A perda das Filipinas ameaça estratégia dos EUA contra China

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O presidente de um país satélite chamar o presidente dos EUA de “filho da puta” é algo um tanto invulgar. Ainda mais quando esse país, as Ilhas Filipinas, obedece fielmente à Casa Branca há 70 anos.

 

Em princípio, julgou-se que o destempero do presidente Rodrigo Duterte fosse simples reação emocional, diante da desaprovação de Washington à forma brutal com que o governo filipino combate o tráfico de drogas.

 

A polícia e esquadrões da morte locais atenderam escrupulosamente ao apelo do presidente para que os traficantes fossem exterminados sem contemplação.

 

Conforme dados oficiais, 3.800 suspeitos foram mortos em apenas três meses do governo Duterte.

 

Desde o início, a guerra às drogas era a menina dos olhos de seu governo. Como declarou à Al Jazeera: “nós temos 3 milhões de viciados em drogas e está aumentando. Portanto, se não acabarmos com esse problema a nova geração terá um problema”.

 

E justificou a violência de sua luta contra os traficantes: “se você destrói meu país, eu te matarei. E isso é legítimo. Se você destrói nossas crianças, eu te matarei. E esta é uma decisão correta”.

 

Por sinal, seu povo aprova, 76%, segundo pesquisas recentes.

 

Geopolítica

 

Quando, dias depois, Duterte se desculpou – fora apenas um “modo de falar”, as críticas norte-americanas o pegaram num momento de exaltação – julgou-se que o incidente acabaria num happy end.

 

Cedo se viu que o filme estava apenas começando.

 

Rapidamente, Duterte aumentou o tom: “em vez de nos ajudar, o primeiro a nos atacar foi o departamento de Estado norte-americano. Portanto, você  pode ir para o inferno, senhor Obama, você pode ir para o inferno”.

 

Ele foi adiante, afirmando que os EUA se recusaram a lhe vender certas armas, mas que isso não tinha importância, pois a China e a Rússia venderiam.

 

E aí vieram ameaças concretas: ele iria rever o Acordo EUA-Filipinas de Cooperação na Defesa, de 2014, que garantia às forças estadunidenses acesso às bases filipinas e permitia que elas aumentassem sua capacidade de armazenamento para segurança marítima e operações de atendimento a desastre e crises humanitárias.

 

Em entrevista ao Deutsche Welle, o ministro do Exterior, Perfecto Yasay, somou com seu chefe, criticando os EUA por prender as Filipinas a “algemas invisíveis que nos levaram à dependência e submissão como pequenos irmãos marrons, incapazes de (ter) verdadeira independência e liberdade”. O que tornaria imperativo “por fim à dependência da nação aos interesses dos EUA”.

 

Por fim, Rodrigo Duterte declarou estar realinhando sua política externa, pois os EUA falharam com as Filipinas, rematando que em algum momento “eu romperei com a América”.

 

Esse momento foi antecipado por semanas de ofensas e acusações, prodigamente distribuídas pelo governo Duterte aos EUA, mescladas com declarações de que iria mesmo sair da constelação ianque e partir para uma política externa independente, a se aproximar da China.

 

Até então, os EUA faziam de conta que nada estava acontecendo. “Não recebemos nenhuma comunicação oficial de que algo se alterava na amizade EUA-Filipinas”, afirmaram seus porta-vozes em várias ocasiões.

 

Olho na presença chinesa

 

Na verdade, Obama estava muito preocupado. Ele vinha contemplando a progressiva expansão chinesa no Sudeste da Ásia, através das armas tradicionais de Pequim: a ajuda econômica, o comércio e os investimentos.

 

Mas os interesses imperiais norte-americanos exigiam a hegemonia sobre esta parte do planeta.

 

A oportunidade de entrar no jogo surgiu quando Pequim assumiu como suas as ilhas artificiais do Sul do mar da China e as potências da região – Japão, Filipinas, Vietnã, Malásia e Taiwan – declararam que essas ilhas lhes pertenciam, por estarem em suas águas territoriais.

 

Como as ilhas artificiais possuíam grande potencial de reservas de gás submarino e grande interesse estratégico, a China arreganhou os dentes para essas nações.

 

Buscou mostrar que seu interesse nas ilhas era pra valer, com exibições de forças marítimas, visando a intimidar os contestadores.

