Lula e a Operação Xeque Mate: primeiras impressões

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Poucas horas após a Operação Xeque Mate ter dado uma “batida” na casa de um dos irmãos do presidente da República, este colunista escreveu no blog Entrelinhas um comentário sobre as reações dos jornalistas que vocalizam as forças de direita no país. No primeiro momento, o pessoal dizia que a Polícia Federal estava agindo para beneficiar o presidente Lula, porque ele poderia dizer que, em seu governo, até seus familiares podem ser investigados, coisa que jamais ocorreu antes na história do país.

 

A bem da verdade e à luz dos acontecimentos posteriores, este argumento não se sustenta, embora de fato no imaginário da população mais humilde a investigação sobre o irmão do presidente acabe “pegando bem” para Lula.

 

O presidente não gostou nada da idéia de ter um irmão na mira dos federais, mas também não colocou nenhum obstáculo para a Operação. Quem conhece a família Inácio da Silva mais de perto diz que Genival, o Vavá, irmão que está sendo investigado, é um simplório e jamais poderia ser um “lobista” ou coisa do gênero. Não obstante, é bem possível que Vavá tenha tentado usar o prestígio do irmão-presidente, conforme indicariam as supostas gravações em poder da PF.

 

Em 2005, a revista Veja “denunciou” em uma extensa reportagem o "tráfico de influência" de Vavá. Bem lida, a matéria é quase um atestado de inocência para o irmão de Lula – seria o primeiro caso de "traficante" que nem secretária tinha, "operando" em uma saleta com fax (sim, fax, conforme a foto que ilustrava a matéria) e telefone. Em suma, Vavá pode até ser um "irmão-problema", mas certamente não dá para comparar nem de longe a sua atuação com a de, por exemplo, um Paulo Henrique Cardoso, filho do ex-presidente de triste memória. Tráfico de influência, como se sabe, é coisa para profissionais.

 

Dito tudo isto, há alguns detalhes na Operação Xeque Mate que podem ter irritado muito mais o presidente Lula do que a ofensiva contra seu irmão. Foram presos na ação da Polícia Federal duas pessoas que talvez possam aborrecer bem mais o chefe da Nação: Dario Morelli Filho e Nilton Cezar Servo. Dario já foi uma espécie de faz-tudo de Lula e Servo é um empresário do ramo de jogos que gosta de dizer que é amigão do presidente. É preciso ir devagar com o andor, porque muita gente se acha muito mais amiga dos poderosos do que de fato é, mas ainda que Morelli e Servo sejam dois “gargantas”, do ponto de vista do que fez a Polícia Federal, não deixa de ser uma provocação ao presidente.

 

 PF “balcanizada” 

 

Por outro lado, os jornalistas direitosos já criaram uma teoria a respeito da Polícia Federal: dizem que ela está "balcanizada", isto é, vive uma guerra interna, com várias "facções" em disputa pelo comando da corporação. Seria então esta a razão do indiciamento de Vavá e da Operação Xeque Mate como um todo – no meio da guerra, uma das facções resolveu dar uma espécie de recado ao presidente. Ainda seguindo este mesmo raciocínio, o governo teria "perdido o controle" sobre a Polícia Federal, o que representaria um "grande perigo" para a democracia nacional.

 

Há alguns problemas, digamos assim, estruturais, nesta versão. Em primeiro lugar, é verdade que a Polícia Federal está dividida em grupos que disputam o poder na corporação? Sim, é verdade. Isto é uma novidade do governo Lula? Em absoluto, basta lembrar as disputas entre Vicente Chelotti, o "rei do grampo", e o general Alberto Cardoso, chefe do gabinete Militar da Presidência da República, que inclusive extrapolavam o âmbito da PF durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Se alguém perdeu o comando da Polícia Federal, este alguém foi o ex-presidente tucano, que legou ao ex-ministro Márcio Thomaz Bastos a tarefa de juntar os cacos da incompetência dos vários ministros que passaram pela pasta da Justiça nos 8 anos de mandarinato cardosiano.

 

O segundo problema da versão direitista está na concepção de que a PF “sem comando” pode ser um "grande perigo" para a sociedade. Há uma contradição aqui, porque a tese corrente é a de que o governo Lula teria "aparelhado" a Polícia Federal, recheando a corporação de arapongas petistas, os tais "aloprados". Se aparelhou, então por que perdeu o comando? Não faz sentido. De fato, a Polícia Federal não pode nem deve ser braço de partido ou do governo. Tem de fazer o seu trabalho e precisa de recursos e de independência para tanto.

 

Há quem veja "ameaças" do presidente Lula quando ele diz que a PF vai fazer o seu trabalho sem se importar com o nome e sobrenome dos investigados. Bobagem: como afirma o próprio Lula, quem anda na linha não tem o que temer. Quando alguém reclama do "Estado policialesco", podem ter certeza, está fazendo favor para bandido – há os que o fazem mediante boa remuneração e há os que se deixam levar pela inocência do argumento. Na soma, ambos causam mais mal à democracia do que os supostos exageros da Polícia Federal.

 

 Neste momento, é preciso juntar mais elementos para uma análise correta do que está acontecendo na Polícia Federal. Nos últimos 4 anos, os federais já realizaram mais de 400 operações e prenderam mais de duas mil pessoas. Não é pouca coisa. Hoje, eles estão a reivindicar reajuste salarial e aguardam a decisão final sobre o comandante da corporação – o ministro da Justiça, Tarso Genro, correu para dizer que Paulo Lacerda permanece no cargo, mas o ruído em torno de uma eventual substituição persiste e provavelmente acirra as disputas internas. Dentro de mais alguns dias, com a definição do reajuste salarial e do comando da Polícia Federal, essas duas variáveis poderão ser isoladas e só então será possível fazer uma avaliação mais concreta sobre as motivações da Operação Xeque Mate. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, já dizia o velho ditado.

 

 O "crime" de Vavá  

 

A Polícia Federal já esclareceu do que é acusado Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão do presidente Lula que está sob investigação. Está na matéria da Folha de São Paulo de quinta-feira, 07 de junho: Vavá receberia entre R$ 2 mil a R$ 3 mil de Nilton Cézar Servo prometendo benefícios para empresários do ramo de jogos. Este colunista já tinha adiantado que, se tudo que a PF tem contra o presidente Lula são os "crimes" de Vavá, a cartucheira está mesmo vazia, porque este irmão de Lula é um simplório e no máximo estaria envolvido com alguma bobagem. Não deu outra. O tal "crime" de Vavá tem mais cara de "mesada" do amigo Nilton Cézar do que qualquer outra coisa. O próprio Lula havia dito que seu irmão "não tem cabeça" para fazer lobby, o que a PF está confirmando.


É chato para o presidente que seu irmão receba uns trocados de um empresário de jogos, dono de casas de bingo? É chato, mas absolutamente não é ilegal. O fato de Vavá não conseguir "entregar a mercadoria", isto é, obter os benefícios prometidos aos empresários, confirma que o presidente Lula não tem mesmo nada a ver com o pato, isto é, com Vavá.

 

 

Luiz Antônio Magalhães é editor de Política do DCI e editor-assistente do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br).

 

Blog do autor: www.blogentrelinhas.blogspot.com

 

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