Althea

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O mundo respirava os primeiros ares limpos depois da segunda guerra, suas cortinas de bombas e fumaças tóxicas. Uma nova ordem se estabelecia, a Liga das Nações dava lugar à ONU e a humanidade produzia uma declaração universal balizadora. Ainda assim, um dos grandes vencedores desse período se mantinha uma sociedade constitucionalmente racista.

Foi neste contexto de confrontações que repercutem até hoje que nasceu Althea Gibson, na Carolina do Sul, filha de pequenos fazendeiros de algodão, em 1927. Num momento de alta da produção cinematográfica a respeito da história da luta dos negros por liberdade e igualdade social, sua história está retratada no documentário que leva seu nome, dirigido por Rex Miller, lançado em 2014 e disponível no Brasil no Netflix e catacumbas da internet.

Arruinada pela seca, a família se mudaria para Nova York, mais precisamente para o Harlem, histórico reduto dos negros estadunidenses. O que seria uma vida condenada ao trabalho penoso e o racismo mais bestial se tornou uma das grandes histórias do esporte mundial e, claro, da luta contra a odiosa segregação racial.

Ensinada pelo próprio pai a lutar boxe, afinal, a brutalidade do mundo exterior seria infinitamente maior, Althea logo desenvolveu habilidades em vários esportes, mostrando-se rapidamente, nos clubes exclusivos da elite negra que a grande cidade lhe apresentava, um talento imberbe.

O documentário em questão inclusive destaca sua aversão ao estilo de vida dessa classe média negra, cosmopolita e, apesar do apartheid, incluída socialmente – ao menos em sua própria sociedade, pois até uma Associação de Tênis Afro-Americana existia.

Vencedora do torneio nacional desta entidade em 1944, seria vice em 1946 e, a partir de 1947, reconquistaria o título por nove vezes seguidas.

Com tamanho talento, a jovem tenista começou a furar barreiras, vencer campeonatos contra tenistas brancas e se afirmar num tênis que ainda não era profissional, portanto, não rendia fortunas.

Em 1950 e 1951, fincou seu nome como a primeira negra a disputar os legendários US Open e Wimbledon, dois dos quatro chamados “grand slams” do circuito do tênis.  

Em solo inglês, se tornaria amiga de Angela Buxton, muito provavelmente por se tratar de outra pessoa que sentira na pele o peso do racismo. Também talentosa no tênis, Angela foi barrada da associação britânica e teve sua carreira dificultada por ser de família judia. Ficou célebre o episódio em que a família Buxton foi interpelada na porta de casa pelo proprietário que respondia por toda uma vizinhança a respeito do incômodo geral com a hospedagem a uma negra.

Como dito, o tênis não dava dinheiro e os muros do apartheid estavam em pé. Sua carreira não decolava, mas ao menos Althea aproveitou uma bolsa da Florida A&M University e se formou.

No meio disso, fez parte de duvidosas incursões à Ásia, idealizadas pelo Departamento de Estado, para ministrar cursos e jogar torneios, sob evidente intenção oficial de propagandear o way of life do novo dono do mundo.

Após duvidar de continuar a carreira, foi aos poucos voltando ao circuito. A partir de Roland Garros 1956, começou a se imortalizar no esporte. No famoso aberto francês sagrou-se campeã. E a partir daí colecionaria títulos na alta corte do refinado esporte.

No mesmo ano, seria vice do US Open e, já emendando o ano seguinte, outro segundo lugar, desta vez no aberto australiano. O avião já se encontrava em pleno cruzeiro e em 1957 e 1958 viriam bicampeonatos arrasadores em Wimbledon e no sonhado US Open, consagrando para sempre seu nome.

Nas duplas o sucesso era similar, inclusive fazendo parceria com Maria Esther Bueno, uma das maiores esportistas da história do Brasil, com a qual venceu o aberto inglês e perdeu a final do US Open – chega a ser chocante não conhecermos esse pedaço tão especial da história do tênis brasileiro.

Muita glória, pouca grana

Depois de acumular títulos, Althea precisava se resolver financeiramente. Aos 31 anos, abandonava o tênis e começaria uma inusitada e variada carreira. Foi cantora, lançou um álbum com seus singles favoritos, comentarista esportiva e participante de talk shows, como o do famoso Ed Sullivan.

Aos 37, voltava brevemente ao esporte para derrubar outro muro: Althea se lançara ao golfe e entraria na LPGA (Ladies Professional Golf Association), famoso circuito nacional desse outro esporte até hoje associado à elite.
    
Posteriormente, seria treinadora de jovens atletas, entre elas as irmãs Williams, em variados esportes. Sua autobiografia I always wanted to be somebody tem um título autoexplicativo e se insere no contexto de luta pelo direito à igualdade, ao menos formal, entre negros e brancos, o que custou muito para ser reconhecido no império que mais propagandeou a democracia e a livre iniciativa em todos os tempos.

Talvez por não ter assumido posições mais incisivas na luta contra o racismo, num país que pegava fogo, via boicotes e combates de rua em crescimento diário e teria em Mohamed Ali um grande símbolo, sua história tenha sido pouco contada.

Divorciada duas vezes, Althea morreu em 2003, na pobreza, longe de ser uma presença constante na mídia ou desfrutar de patrocinadores vitalícios, benesse reservada para as gerações mais recentes. Angela Buxton manteve contato até o fim de seus dias. E as irmãs Williams e Tiger Woods lhes devem bastante.


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.


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