Quem sabe faz a hora, não espera receber

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O inconsciente histórico brasileiro é repleto de mitos. Como o brasileiro “cordial”, sujeito à interpretação equivocada do que assinalou Sérgio Buarque de Hollanda. Cordial sim, de cordis, coração, por agir mais movido pelo coração do que pela razão. O que explica o paradoxo de os defensores “da família” serem os mesmos que incentivam a homofobia, a exclusão e os preconceitos.
         
Alardeia-se que somos um povo pacífico, no esforço de favorecer o memoricídio que encobre as inúmeras revoltas que marcam a história do Brasil. Saiba a verdade histórica ao ler “Brasil: uma biografia”, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa M. Starling.
         
O fracasso da tentativa de escravizar nossos indígenas é atribuído à benevolência dos portugueses. Padre Vieira assumiu-lhes a causa e não transigiu em defesa deles. Pouco se considera a própria resistência indígena, que se estende aos nossos dias.
         
A abolição oficial da escravatura, em 1888 (a última a ser decretada nas três Américas!), teria sido um presente da generosa princesa Isabel. Ora, basta um pouco mais de atenção à história para constatar como foi árdua a luta dos negros escravizados, dos quilombos e das forças políticas abolicionistas que ousaram se posicionar contra o pelourinho.
         
A República teria sido outra dádiva dos militares, assim como mais tarde Getúlio Vargas, pai dos pobres e mãe dos ricos, teria nos dado a legislação trabalhista que alforriou o nosso operariado do regime de semiescravidão. Assim, silenciam-se acirradas lutas, desde a segunda metade do século 19, de anarquistas, comunistas e sindicalistas.
         
A ditadura militar teria concedido aos idosos da zona rural a aposentadoria compulsória. E pouco se fala das décadas de lutas pela reforma agrária e do papel libertário das Ligas Camponesas.
         
Os governos Lula teriam implantado programas sociais, como o combate à fome, a demarcação de terras indígenas, os benefícios a idosos, estudantes, pessoas portadoras de deficiências etc.
      
Ora, o PT, fundado em 1980, resultou da confluência das Comunidades Eclesiais de Base, do sindicalismo combativo e dos remanescentes das esquerdas que enfrentaram a ditadura. Portanto, eleito presidente em 2002, Lula simbolizava o resultado de pelo menos 40 anos de lutas populares.
         
Na história não há direitos regalados e sim conquistados. O que prevalece, entretanto, é a versão de quem está por cima. Versão que visa a encobrir a crueldade da repressão, os crimes hediondos das forças policiais e militares, a chibata, o pau-de-arara, o choque elétrico, as greves e mobilizações, enfim, rios de sangue derramados para que, ao menos na letra da lei, fossem conquistados direitos mínimos de cidadania, agora negados pelo governo golpista de Temer. A propósito, quando serão abertos os arquivos da Guerra do Paraguai?
         
A versão do poder impregna o inconsciente coletivo e tende a imobilizar. Sobretudo quando o governo agarra o violino com a mão esquerda e toca com a direita. As mobilizações arrefecem, embora a insatisfação se amplie. É o que ocorre hoje. Em nome do “podia ser pior”, setores progressistas ficam a ver “a banda passar”. A banda podre da economia brasileira asfixia os pobres com o ajuste fiscal, preserva os privilégios da elite, e põe a culpa do zika vírus no mosquito, sem admitir que 50% da nação não dispõem de saneamento básico.
         
Talvez uma parcela considerável da esquerda tenha desaparecido, e eu ainda cometa o erro de ter fé na sua existência. Foi soterrada sob os escombros do Muro de Berlim, cooptada pelo neoliberalismo, aliciada por alianças promíscuas, desmoralizada pela corrupção. Quem sabe isso explique por que há, nas redes digitais, tantos protestos, sem porém nenhuma proposta, exceto a de Lampedusa, “mudar para que tudo fique como está”.
         
O Brasil se parece ao Titanic. Embora à deriva, muitos acreditam que ele aportará em solo firme em 2018. A orquestra do “vai melhorar” continua a soar aos nossos ouvidos, embora a água já nos atinja a cintura...
         
Duas lições aprendi em minha passagem pelo Planalto: o poder não muda ninguém, faz com que a pessoa se revele. E governo é como feijão, só funciona na panela de pressão. Sem a mobilização dos movimentos sociais, como no passado fizeram os indígenas, os escravos e os trabalhadores, não haveremos de conquistar direitos e ampliar o espaço democrático. E isso exige algo raro hoje em dia: uma esquerda capacitada na teoria e engajada junto aos segmentos populares na prática.

Frei Betto

Assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos")

Frei Betto

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