Atletiba: um perfeito domingo de futebol brasileiro

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O futebol brasileiro pós-Ricardo Teixeira continua revisitando velhos papelões: virada de mesa e o eterno fantasma do tapetão; brigas de torcida altamente previsíveis e negligenciadas, quando não potencializadas, pelos órgãos e autoridades competentes; um calendário que volta a obrigar alguns clubes a jogar três vezes na semana, até em dias consecutivos; e, agora, um jogo adiado com casa cheia sob bizarras alegações.

O que aconteceu neste domingo em Curitiba, quando Atlético x Coritiba pretendiam transmitir o clássico entre si por meio da internet, de forma autônoma, na verdade é uma espécie de ilustração definitiva daquilo que muitos de nós falamos há anos: muito antes do torcedor, o interesse de uma empresa monopólica é o que move o ânimo daqueles que “cuidam” do nosso futebol.

Não precisamos perder tempo nessas linhas rememorando toda a construção do império global sobre o futebol brasileiro, em todas as instâncias, em especial agora, após a saída de cena da Rede Bandeirantes.

Vale discutir que, mesmo timidamente, vemos alguns espasmos de combate ao mandonismo de federações/CBF/Globo. Além de algumas negociações com o emergente Esporte Interativo por parte daqueles que se sentem menos prestigiados pela emissora carioca, observamos que há algumas tentativas de autonomizar os clubes, que afinal são os únicos elos indispensáveis para os jogos, na defesa de seus interesses econômicos.

Se uma grande liga de clubes ainda não saiu do papel, dada a dificuldade de unificar uma linha de pensamento e deixar de lado a luta por privilégios exclusivos, iniciativas como Nordestão, Primeira Liga e esta da dupla paranaense indicam que algo pode mudar em breve.



Ainda falta muito, pois como disse o ex-craque Alex, ao mesmo tempo em que tentam reverter um desequilíbrio econômico frente aos clubes de elite do país, alguns desfrutam do mesmo tipo de disparidade em nível estadual.

Uma coletividade de clubes que permite a permanência da parasitagem de Marco Polo del Nero à frente da CBF (figura impossibilitada de sair do país desde que o escândalo de propinas derrubou a cúpula da FIFA) ainda está no patamar da indigência política, moral e, muito provavelmente, intelectual.

De toda forma, é preciso aplaudir a iniciativa dos clubes em transmitir o jogo por conta própria. Tal como foram o rádio e a própria TV um dia, a internet também viverá seu boom de popularidade e colherá os frutos econômicos de forma proporcional. Se ainda engatinha uma transmissão online, em breve certamente fará parte de nossa rotina.

Portanto, é evidente que um novo nicho de mercado se abre. E com uma preciosa diferença: ao contrário da TV, a transmissão online não demandará o mesmo nível de aparelhagem técnica e física para levar as imagens ao telespectador. Na outra ponta, pode perfeitamente angariar patrocinadores que paguem bem para aparecer na telinha de seu computador, tal como o fazem para aparecer na tela da não assumida “TV Brasil”.

Ainda nesse sentido de autonomização dos clubes, é necessário registrar o papel de capanga da Rede Globo por parte da Federação Paranaense, cujo perfil político é historicamente da pior espécie.

O cancelamento da partida, em cima da hora, é fato gravíssimo, verdadeiro atentado ao futebol e ao torcedor. As alegações de falta de credenciamento não merecem a menor consideração. Primeiro porque ofendem demais nossa inteligência, segundo porque não é problema em ocasiões menos interessantes, como já mostrou essa matéria da ESPN. Por fim, o próprio quarto árbitro da partida deixara escapar o motivo ainda no gramado.

Estamos diante de um tempo em que as autoridades desse país, e o futebol é apenas reflexo menor, estão deliberadamente tentando tapear o cidadão. A maneira como tratam debates estruturais têm beirado a molecagem. Do mesmo modo que um governo tenta fazer o trabalhador crer que abrir mão do seu próprio FGTS ou de uma aposentadoria digna é saudável para a economia do país, a cartolagem que já assinou inúmeros contratos com a Globo acha mesmo que pode nos empulhar com um papo de “credenciamento” para cancelar uma partida entre dois times grandes.

