Trump decide por uma guerra sem sentido

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Antes de eleito, Donald Trump tinha opiniões categóricas sobre a Guerra do Afeganistão: “erro terrível”, “um total desastre”, “completo desperdício”... Diante de críticas tão pesadas, sua proposta só poderia ser o que ele tuitou em 2013: “deveríamos abandonar o Afeganistão, imediatamente”. E ponto final.

Viu-se depois que, na verdade, fora um ponto de interrogação. Neste ano, indeciso, o agora presidente Trump teve de ouvir seu assessor de estratégia, o general McMaster, o general Mattis, secretário de Defesa e outros ilustres defensores das intervenções militares no exterior, como a diplomacia mais adequada em vista do superior poder das armas norte-americanas no mundo.

E Trump, no discurso de apresentação da política do seu governo no Afeganistão, foi novamente categórico.

Mas mudou suas posições anteriores. A guerra agora seria pra valer. Até a vitória final. Não importa o volume das forças ianques envolvidas. Ele enviaria o necessário. E o Paquistão que deixasse de acolher talibãs fugitivos, do contrário, adeus ajuda econômica.

Antes mesmo do anúncio das novas ideias, o Washington Times publicou a opinião de um expert no assunto, o coronel Douglas McGregor: “Mandar 4.500 ou 50 mil soldados e fuzileiros navais para “treinar” o exército e a polícia afegãos... Não impressionará nem os afegãos, nem os três milhões de muçulmanos (estrangeiros) que vivem no país. A desesperança afegã, seus corruptos governos, militares e políticos não poderão transformar o país em uma réplica do desejado pelos exércitos ocidentais”.

Abdul Baraksai, do Alto Conselho de Paz local, o apoiou: “as pessoas perderam confiança no governo. Não importa quantas tropas vocês (os estadunidenses) nos mandem agora, não terão impacto duradouro a menos que haja uma reforma real e boa governança”.

Objeções assim não impressionaram o presidente republicano. Na apresentação das mudanças que promoverá na guerra, ele informou que não irá adotar a falhada promessa de George W. Bush, de fazer do Afeganistão um país democrático, adotando os valores dos EUA.

Agora, o que interessa é derrotar os talibãs para defender a segurança da América. O êxito desta estratégia parece extremamente difícil.

Os EUA guerreiam os talibãs há 16 anos, chegaram a ter 100 mil soldados em combate e não conseguiram grande coisa.

Pelo contrário, hoje os inimigos controlam mais territórios do que nunca. O que significa um aumento de 3,4 milhões de pessoas sob sua influência.

O governo de Cabul domina 60% do país, contra 72% que já teve sob controle, o qual, aliás, é muito tênue, conforme Shashank Joshi do Royal United Service Institute, de Londres. Não há como provar que a primeira leva de soldados enviados por Trump, cerca de 6.000, somados aos 8.000 já em ação no país, faça qualquer diferença.

Serão necessários mais, muito mais para talvez recuperar o terreno perdido. Sabe lá em quanto tempo... O próprio presidente Ashraf Ghani já tinha pedido ao Pentágono reforços militares consideráveis, pois, sem eles, as tropas afegãs não teriam como encarar os talibãs. E, de fato, não se pode esperar muito de um exército recheado de oficiais corruptos, constantes deserções e até adesões ao inimigo.

O próprio governo local não ajuda muito. É fraco, corrupto, cede aos violentos senhores da guerra, que dão as cartas nas províncias e controlam votos. Trump prefere ter esquecido essa realidade chata, quando proclamou: “em última análise, cabe ao povo do Afeganistão tomar posse do seu futuro, governar sua sociedade e conseguir uma paz duradoura”.

Enquanto esse sonho, provavelmente impossível, não se realiza, a bola está nos pés do exército norte-americano, que tem tarefas básicas a cumprir, conforme as ordens presidenciais: “precisamos interromper o surgimento de paraísos seguros que possibilitam aos terroristas ameaçar a América”.

O general John Nicholson, comandante das forças norte-americanas no Afeganistão está com Trump e não abre: “manter pressão sobre estes grupos de terroristas para evitar outro ataque na nossa pátria (...) fundamentalmente, é para isso que estamos aqui”.

Há sérios furos nesses raciocínios. O Talibã jamais promoveu um atentado nos EUA ou em qualquer outro país do Ocidente. Não é, nem nunca foi uma organização terrorista internacional. E nada indica que esteja pensando em virar algo assim.

