O papa Francisco no Brasil

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Não podemos abordar a visita do papa Francisco ao Brasil fora do contexto da história recente da Igreja Católica no mundo, especialmente na América Latina. Assim, lembramos que Francisco é o terceiro papa a visitar o Brasil.

 

Antes, João Paulo II ousava sair do Vaticano para se encontrar com vários povos do mundo. Sua vinda ao Brasil, em 1980, provocou enorme euforia, e não era para menos. Afinal, somos um país-colônia (ainda) e somente os interesses econômicos ou turísticos animavam alguém a investir no país “mais católico do mundo”! Claro que, muito antes de João Paulo II, muitos missionários entenderam a importância de investir na “evangelização” do povo brasileiro. Felizmente, inúmeros desses missionários se engajaram num verdadeiro processo de evangelização libertadora, e não mais de legitimação do sistema dominante e explorador.

 

João Paulo II, que foi operário quando jovem e que viveu a ditadura socialista da Polônia, de certa forma, trouxe mais esperanças ao brasileiro porque ainda estávamos sob a dominação militar. Era forte ainda o confronto – naquele momento histórico – da ditadura com parte significativa do episcopado brasileiro, com padres, freiras e com o laicato cristão que despertava para os ideais libertários; confronto com uma Igreja que assumia verdadeiramente o Evangelho nas suas dimensões transformadoras e promotora da dignidade humana para os oprimidos.

 

Um dos momentos marcantes daquela visita se deu no estádio do Morumbi, no dia 3 de julho daquele ano, quando do encontro de João Paulo II com os operários. Poucos brasileiros sabem que a preparação daquele memorável encontro se deu em alta tensão entre a Igreja e as Forças Armadas, especialmente com o comando do II Exército brasileiro.

 

Entre outras coisas, convém lembrar que o então presidente da Comissão de Justiça e Paz, Dalmo de Abreu Dallari, fora sequestrado na véspera (dia 2), todo ferido e abandonado sem forças num terreno baldio. Levado ao hospital, no dia 3, foi conduzido de maca para a missa, no Campo de Marte, onde fez a leitura de um texto bíblico, momento da denúncia pública do atentado contra sua vida. O encontro do papa com os operários trouxe novos ares de vida e liberdade para nosso povo.

 

Pena que, depois disso, ao longo do seu pontificado, sua ação não tenha contribuído para a continuidade do processo de conscientização do nosso povo, processo que vinha sendo desenvolvido pela atuação da Igreja da Libertação. Durante seu pontificado sofremos um grande retrocesso, especialmente a imposição do “silêncio obsequioso” a mais de uma centena de teólogos comprometidos com as lutas do povo e com nomeação de novos bispos sem o mesmo compromisso com as questões sociais. Tivemos ainda sua segunda visita pelo Congresso Eucarístico, realizado no Rio.

 

Depois, recebemos a visita de Bento XVI, seu sucessor, por ocasião da Conferência Episcopal Latino Americana (CELAM), acontecida na cidade de Aparecida. Porém, do ponto de vista de muitos cristãos, a CELAM foi um avanço, mas Bento XVI, pelas suas ações durante seu pontificado, não contribuiu para fazer a Igreja retomar seu compromisso histórico de “Opção Preferencial Pelos Pobres”, lançado pelo Concílio Vaticano II (1962 -1965), embora tenha ele dito que a ação da Igreja não era preferencial e sim “Opção pelos Pobres”. Homem culto, escreveu vários documentos de orientação para o conjunto da Igreja no mundo.

 

Porém, também do ponto de vista de muitos cristãos, não contribuíram para fazer o conjunto da Igreja se voltar decididamente para os problemas que afetam o conjunto da Humanidade. Por outro lado, deu enorme contribuição à Igreja ao renunciar, denunciando os descalabros que acontecem no interior do Estado do Vaticano. Claro que há muita gente que discorda dessa visão, o que é positivo porque há diversidades de ações pastorais dentro das igrejas cristãs, em particular dentro da católica.

 

Finalmente, temos um papa não europeu. Temos um papa do sul da América Latina. Poderíamos dizer um papa que vem da periferia do cristianismo, se considerarmos a dominação cristã europeia centralizadora bimilenar. E, de cara, revela-se um servidor, contrapondo-se à concepção e prática reinante de um episcopado principesco, talvez a principal herança do cristianismo medieval desencarnada dos verdadeiros valores evangélicos. Cristianismo, segundo Jesus Cristo, é serviço, não poder, menos ainda poder dominante e pomposo. Francisco ousa desafiar tais práticas “evangelizadoras” secularmente equivocadas e que serviram, em dado momento histórico, para serem qualificadas, as religiões, como “ópio do povo”. Francisco, com suas palavras fraternas, cheias de alegria, sorridentes, vem propondo fraternalmente que seus irmãos de episcopado promovam mudança radical de comportamento, estimula-os a deixar o centro e ir para a periferia, como fazia Jesus Cristo, e se colocar ao serviço libertador dos oprimidos (Lc. 4, 18-19).

