Messi e os homens que roubaram o jogo

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“Típica representação de uma sociedade que faz de tudo pra controlar gestos, falas e comportamentos, enquanto libera tudo que cheirar lucro, a suspensão de Luis Suárez precisa ser revogada. É o triunfo dos hipócritas, a derrota do que, para bem ou mal, é de carne e osso”.

Foi com essas palavras que encerrei um texto escrito há dois anos, às vésperas da Copa América do Chile, no qual advogava pela anistia ao indomável atacante uruguaio.

Dessa maneira, não me ocorre muita coisa nova ao falar da absurda suspensão de Messi por 4 partidas, por uma singela puteada ao bandeira brasileiro, na partida contra o Chile.

Mas a roda continua a girar e novos fatos do neofutebol continuam a nos embrulhar o estômago. Além do mais, o brilhante texto de Lucio de Castro (link no final) põe o dedo na ferida de uma maneira que não vale a pena ignorar e deixar a caravana das ilusões midiatizadas continuar passando livre, leve e solta.

Em nossa avaliação, impossível não ligar uma coisa na outra, por mais que pareçam independentes entre si.

Fato é que a podridão descortinada pela célebre investigação tocada pelo FBI continua intacta. Mudaram, e olhe lá, apenas os atores, dentro da velha máxima de “mudar tudo para que tudo continue igual”.

No caso brasileiro, a vergonha é ainda maior, pois não fomos capazes nem sequer de uma mudancinha básica. O horroroso Marco Polo del Nero continua a dar as cartas. Aliás, acabou de alterar o estatuto da CBF, a fim de retirar poder dos clubes e aumentar, a essa altura, o das federações estaduais.

(é inacreditável a ausência de reação dos nossos clubes, que ao mesmo tempo em que sustentam um notório parasita querem bater recordes de renda. Chamam o jogo bonito de produto, falam de gestão, mas parece que credibilidade frente aos “consumidores” é um artigo supérfluo em suas cartilhas de administração e marketing).

Como apontou o texto de Lucio, isso só corre solto por omissão – cada dia mais criminosa – da mídia que monopoliza o esporte. Exatamente porque é sócia do negócio – ainda que, do ponto de vista deles próprios, não me pareça vantajoso se manter ligado a figuras tão maléficas e repudiadas pelo público.

Não há mais muro entre o comercial e o editorial, como se pregava nas faculdades de jornalismo que formaram tantos de nós. Hoje, o jornalista fala do futebol não como analista, um crítico sério e sisudo. Fala como alguém que vende, perfuma e/ou espetaculariza o produto.

Não é à toa que muitos ocupantes das tribunas midiáticas se jogam no mundo do entretenimento, como bem observou José Trajano. O show não pode parar e não há compromisso algum com o público e o rigor jornalístico. E assim as noções básicas de ética vão ficando cada vez mais distantes, predominando o cinismo alegre de quem tira importância daquilo que amamos ao mesmo tempo em que empilham dinheiro e reconhecimento profissional.

Se os megaeventos e sua farra econômica tiveram alguma utilidade foi justamente essa: a maior oportunidade de grandes trabalhos da história da mídia esportiva brasileira foi transformada em propaganda a serviço de governos e empresários.

Falamos muito da Globo por ser quem mais diretamente lucrou com Copa e Olimpíadas, mas toda a mídia corporativa embarcou na mesma onda. Não é à toa que os brilhantes Lucio de Castro e Trajano dançaram. Outro caso menos famoso é o de José Cruz, que acumulou anos de jornalismo crítico e relevante nos esportes de menor repercussão, em seu excelente blog no UOL. Inacreditavelmente, foi dispensado no início de 2016, o ano olímpico. Sim, o melhor jornalista poliesportivo do Portal foi limado às vésperas da Olimpíada. Um crime, senhoras e senhores, nada mais que um crime.

Feita a digressão, voltamos à atualidade. Nesta semana, tivemos a celeuma em torno da comemoração provocativa de Maicon (contra uma torcida ausente do estádio!). Na entrevista, o zagueiro tentou disfarçar o óbvio e tirou o seu da reta. Com razão, como veremos adiante.

Afinal, eles que passam manhã, tarde e noite papeando sobre conduta de jogador, até criar o maior desgaste possível pela simples superexposição, não podem falar da vergonha que é ter um presidente como del Nero à frente do futebol brasileiro, com seu supersalário, acompanhantes universitárias e festinhas nada familiares dessa vida boa que ele e seus pares alcançaram por meio do futebol. Precisam cagar regra pro Maicon.

Depois, vêm com aquela baboseira de o “futebol não pode acabar”, “respira”. Passam recibo porque sabem o tamanho da desgraça que alimentam. Sabem como estão roubando toda a essência do esporte e, num ato falho do subconsciente, soltam dessas, como se alguém tivesse perguntado.

E chegamos a Messi. Afinal, se a CBF nada mudou, alguém viu a Conmebol se emendar depois de perder toda sua cúpula? Ou não estamos diante de uma reacomodação capitaneada pelos mesmos membros de antanho? Infantino é diferente de Blatter ou só reafirmou o caminho mercenário deste futebol ao inflar a Copa para 48 seleções?

Basta reler o primeiro parágrafo pra compreender o porquê de tamanho rigor com o melhor jogador do mundo. É o bode expiatório dos parasitas que continuam a roubar o jogo e alimentar os mesmos esquemas de sempre. Preferem excluir a Argentina e seu craque de uma Copa do Mundo do que largar o osso.


Capa de jornal catalão vai direto na ferida: além de desqualificar a decisão, sugere represália política à federação argentina


Constrangedor o silêncio midiático frente à suspensão. Mas Lúcio de Castro acabou de dar a letra. Nossa mídia esportiva deixou os escrúpulos em alguma gaveta qualquer enquanto assinava pactos com o demônio, em nome da exclusividade e também da vida fácil, do carreirismo cômodo, covarde.

Não é à toa que dispensam cada vez mais repórteres e investem em programinhas chatos e repetitivos de estúdio. A realidade está dura demais para os arautos dos negócios-acima-de-tudo. Ver de perto o legado da Olimpíada nos esportes de menor fama e grana vai doer os olhos. Dissecar a atual administração da CBF vai causar a mesma revolta de sempre no torcedor.

Enquanto isso, Sergio Cabral (o filho) já foi preso, a cúpula do Tribunal de Contas carioca acaba de ir em cana, o presidente da Assembleia Legislativa é conduzido à força, Eduardo Paes pula miúdo pra evitar o mesmo destino e o Maracanã dá pena.

Mas é melhor varrer tudo pra baixo do tapete e bater no lado fraco da corda, ou seja, naqueles que não assinam cheques. Podem notar: quanto mais se corrompem, mais falam de brigas de torcida organizada ou “má conduta” de atletas.

Os temas acima descritos não interessam a essa mídia convenientemente focada nas quatro linhas. Caem matando na picuinha local para ignorar a tragédia estrutural.

Tiremos os esqueletos do armário, antes que até o Messi vá parar em alguma cova rasa.

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‘O atual modelo esportivo brasileiro está esgotado’ - entrevista com o jornalista José Cruz.

O 7 x 1 foi um ‘acidente’ apenas para quem se dá bem com a atual estrutura do futebol


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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