Perspectivas sombrias e esperanças devem marcar 2013

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O ano de 2012 foi marcado pelo endividamento progressivo da maioria dos países do planeta, pelo ataque progressivo do capital visando a eliminação de direitos dos trabalhadores, pelo crescimento do desemprego, pelo rebaixamento do padrão de vida dos povos e o respectivo crescimento da pobreza na maioria dos países. Porém, nos principais países afetados pela “crise” financeira, os trabalhadores saíram às ruas em grandes protestos contra as medidas de contenção econômica dos seus respectivos governos.

 

O ano que se inicia parece que não será diferente. O todo poderoso Banco Central Europeu continua exigindo arrocho orçamentário e maior redução de direitos sociais nos países endividados. As soluções propostas implicam em fazer caixa para garantir o que no Brasil é apelidado do “superávit primário”, para bancar os serviços das dívidas (pagamento dos juros e amortizações de dívidas de curto prazo), sem eliminar o crescente endividamento nacional.

 

Uma verdadeira “bola de neve” do endividamento financeiro está rolando na Europa, Ásia, África, Oceania e Américas, sem que o capital ofereça perspectivas de encerrar o ciclo vicioso da dívida mal paga, que faz crescer o bolo da própria dívida, ininterruptamente. As soluções exigidas, sempre com maior pressão, são para que os povos paguem a conta. Tudo isso em favor de um pequeno grupo clandestino de banqueiros que não se cansa de concentrar riquezas e poderes sobre todas as nações. Pequeno grupo clandestino que vai estendendo seus tentáculos sugadores por todos os cantos do mundo.

 

Havia perspectivas de mudanças em países nos quais o povo derrotou nas urnas seus governantes conservadores, substituindo-os por governos supostamente progressistas. Porém, ali também as políticas de enxugamento orçamentário e redução dos direitos se fizeram presentes. É uma demonstração clara de que o sistema político e econômico do mundo capitalista está em xeque; de que o Estado foi criado e é mantido para atender aos interesses dos poderosos proprietários de terras, indústrias, comércio e bancos. O capitalismo não consegue oferecer uma saída estratégica para seu estertor histórico. Sua saída, para continuar a reinar absoluto, seria se reciclar, criar novas formas de crescimento econômico e, logicamente, na sua permanente determinação de exploração dos povos, criar novas formas de dominação. Não está conseguindo, porém. Até quando?

 

Tudo isso revela que o atual sistema estatal é, na sua essência, contrário aos verdadeiros interesses e à própria vida dos povos, um sistema que precisa ser negado e destruído, dando lugar a um novo modelo de organização política em cada nação.

 

Dentro de um quadro tão sombrio para a humanidade, o que se pode esperar de positivo, para o ano que se inicia, é a também crescente revolta dos povos contra toda essa barbárie, o acirramento das tensões e o crescimento das manifestações populares em todos os continentes.

 

Países como o Egito, Grécia, Espanha, Itália, Portugal, principalmente, mas não só, estão e continuarão em conflito político e social, conflito que poderá se acirrar por conta da intensificação da ação repressiva das forças policiais, sempre a serviço dos interesses do capital.

 

Portanto, com o olhar voltado para a realidade mundial, pode-se intuir que, se as perspectivas quanto às questões econômicas são sombrias, a tendência é também de crescimento da ação político-social contestadora em inúmeros países. Resta saber se tais manifestações serão fruto do amadurecimento político dos povos, resta saber se se caminha para a consequente e imprescindível organização popular, para a elaboração de projetos estratégicos visando fazer frente a governos e suas forças repressivas e, acima de tudo, para a ação organizada contra as políticas impostas pelo Banco Central Europeu, pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelas forças econômicas e políticas que os dominam.

 

O Brasil deverá viver mais um ano marcado por fortes contradições. Políticas oficiais continuarão aprofundando a dependência econômica e financeira do país em relação ao capital internacional, uma vez que as privatizações continuam se acelerando e o país continua priorizando o incentivo aos investimentos das empresas estrangeiras. Ou seja, segundo nossos governantes, devemos continuar colônia dos países matrizes do capitalismo.

 

O capital está pressionando (e o governo Dilma vai cedendo) para que sua folha de pagamento seja desonerada, isto é, para que o governo rebaixe ou elimine impostos, a fim de ver seus já extraordinários lucros crescerem sempre mais; novos ataques aos direitos dos trabalhadores serão desferidos pelo governo, que conta com o apoio de um Congresso corrupto, corrompido e mancomunado com as grandes empresas que financiam suas riquíssimas campanhas eleitorais; encontros esportivos internacionais comporão o grande circo para que o povo continue marginalizado das questões políticas importantes e a grande mídia continuará reforçando essa estratégia do capital, vendendo produtos inúteis e mil e uma ilusões de ter qualquer coisa para se sentir gente.

 

Por outro lado, crescente insatisfação vem aparecendo na vida do povo trabalhador, com seus baixos salários e sua constante rotatividade no trabalho, marcando a vida de milhões de famílias que moram em condições precárias. Some-se a insatisfação pela crescente precarização da saúde pública, da educação, do sistema de transporte, com os apagões que geram o caos, com as obras faraônicas, a revolta com a corrupção, com a falta de perspectiva de vida para milhões de jovens, com o crescimento incontrolado da violência e, sobretudo, com a desilusão com os políticos em geral. São fatores que podem acender a chama das manifestações populares.

 

Até bem pouco tempo, era impossível propor aos movimentos organizados que se posicionassem contra as políticas econômicas e sociais dos governantes nas suas três instâncias: municipal, estadual e federal. Mas as coisas estão mudando, com muita gente se decepcionando, abrindo os olhos e se perguntando sobre o que pode ser feito para reverter a situação. As manifestações populares, como as greves, as passeatas e seus protestos, ocorridos já em 2012, deverão ganhar novo impulso. Aqui também, como em outros países, espera-se que haja um avanço no sentido de melhor entrosamento entre as forças populares, capazes de promover um avanço político organizativo do qual somos carentes.

 

A juventude, em particular, terá o incentivo da Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela CNBB, que neste ano privilegia a conscientização e mobilização da juventude, chamando-a a se tornar protagonista das mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais (ideológicas) de que o Brasil tanto precisa e espera. Essa campanha receberá um forte impulso com a realização, no Rio de Janeiro, da Jornada Mundial da Juventude. Esperamos que não seja apenas mais um evento, mais sim um acontecimento, que provoque mudanças comportamentais no seio dos e das jovens brasileiras e dos outros países que aqui estarão.

 

Não faltam, pois, sinais de esperanças. Façamos nossa parte.

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

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