França bicampeã

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Última jornada de Copa, mais um marco para a nossa memória organizada em períodos quadrienais, o primeiro mundial como pai de uma família que se vira como qualquer outra entre a segunda e a sexta-feira. E de vez em quando aos sábados, já consagrado como dia útil nessa cidade onde se vive tão pateticamente.

Foi bom enquanto durou. Voltar à lida do futebol brasileiro que já retomou sua irrefletida labuta enquanto os bleus ainda desfilavam pelas ruas do país não é a coisa mais animadora do mundo. Mesmo que critiquemos tanto, a Copa é a grande referência do que está se fazendo de bom no mundo da bola.

E ganhou quem fez muitos jogadores bons nos últimos anos. Como dito em crônica anterior, tenho inveja deste time francês que roubou do Brasil a saudosa máxima “temos até três ou quatro seleções”.

Talvez tenha sido a Copa onde o campeão foi o mais previsível desde o início do certame. Em contextos e maneiras diferentes, o time de Deschamps mostrou que sobrava na turma e poderia resolver as partidas por distintos caminhos.

Jovem e ainda movido a impulsos, a nova campeã do mundo não chegou a encantar como seus nomes sugeriam, mas isso talvez até reforce seus méritos. Mal inspirada ou desconcentrada em diversos momentos, bastou jogar bem partes das partidas para que se sobressaísse.

Mesmo no domingo, em Moscou, o placar deixou um estranho gosto. A França não gastou a bola como o 4 x 2 sugere, e por pouco o jogo não descambou para um 5 ou 6 a 1.

O placar não refletiu o que se fez em campo. Os croatas foram melhores no primeiro tempo. A sorte – que também continuará a dar as cartas mesmo em tempos tecnológicos – não lhe foi gentil.

Se no primeiro gol Nestor Pitana caiu na manha de Griezman e concedeu a falta que terminou no gol contra de Mandzukic – coisa estranha um 9 fazer contra a própria meta em plena final de Copa – no segundo os adriáticos foram vítimas de uma das facetas do atual futebol: na avidez de subir a média de gols e vender mais emoções, mudaram-se as regras do impedimento e da famosa bola na mão. Deu nisso, uma final de Copa relativamente sabotada por conta de um futebol voltado aos interesses da publicidade e da TV, e também aos consumidores que tanto se multiplicaram nos sofás.

Mesmo diante da nova interpretação dos lances de bola na mão, cabia outra decisão no pênalti de Perisic, outro herói croata, autor de um golaço logo antes, e dessa forma castigado pelos demônios que derrubaram os deuses do futebol já há algum tempo.

Assim, o destino premiou o primeiro tempo avoado de um time que ameaçou repetir a mesma pipocada da final europeia em casa, há dois anos.

Com tamanho condicionante, o segundo tempo veio redondo demais para os franceses. Quem tem Mbappé (e também Griezman) no contra-ataque tem meio caminho pra resolver o jogo. O terceiro gol foi assim e adeus Copa.

Ainda veio o quarto daquele que pode ser o jogador mais amado do futebol nos próximos anos e acabava cedo demais a graça de uma final que até foi boa. Mas se desenrolou de forma deveras trivial. Não houve sequer a ameaça do épico, a tensão que suspende a respiração, aquela indeterminação que faz escorrer uma gotinha gelada debaixo do sovaco.

Se Subasic e sua inação são altamente questionáveis nos gols que alargaram o placar, Lloris ainda fez o favor de banalizar de vez o restante da partida e cedeu um dos gols mais inacreditáveis da história do futebol. Pareceu até pena de Mandzukic, que leva para o currículo um golzinho em semifinal e final de Copa para se juntar aos que já fez em duas finais de Liga dos Campeões.

Não tem jeito. Jogos entre times europeus podem ter a importância que for que são vividos como se, sim, haverá amanhã. Já deixou de ser vida ou morte faz tempo. E o pior é que ganham como nunca, enquanto por aqui só renovamos nossas frustrações com a vida e o jogo que tanto amamos, do qual nosso humor aparentemente sempre dependerá.

A globalização confluiu para a Europa e o continente conta quatro títulos seguidos. Tiremos as conclusões.

Para a Croácia, tudo certo, apesar de ter feito uma final que merecia melhor sorte no primeiro tempo. Superou o time de 1998 (que era melhor, a nosso ver) em termos de resultados e deu um gosto único para uma geração de jogadores que já justificou a carreira.

Para a França, tudo mais certo ainda. Definitivamente, e com a inestimável contribuição de uma sociedade multifacetada que mudou a cara do país (vale a pena ir atrás das imagens das ruas nas festas do primeiro e do segundo títulos), entra no clube dos gigantes. E tem bala na agulha para mirar os líderes do ranking de títulos.

Por fim, por mais que depredem o jogo com finalidades escusas, é muito difícil que em algum dia deixemos de amá-lo. Não imaginei seguir a disciplina de escrever praticamente todos os dias. Por incrível que pareça, foi possível até voltar a torcer para o Brasil numa Copa, depois de dois mundiais de divórcio.

Mas falta muito. Não cabe nesta despedida, mas que voltemos a ser liderados por gente que carregue a utopia de fazer daqui um lugar de vanguarda, pois assim fui educado a enxergar este país no mapa do futebol.

Parabéns aos bicampeões.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania. Escreveu um Diário da Copa do Mundo da Rússia para a webrádio Central3, na qual também participa do podcast semanal Conexão Sudaca.

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