 

Todo cristão (das várias igrejas) sabe que sua tarefa de promover profundas mudanças nas estruturas arcaicas do Vaticano é por demais árdua. Ele também sabe e diz que é preciso fazê-las, ainda que isto possa trazer sérios problemas internos com setores conservadores. Mas sabe também que está assumindo as tarefas que o conjunto amplamente majoritário do cardinalato lhe confiou e que o “Povo de Deus” tanto espera. Entendeu que rupturas são necessárias e urgentes, mas vem dando passos bem medidos, buscando colaboração, partilhando responsabilidades com amplos setores dos seus irmãos de episcopado. Francisco vem mostrando que não tem e não quer plenos poderes, que não é infalível, deixando claro que a infalibilidade não faz parte da vida humana, apenas da divina. Porém, não mostra temor, embora deva ter seus momentos de “agonia no seu horto”, já que sempre pede nossas orações.

 

Em sua visita ao nosso país, Francisco esbanjou entusiasmo e soprou otimismo, especialmente para a juventude. Colocou todo seu empenho em mostrar que os jovens são a força transformadora das estruturas políticas, econômicas, sociais, culturais e espirituais de todas as nações e da Humanidade; que um mundo diferente e muito melhor será possível com o protagonismo da juventude.

 

Pudemos, com suas palavras firmes e convictas, sentir uma suave aura refrescando parcela significativa da população brasileira e latino-americana. O papa argentino foi além, ao cobrar conversão das forças políticas e econômicas, para que estas deixem de estar voltadas para o lucro dos poderosos e coloquem as políticas públicas e a produção para atender as necessidades dos marginalizados, dos pobres, dos desfavorecidos. Tudo com muita diplomacia, mas com coragem e clareza na abordagem. Outro fato que impressionou foi não aceitar a manipulação política de sua visita, colocando-a como pastoral, apesar de todo o esforço de políticos destacados e da insistência da mídia. Francisco revela lucidez, tranquilidade e firmeza de quem sabe o que quer e deve fazer. Fruto de muita reflexão pessoal e coletiva.

 

Tudo isto dará bons frutos? A semeadura se revela de boa qualidade. O terreno parece fértil, mas será necessário muito mais que otimismo. É preciso determinação tanto da parte do clero quanto do episcopado, sobretudo dos cristãos e todos e todas de Boa Vontade. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), para a qual veio, não poderá ser apenas mais um evento, como o é uma copa do mundo ou uma olimpíada, nos quais tudo volta ao seu lugar depois da banda passar. A JMJ precisa ser um ACONTECIMENTO, que interfira na consciência e na ação dos que querem e buscam construir a justiça social: jovens, adultos e idosos, mulheres e homens conscientes de suas forças e potenciais.

 

Quero lembrar que, em 1957, realizou-se, em Roma, o Primeiro Congresso Internacional da JOC (Juventude Operária Católica), o pioneiro dos movimentos de Ação Católica que impulsionaram a Igreja e a fizeram voltar-se para a realidade de vida dos povos, especialmente dos operários no mundo capitalista e socialista da época. Esse Congresso, realmente, alavancou a juventude operária para seu protagonismo no mundo e na vida da Igreja, como nos testemunham as conclusões do Concílio Vaticano II e as mudanças que se passaram no mundo, especialmente na América Latina. Milhares de jovens passaram a assumir responsabilidades na vida sindical, política e do movimento popular, provocando mudanças de comportamentos pessoais e coletivos.

 

Vários fatores importantes podem contribuir para os planos de mudanças propostos por Francisco e ansiosamente esperados pelo conjunto da Igreja e dos cristãos em geral. Um deles, certamente fundamental, será a indicação de novos bispos, como sempre acontece, dentre o clero de fato comprometido com a ação pastoral no meio do povo explorado.

 

Nosso povo não precisa tanto de bispos professores de elevada instrução. A Igreja precisa de “pastores”, profundamente evangelizados, mas comprometidos com a pastoral social, com o povo. Sem isto, mudanças serão retardadas ou, pior, poderão provocar novo retrocesso.

 

Outros fatores importantes podem ser: o respeito ao tempo necessário aos novos impulsos que nos chegam; o debruçar sobre as mudanças da prática religiosa arcaica, desencarnada da vida sofrida do povo; uma profunda reciclagem na preparação de novos sacerdotes, visando doação total e não a frequente promoção ou bem estar pessoal, e o repensar dos métodos de formação religiosa e política do povo, com método indutivo, que parta da realidade, que incentive ao engajamento e à experimentação na prática cotidiana nos ambientes de trabalho, de escolas, de bairros, na política, nos movimentos nascidos do povo, e não mais das teorias que não mudam comportamentos.

 

Que os bons ventos tragam consigo sementes das mudanças profundas das quais Francisco vem se tornando um grande portavoz.

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Comentários   

0 #1 RE: O papa Francisco no Brasiljosé 12-08-2013 00:50
Não podemos esquecer que o Estado é laico. Nos trens da Central do Brasil no Rio de Janeiro criaram uma lei impedindo cultos nos trens, medida que afetou os evangélicos. No metro Afonso Penna (linha 1) tem imagem de santo. Mesmo em supermercados apologia religiosas, imagens de santos, deveriam ser proibidas, mesmo porque somos uma sociedade PLURAL. Esse Papa não passa de um muhajidin de Wasghinton. E o museu do Índio será ou não derrubado?
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