A corrupção é apenas a ponta do iceberg

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O Conselho Permanente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) lançou documento (21/06/07) em que faz aflorar a grande perplexidade presente nas cabeças e ânimos do nosso povo, ante a avassaladora corrupção que tomou conta dos três Poderes da nação brasileira.

“Cresce a indignação ética diante da violação de valores fundamentais para a sociedade. A ambição desmedida de riqueza e poder leva à corrupção”. Chama a atenção para o fato da crescente descrença do povo em relação às instituições, mostrando que isso enfraquece a (débil) democracia. A nosso ver, infelizmente esse mesmo povo se deixa iludir ante a faustosa propaganda eleitoral, financiada pelas grandes empresas financeiras, comerciais, empreiteiras, assim como pelos latifundiários e empresas estrangeiras do agro-negócio. Nas eleições, vai atrás da cantilena de que é preciso votar no menos ruim, já que fica difícil escolher entre os mais sérios, entre aqueles que não se submetem às chantagens e à corrupção do poder econômico.

Sem dúvidas, e isto é positivo, há uma crescente, não apenas indignação mas também disposição para a mobilização em protesto contra tantos desmandos. Muita gente, felizmente, já abriu os olhos e quer muito mais: quer mudanças radicais na estrutura política, econômica e social deste país. A cada dia que passa um número maior de brasileiros/as defendem a instituição do Poder Popular, passando as decisões que mais importam à nação e ao povo todo - assim como a fiscalização dos três Poderes - para as mãos do povo, este sim o único e legítimo dono do poder. É preciso devolver ao povo o poder que lhes foi surrupiado por aqueles que deveriam estar ao seu serviço, e não se dele servindo.

Tendo galgado os altos espaços do poder, passam a crer que tudo podem, que devem tirar proveito de tudo em causa própria ou de seus grupos, crêem que estarão impunes eternamente, não acreditando que o povo possa, algum dia, se revoltar e agir para acabar com tantos crimes. Cremos que a retomada dos movimentos sociais, recém-iniciada, em busca de profundas mudanças estruturais irá se radicalizar, pois não se agüenta tanta baixaria seja do Congresso Nacional, seja da presidência da República, seja ainda do Poder Judiciário, envolvidos em alta corrupção, e muitos envolvidos em verdadeira traição nacional.

 

Enquanto o povo pede seu espaço decisório, deputados e senadores se propõem mudar tão somente o verniz da nossa apodrecida estrutura política, mudando apenas pequenas regras eleitorais, que em nada mudarão a situação de descalabro que impera hoje, mas que lhes garantirão desfrutar das mamatas deslavadas que instituíram. Por isso a CNBB insiste em que se regulamente o Art. 14 da Constituição, pois ele prevê a participação popular nas decisões importantes para a nação. É preciso que se vá além, que se exija também o poder de escolher, fiscalizar e, se for o caso, de cassar os membros dos três Poderes, através da sociedade organizada.

Endossamos o estímulo da comissão representativa da CNBB a que os cristãos e todos de boa vontade se engajem no mundo da política. É preciso, porém, ir mais longe: esse engajamento político deve começar em sua dimensão de mobilização popular organizada, já que a instituição partidária também está superada, pois nas manifestações públicas reside a principal força de um povo. Teremos maior e melhor resultado desse estímulo se o conjunto dos bispos, padres, religiosos e religiosas dedicarem parte de sua ação apostólica orientada por esses parâmetros, ajudando a que os cristãos não fiquem internados em suas comunidades, que tenham a ousadia de se tornarem fermento, sal e luz com sua presença e ação junto às lutas do povo.

 

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

 

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