 

Foi aí que os EUA assumiram a defesa dos possíveis direitos desses países. Para esse fim, o próprio Obama anunciou a criação da estratégia de “pivô para a Ásia”, que seria a prioridade top da Casa Branca.

 

Com ela, a Casa Branca pretendia contrabalançar a expansão da China no Sudeste da Ásia, unindo sob comando norte-americano forças militares das Filipinas, Japão, Taiwan, Vietnã e Malásia.

 

Lembrando o famoso princípio de Bill Clinton, “é a economia, estúpido”, estava nas diretivas do “giro para a Ásia” (Pivot to Asia) o estreitamento dos laços econômicos dos EUA com os países da região.

 

Chineses não se intrometem

 

Como primeiro passo, Obama usou o jeito habitual na conquista de aliados, isto é, a colaboração militar: 2.500 soldados foram enviados para reforçar uma base no norte da Austrália.

 

Mais importante, formou uma força naval, esquadras mistas de belonaves dos EUA e dos outros países em discussões com Pequim, para patrulhar os mares da discórdia.

 

Esperava assim intimidar os chineses, fazê-los desistir de flexionar seus músculos para defender suas pretensões e passar a aceitar arbitragens para decidir quem tinha razão.

 

A participação das Filipinas é fundamental no “giro para a Ásia”. Trata-se de um arquipélago de 7.500 ilhas, em posição estratégica na região, com mais de 100 milhões de habitantes.

 

Era o mais confiável aliado dos EUA no Sudeste da Ásia. Antes do rompimento formal, Duterte seguiu eliminando verbalmente as ligações do seu país com Washington. Novas medidas tornavam claro seu afastamento do guarda-chuva estadunidense.

 

As Filipinas não participariam mais de patrulhas navais conjuntas; os jogos de guerra em conjunto com os EUA acabariam; o programado para os próximos dias seria o último.

 

As forças norte-americanas, que estão na ilha de Mindanao para colaborar na luta contra uma guerrilha islâmica, deveriam retirar-se.

 

Os aviões P-8, que espionavam a China numa altitude fora do alcance da artilharia, não poderiam mais usar as bases filipinas;

 

Finalmente, na recente visita a Pequim, Duterte proclamou urbi et orbi que deixara de ser satélite dos EUA.

 

Agora, as Filipinas seriam independentes, mas aliadas solidamente à China e possivelmente à Rússia.

 

Foi uma fratura séria no “giro para a Ásia”, sugerindo a criação de um novo bloco na região, que nascia forte por integrar China e Filipinas.

 

Representa uma contestação inesperada da hegemonia norte-americana no Sudeste da Ásia e de uma ampliação substancial da área de influência da China.

 

Conveniência regional

 

A ruptura de Duterte não deixa de ter motivos ponderáveis. A condenação de sua política antidrogas é apenas um exemplo das interferências norte-americanas nos governos dos países de sua órbita de influência.

 

Não é o que a China tem feito. Prefere atrair países estrangeiros através de investimentos, empréstimos favoráveis e acordos comerciais. Dinheiro não lhe falta para isso.

 

Mas falta aos EUA, que ainda sofre os efeitos da grande crise mundial. Seus grandes pontos de venda estão na área militar.

 

Eles se dispõem a ajudar países aliados com forças armadas, vendas ou até doações de armamentos e empréstimos para compras nessa área.

 

Em troca, exigem diferentes graus de apoio político, conforme as circunstâncias, ou concessões na exploração de áreas estratégicas.

 

A aliança com a China é ainda mais vantajosa para as Filipinas dada a proximidade entre os dois países.

 

Uma das justificações de Duterte para sair do alinhamento do seu país com os EUA é evitar uma guerra contra a China, que a política do “giro para a Ásia” poderia causar.

 

Para o presidente filipino, é tão essencial a aproximação com a China que ele declarou estar disposto a negociar com Pequim a propriedade de algumas das ilhas artificiais, que seu país ganhou formalmente num processo proposto pelo governo anterior no Tribunal Marítimo da ONU.

 

Especialmente porque já recebeu da China 13,5 bilhões de dólares em investimentos e empréstimos.

 

Excluindo o Japão e Taiwan, os outros países do conflito pelas ilhas artificiais – Vietnã, Malásia e Singapura – não estão a salvo das seduções chinesas.

 

E assim, em vez de obrigar Pequim a se retrair, a grande estratégica asiática do governo Obama pode acabar estimulando o crescimento do poder chinês.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

 

 

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