Correio da Cidadania

Encontros que deixam marcas. Um relato sobre o ato da Maré

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Um pouco mais recuperada do choque que tive ao acompanhar o ato da população “em favor da vida”, na Maré, em mais uma missão pela Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, eis que me sinto no dever cidadão de contar o que testemunhei. Estou transbordando coisas que não cabem mais em mim.


Demorei a escrever tentando, primeiro, me acalmar, mas só agora estou consciente e tenho uma pequena dimensão da nossa realidade de guerra.


Contudo, queria dizer que me deixa um pouco envergonhada escrever sobre o que vi, já que minha mediocridade da zona sul é mantida às custas do sangue do povo que vive nas favelas. Sou ridiculamente ignorante sobre a realidade. Vi isso ao me deparar com a guerra de verdade na mesma cidade (?) onde moro.

 

É até ridículo falar que conheço a realidade do local, porque, apesar de trabalhar com Direitos Humanos, me deparei com a realidade de que não tenho noção do que acontece nos bastidores do poder para que se mantenha aquele cenário. Eu só acompanhei três horas do terror de uma ocupação militar, chamada de "pacificação", que já dura 11 meses, com o risco de ser prorrogada.


Ao chegar ao local de concentração do ato, em uma das entradas do complexo da Maré, por volta das 18 horas, vi muitos profissionais de mídia independente, mídia corporativa, advogados, vereadores e ativistas que foram apoiar a manifestação, na tentativa de garantir que ela fosse respeitada pelas autoridades.


Já senti uma tensão inicial: muitos carros da PM, tanques do exército, muitos oficiais da PM a nossa volta tirando fotos e filmando todos que ali estavam.


Em meio a este jogo de paixões e incertezas, típicos de uma guerra, vi uma tentativa doce e corajosa, onde cerca de 130.000 pessoas tentam levar uma vida "normal". Uma tentativa corajosa de ir e vir, de sair de casa, de tomar uma cerveja no bar, de pegar um moto-táxi, enfim, uma tentativa absolutamente corajosa de viver e ser feliz em meio a uma contradição.


Por volta das 19 horas, o ato sai em marcha, com cerca de 700 cidadãos, pelo direito de viver. Fui acompanhando o ato e fechamos uma pista da Avenida Brasil, com faixas, cartazes, lágrimas e gritos que expressavam a dor de muitas mães que tiveram seus filhos mortos pela guerra.


Fomos em direção à linha amarela, ato pacífico, bonito, emocionado, forte e o clima muito tenso.
Chegando na Linha Amarela, houve uma tentativa de se fechar as pistas nos dois sentidos, mas foi imediatamente reprimida pelos militares com uma rajada de spray de pimenta que já tirou quase metade das pessoas das ruas.


O ato segue mais uns 200 metros e, ao passar em frente a uma passarela, perto de outra entrada que dá acesso ao complexo, vejo uma barricada com MENINOS do exército atentos para o combate a qualquer momento. Eles estavam estrategicamente posicionados perto de uma árvore, de forma que os carros que passavam pela via não pudessem vê-los.


Vou seguindo o ato, atrás, com alguns companheiros. Mais um pouco e escuto um tiro. Era um policial militar que tinha dado um tiro para cima. Outro tanto que estava na manifestação dispersou.


Boa parte seguiu corajosamente pela Linha Amarela, mas agora não tinha saída. Com medo de ficar encurralada, eu e meus companheiros voltamos e nos aproximamos da PM e das barricadas com os MENINOS do exército.


Eles também pareciam estar com medo. Ao mesmo tempo em que pareciam estar temendo de alguma forma pela nossa segurança ali. Realmente, eu não os vi como homens maus com prazer de matar. Vi pessoas tensas, estressadas, assustadas, apreensivas e com uma arma na mão.


Dava mesmo para sentir a tensão de todos os lados: dos policiais, da população, dos motoristas parados na linha amarela, minha, dos meus companheiros, da imprensa, enfim, todos ali tinham a sensação de que qualquer coisa podia acontecer.


