. E como errou!

O autor dessa afirmação racista, de supremacia judaica, é nada menos do que Avi Gabbay, novo líder do Avoda – o Partido Trabalhista de Israel.

O Avoda nasceu da união de três partidos de esquerda moderada, dos quais o maior era o Mapai, onde militaram alguns dos principais fundadores do Estado de Israel.

Nos bons tempos dos kibutz (existirá ainda algum?), o Mapai era um partido de centro-esquerda, membro da Internacional Socialista.

Fiel a suas posições socialdemocratas, foi durante muito tempo o maior partido de Israel, tendo sete dos seus membros sido primeiros-ministros do país.

Para mim, o mais importante deles foi Isaac Rabin, em cujo governo Israel e os palestinos estiveram mais próximos de um acordo.

Infelizmente, Rabin foi assassinado por um fanático de extrema-direita, e o Avoda, sucessor do Mapai, foi aos poucos se afastando de suas origens até chegar a eleger um líder que renega o que restou da tradicional postura favorável à paz com os palestinos e à igualdade para os árabes israelenses.

Nem bem foi eleito, Gabbay, chamado de “Macron de Israel” por ter feito carreira na iniciativa privada e nunca ter sido político, mostrou quem era, em dois momentos.

Em entrevista na TV2 e em discurso em Betesda, ele surpreendeu desagradavelmente os adeptos da socialdemocracia, representada em Israel pelo Avoda (pelo menos até hoje).

Gabbay declarou apoiar a “solução dos dois Estados”, mas vejamos em que condições:

O futuro Estado palestino deveria ser desmilitarizado. Nada de armas, já que não dá para se confiar nesses palestinos...

A maior parte dos assentamentos continuaria em mãos de Israel. Mais exatamente, os grandes blocos, atualmente habitados por 420 mil judeus israelenses. Não se mexe nos territórios onde eles se localizam.

Os assentamentos restantes, em maioria ilegais, seriam evacuados, com pagamento de indenizações aos seus 60 mil moradores, todos eles israelenses judeus.

De qualquer maneira, diz o novo Macron, vamos parar de falar em evacuação de assentamentos, isso não deve nunca constar de um acordo de paz. O que precisamos é buscar soluções criativas para resolver a questão.

Talvez para dar um exemplo de criatividade, Gabbay apresentou um novo e evolucionário conceito: “acordo” com apenas um signatário. É o que deduzimos quando ele declara que nenhum dos palestinos é um parceiro habilitado para negociar a paz com Israel.

Em outras palavras: deixem que nós, israelenses, faremos sozinhos um acordo para Abbas algum botar defeito. Ou talvez Gabbay aceite outro parceiro. Que tal Trump?

Em abono de sua proposta, o novo líder “socialdemocrata” cita a opinião favorável, que teria recolhido de metade dos principais generais israelenses. E insiste: “judeus na Terra de Israel devem confiar somente neles próprios e garantir que tudo esteja sob seu controle”.

Depois de destruir as esperanças que os palestinos e os judeus progressistas tinham nele, o criativo Gabbay girou sua metralhadora em direção aos árabes.

Normalmente, os partidos dessa etnia, que representam 20% do eleitorado israelense, compartilham com o Avoda posições em direitos humanos, abusos militares e policiais, igualdade de oportunidades e outras questões onde Netanyahu costuma estar do lado oposto.

Os árabes israelenses caíram duros quando ouviram o líder do partido de Rabin afirmar que jamais aceitaria fazer parte de uma coalizão que incluísse políticos árabes, pois “não vejo nada que nos ligue a eles”.

Com essa espantosa afirmação, Gabbay justificou suas posições que tanto desanimaram muitos membros do Avoda.

Ficou claro que ele pretende aproximar-se da direita, tanto para recuperar os partidários do Avoda que, na onda de direitismo, que está varrendo a população de Israel, migraram para os partidos linha-dura quanto para ganhar aqueles que estão no Likud e similares, mas sentem que  Netanyahu exagera.

Antes de o novo líder assombrar a opinião pública com suas ideias, seu partido visava unir as agremiações de esquerda e centro numa coalizão que, no futuro próximo, poderia tomar o lugar de Netanyahu.

Nesse caso, o primeiro-ministro deveria ser o líder do Avoda, como maior partido da coalizão.

Gabbay rifou uma coalizão assim, pois ela só venceria com os votos da Lista Árabe Unida, que ele acaba de jogar fora, com suas posições racistas.

Agora ele precisará do apoio de parte da coalizão de ultradireita que governa Israel.
Tudo indica que ele já sendo bem-visto nesses meios radicais.

Muito breve, é provável que Netanyahu tenha de se sentar no incômodo banco dos réus, processado criminalmente por decisão do tribunal mais alto de Israel.

Como a situação do chefão ficaria complicada, não será surpresa se Gabbay acabe se tornando primeiro-ministro.

Parece que ele já está se preparando. Conversando com um amigo, o novo Macron informou: “os membros do Likud gostam de mim, eu sei como conversar com eles”.

O grande risco é que, ao pular da esquerda para a direita, Gabbay acabe caindo no meio do salto. Ficar sem o que tem, sem ganhar o que quer.

(Fontes: Haaretz e al Monitor, ambos de 18 de outubro).

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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