É deveras grotesco. Não bastasse o campeonato cancelar um dos raros jogos que atraem uma boa presença da torcida, alega-se uma burocracia para barrar exatamente aqueles que fariam a transmissão autônoma, que de fato nunca devem ter se credenciado na federação. Mas e daí, se estão autorizados pelos próprios donos do espetáculo? Alguém acredita em todo esse rigor regimental das federações de futebol no Brasil?

De fato, duvido que algum capa preta da emissora tenha se dado o trabalho de pegar o telefone e passar a cruel ordem de não deixar a bola rolar, com todo o ônus subsequente em sua imagem pública.

Em relações de submissão hierárquica, econômica, social, é mais que comum o subordinado ser mais realista que o rei. A vontade de agradar é tão grande que não raro se toma uma atitude cujo rigor dificilmente seria imitado pelo próprio detentor do poder. Este sabe que oferecer uma sensação razoável de liberdade e oposição política é útil à manutenção das peças no exato lugar onde já estão. E não é uma partida de estadual transmitida pelo youtube que mudará tão cedo o status quo.

A Globo sabe que fez uma proposta baixa aos dois maiores de Curitiba e entende como parte do jogo a resposta que se engendrou para o frustrado clássico. Já o capanga, “bate primeiro, pergunta depois”, como bem sabe a inteligência coletiva.

Que fique a lição: os clubes brasileiros, de todos os níveis e divisões, precisam se livrar de uma vez por todas do poder cartorial de suas federações, que agem muito mais como empresas de interesse privado do que como protetoras de seus filiados e fomentadoras do futebol local. O que aconteceu neste domingo foi simbólico dos 30 anos de submissão do futebol nacional a uma emissora que já ganhou rios de dinheiro com nossa paixão, sempre sob a supervisão de uma cartolagem cujos conceitos e concepções são muito mais afeitos a uma ditadura do que a uma democracia.

Morte de torcedor adolescente e a narrativa que não fecha

Apesar de tudo o que foi dito acima, o jogo de fato não deveria ocorrer. Mais cedo, tivemos o lamentável episódio da morte de um torcedor de 15 anos do Coxa Branca, após levar um tiro de um sargento que participava da escolta da torcida.

Uma tragédia que não cabe na narrativa cada vez mais repisada pela mídia, isto é, aquela que atribui todos os males da violência às torcidas organizadas. Após a “arenização” do futebol brasileiro e o triunfo da cultura da segregação nos estádios, subdividindo as próprias torcidas, parece que há uma cruzada final pela “limpeza” desse verdadeiro espantalho dos estádios, em prol, é claro, do cidadão de bem – leia-se aquele que pode pagar mais, alvo preferencial dos clubes e suas “novas e modernas técnicas de gestão”.

Toda semana, procura-se destacar um fato violento nos estádios que possa ser imputado às torcidas, aos “bandidos”. Esquece-se o contexto de violência endêmica do país, o que serviria para demonstrar que os descalabros em estádios e entorno de jogos são fração mínima deste mal, e repetem-se as discussões de bons contra maus, a exemplo dos mais sensacionalistas programas policialescos da TV brasileira – com toda a carga de ignorância conjuntural agregada.

Se falta unidade dos clubes para defender seus interesses, o mesmo vale para as torcidas. Tal como já visto em outros lugares do mundo, o episódio deveria ensejar o pedido popular de adiamento do jogo. Não pelo interesse comercial, e sim por respeito à vida, algo longe de fazer parte da realidade brasileira.

Resta saber qual será a abordagem da mídia que adora criminalizar o torcedor organizado, sem disfarçar toda sua incapacidade de estabelecer um debate maduro sobre segurança pública. Essa morte, assim como a do cruzeirense que perdeu a vida após mal esclarecida confusão com a segurança do privatizado Mineirão ou a chacina da Pavilhão 9, não se encaixa na narrativa predeterminada de torcedores maus que aterrorizam o “torcedor de bem”, “afastam a família”.

Vamos ver se tentarão amaciar o episódio e promover alguma insinuação negativa a respeito da conduta do garoto ou se mais esse crime do Estado brasileiro provocará uma reflexão um pouco mais ampla de nossa violência cotidiana e estrutural.

Como se vê, toda a nossa desgraça coube numa única tarde de domingo.

Leia também:

Futebol estatizado? – a histórica querela entre o governo Kirchner e o monopólio local sobre o futebol

Globo tenta dar golpe nas negociações do futebol: guerra à vista – a polêmica renegociação dos direitos de TV em 2011. Como se viu, a mencionada tentativa foi bem sucedida.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.   

 

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