Trata-se de um movimento político de configuração nacional, que tem por alvo tomar o poder no Afeganistão. E lá implantar os mandamentos medievais da Sharia, ao pé da letra (o islã moderno os aceita apenas como princípios).

Não ameaça a tranquilidade das famílias estadunidenses. É fato que o Talibã tem praticado também atentados terroristas, mas somente dentro do seu país, como ações táticas na guerra de guerrilhas que move aos EUA e ao governo de Cabul.

Argumenta-se que, caso ele vença, outros movimentos, esses sim terroristas, usarão o território afegão para organizar atentados contra os EUA e/ou treinar grupos de milicianos que vão agir no Ocidente.

Como os fatos têm provado, o terrorismo não precisa de muito espaço para preparar suas ações. Basta uma casa ou até mesmo uma sala para os milicianos montarem bombas caseiras, tramarem atropelamentos, ataques à faca, etc. Os agentes dos atentados, como tem acontecido, não precisam atravessar a enorme distância entre o Oriente Médio. Em geral, são moradores do país-alvo.

Por que usariam o remoto Afeganistão para tramar e executar suas barbaridades quando tudo poderia ser feito na própria terra de Trump, por alguém de lá?

Quanto às milícias jihadistas, que ocupariam áreas de um eventual Afeganistão sob o Talibã para se organizar, observo que já existem um grande número delas espalhadas pela Ásia e pela África. Muitas delas lutam contra o regime Assad, ombro a ombro com guerreiros do exército rebelde, apoiado com armas pelos EUA. Nenhuma constitui uma ameaça aos lares norte-americanos. Seu território não foi objeto dos seus ataques. A Al-Qaeda é exceção. Mas ela dispensaria campos de treinamento em território afegão já que tem muitos à sua disposição no Iêmen, Líbia e outros países africanos.

Todas estas circunstâncias são certamente conhecidas pela inteligência norte-americana. É de se crer que Trump já foi informado de que o Talibã não tem como ameaçar a segurança nacional.

Não havendo motivos válidos conhecidos, o que Trump pretende alcançar, ao perseverar numa guerra que já dura 16 anos e tende a se eternizar?

Vejamos o que ele diz a respeito: “nossa nação precisa conseguir um honroso e durável resultado, que merece diante dos tremendos sacrifícios que temos feito, especialmente os sacrifícios de vidas”.

Trata-se de um motivo, digamos, tosco. Só porque os EUA sofreram a perda de 2.500 soldados, além de 20.000 feridos, muitos com sequelas gravíssimas, devem sacrificar mais alguns (ou até muitos) milhares?

Só porque torraram cerca de 1 trilhão de dólares devem jogar fora algo semelhante a outro trilhão?

E todo esse gigantesco sacrifício só para continuar lutando numa guerra inútil, sem fim à vista, com chances de se estender por gerações...

Acredita-se que, por trás dos objetivos oficiais, há outros ocultos. Sabe-se que Trump já afirmou que não quer ser o primeiro presidente norte-americano a perder uma guerra.

Aqui não existe apenas um desmedido orgulho. O presidente sabe que uma saída do Afeganistão de mãos vazias pode ser habilmente aproveitada por seus adversários políticos para reduzir suas chances de reeleição.

Ninguém espera que The Donald sacrifique sua vaidade e suas pretensões políticas aos interesses do povo estadunidense. Seria esperar muito dele.

Já os generais que partilham com Trump o timão nos rumos da política externa tem outra motivação. Sendo militares, eles pensam como indivíduos que foram treinados para derrotar os inimigos. Insucesso é sempre terrivelmente vergonhoso. É “anti-americano”.

A maioria sentiu a retirada no Vietnã como algo extremamente doloroso. Uma página humilhante na história pátria. O general McMaster até escreveu um livro, tentando provar que a derrota foi causada pelos políticos. O exército lutaria até o fim. E venceria.

Em defesa da honra dos EUA, a “terra dos bravos”, os generais da Casa Branca querem lutar até a última gota do sangue dos soldados. E até o último dólar do Tesouro.

Mas não levemos essa ideia ao pé da letra. No início da nova estratégia no Afeganistão, os chefes do Pentágono não estão pensando em economizar vidas e dólares para deixar os talibãs de joelhos.

No encerramento de seu show, Trump não hesitou em se apossar de uma retórica gloriosa ao afirmar: “desde a fundação da nossa República, patriotas de todas as gerações deram seu último suspiro nos campos de batalha pela nossa nação e pela nossa liberdade”.

Infelizmente, não será por causas tão nobres que muitos outros terão de morrer no Afeganistão.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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