Alta temperatura em 2013

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O aquecimento das lutas sociais de 2012 prenunciava a chegada muito em breve de um forte momento de agitação social, e isso realmente aconteceu no fim do outono e início de inverno em 2013, tornando-o muito mais “quente”. Vários fatores contribuíram para esse “aquecimento” – apesar do tempo mais frio que no ano anterior.

 

Podemos elencar alguns fatores que foram preponderantes: a impunidade reinante para os criminosos do colarinho branco, a corrupção oficial crescente, o descaso com os serviços essenciais à qualidade de vida do povo, a entrega do patrimônio público ao capital privado, incluso o capital internacional, a desnacionalização da economia, a avidez do capital com os elevadíssimos lucros, o achatamento progressivo do padrão de vida do povo trabalhador, a elevação das desigualdades socioeconômicas, o crescimento da violenta repressão sobre os movimentos sociais, a carência de organizações populares que representassem os interesses de toda a população e que viessem a organizar a necessária mobilização social para fazer frente a tantos desmandos. A população foi percebendo que dirigentes de muitas dessas organizações - que foram os instrumentos das lutas da sociedade - foram cooptados e bandearam para o governo, passando a agir para impedir a organização e a mobilização do povo trabalhador. O povo percebeu que está órfão e jogado às traças.

 

Não se pode esquecer que o ano de 2013 começou com muitos ataques do governo aos interesses da população: congelamento de verbas públicas destinadas às áreas sociais; favorecimento descarado às indústrias do automóvel, entre outras, com o consequente prejuízo da seguridade social; favorecimento da “indústria da Copa do Mundo padrão FIFA”, com o desvio de rios do dinheiro público para favorecer as grandes empreiteiras; a desocupação pela força das áreas próximas aos estádios, deixando milhares de famílias no desamparo. De quebra, a entrega do pré-sal, dos portos, aeroportos, estradas de rodagem e ferrovias à exploração de grandes empresas. Enquanto crescia a violência urbana e rural, dizimando parcela significativa da nossa juventude.

 

O que os governantes não esperavam é que essa “massa” silenciada pela força e pela ação da mídia fosse capaz de ocupar as ruas das grandes cidades brasileiras. Governos estaduais confiavam que as forças policiais seriam suficientes para manter o povo eternamente submisso. Esqueceram de avisar seus comandantes de que povo é capaz de pensar e de agir. Aliás, os medíocres governantes não acreditam no povo e por isto deitam e rolam na prática das políticas corruptas e autoritárias. Apesar de bem organizadas e com muito dinheiro, as forças de inteligência não conseguiram detectar a ebulição popular. “Semearam ventos, começaram a colher tempestades”.

 

Já no início do ano presenciamos vários movimentos grevistas: na construção civil (apesar dos seus sindicatos apelegados), de professores, bancários, petroleiros, ferroviários, policiais.., revelando a crescente insatisfação com a dura realidade brasileira que penaliza os mais frágeis.

 

Sem dúvidas, o ponto alto dessa insatisfação se deu pela luta contra o aumento descabido das tarifas do transporte coletivo. Os míseros R$ 0,20 foram apenas a faísca que acendeu o estopim das manifestações, pois a bomba da rebeldia já estava armada há muito tempo. Imaginaram os governantes que seria fácil provocar sua dispersão. Seu espanto foi perceber, tarde demais, que a violência gera reações por parte do violentados. E, impressionante, foi perceber que a reação popular foi forte, crescente, pacífica e persistente, por isto mesmo inquebrantável. “Os políticos caíram do cavalo!”. Nem mesmo as manjadíssimas provocação de agentes da repressão infiltrados, que dão início às provocações e aos quebra-quebras, fizeram o povo recuar. Quanto mais provocação, mais resistência. Não passou desapercebido que os manifestantes eram, majoritariamente, jovens trabalhadores que estudam ou estudantes que trabalham.

 

Depois das inesperadas e magníficas mobilizações do mês de junho (fim do outono e início do inverno), muitas outras, de menores escalas, algumas pequenas, aconteceram e continuam a acontecer: Indígenas, sem teto, sem terra, afrodescendentes, estudantes, de gênero, por políticas públicas de interesse popular, intensificação dos trabalhos das Comissões da Verdade, entre tantas. Tudo indica que, no próximo ano, a dose se repetirá, com maior ou menos intensidade, mas deverá ocorrer porque se aguçou a consciência civil, se despertou o interesse em milhões de brasileiros.

 

As novas gerações perceberam que é possível assumir seu protagonismo político de transformadores da sociedade e - quem sabe? -, com ações mais organizadas, acabar com as estruturas desse Estado falido e corrupto, que gera discriminação e marginalização.

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

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