Sem saber o que fazer, se ficava, se voltava, ou se ia atrás de outros companheiros que acompanharam o ato, vi o céu ficando vermelho. Vários tiros, traçantes cruzavam o céu mais ou menos em nossa direção.


Eu, estática, sem saber o que fazer, ouvia gritos dos policiais e dos militares do exército: “deitem no chão” e outro “encoste na parede”. Um senhor, morador da região, passava ao meu lado como se aquilo fosse apenas uns fogos de artifício e dizia, calmamente: “ vai por aqui que não tem perigo”. Então, fiz o que ele me falou.


Seguimos atônitos para o ponto de concentração, certos de nossa mais absoluta insignificância diante da guerra, muito preocupados com as pessoas que foram acompanhando o ato até o batalhão.


Recebíamos mensagens dos companheiros dizendo que a policia militar estava dando tiros de metralhadora para cima, que estavam com medo, que a polícia estava soltando muitas bombas.

 

Ficamos no posto de gasolina esperando notícias e, literalmente, administrando vários sentimentos de uma só vez: o medo, a indignação, a raiva, a impotência, a solidariedade etc. A única certeza que tínhamos era que nada daquilo ali fazia sentido algum, que aquela não podia ser uma realidade para ninguém.


Os cidadãos que habitam as favelas do Rio convivem com isso todos os dias. Por que alguém acharia que eles não teriam coragem de seguir no ato até o final? O que mais eles poderiam perder?

Os cidadãos das favelas sabem que não é preciso apenas coragem, é preciso ter instinto de sobrevivência para chamar a atenção da sociedade sobre a guerra que acontece nas nossas barbas, chamar a atenção da sociedade sobre o fato de que eles também têm o direito de viver. Ou isso, ou aceitar a morte! A morte é seletiva, só eles morrem. Por isso talvez eu tenha tido coragem de ir até um certo ponto, mas talvez não tenha tido o instinto, porque no meu mundo da fantasia as balas são de borracha.


A brava revolta dos cidadãos que habitam as favelas se canaliza, inevitavelmente, contra aqueles que sujam as mãos de sangue, todos os dias, mas os verdadeiros culpados não são os que apertam o gatilho. Uma sucessão de erros!

 

Uma hipocrisia colocar pessoas pobres para matar pessoas pobres e fazer com que todos acreditem que isso é um problema individual do policial “mau” ou do policial “bom”, só para desviar o foco do verdadeiro problema estrutural, ao qual serve esse tipo de política de segurança pública.


Enquanto isso, deixamos que os verdadeiros articuladores da guerra sejam considerados vítimas de um suposto “golpe”.


Quem é o inimigo? A guerra é de quem contra quem?


A guerra é do governo (municipal, estadual e Federal) contra a população pobre.


A guerra em nome da manutenção da política de proibição às drogas na nossa cidade mata e tortura mais que todos os casos de morte por overdose no mundo, somados.


Volto, então, ao local de onde saímos e vejo um desfile de tanques, uns seis passando em fila, de um beco para o outro.


A esta altura estávamos procurando o carro que foi estacionado pelo Alexandre Mendes em algum lugar que ele já não lembrava mais.


Eis que estávamos perdidos e andando no cenário mais estranho que já tinha visto: de um lado bares e restaurantes abertos, com música ao vivo e, de outro, tanques de guerra. Fomos salvos pelo registro do local do estacionamento no GPS.


Então, de repente, uma pessoa grita dentro de uma casa e corre para a rua. Nos assustamos, mas dessa vez era uma lagartixa. Tudo, enfim, parece normal.


Nós que temos a sorte de não termos de ficar lá, voltamos para o mundo da fantasia da zona sul. Porém, não sou a mesma pessoa de antes.


Já os cidadãos da Maré continuam lá, lutando pelo direito de existir.

 

 

Priscila Pedrosa Prisco é advogada da comissão de direitos humanos da OAB-RJ, professora da UFF e mestranda na mesma instituição.

Retirado da página do Círculo de Cidadania.

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