A sucessão presidencial dentro do jogo de poder – por um fio de esperança

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É preciso deixar claro desde logo que o resultado do primeiro turno das eleições gerais para o Congresso antecipou um quadro de maior fragmentação partidária na Câmara e no Senado, impondo ônus ainda mais elevado à governabilidade nos termos do Presidencialismo de Coalizão.

Por outro lado, a onda do primeiro turno da sucessão presidencial, aponta para um candidato notoriamente sem compromisso com a democracia, a ordem constitucional e até mesmo a uma convivência social civilizada. As causas de tudo isto ainda clamam por explicação, mas não são objeto do artigo.

É nesse contexto eleitoral que se movem os protagonistas do poder na chamada economia política dominante, com seu tripé: sistema financeiro, economia do agronegócio e mídias corporativas, que apostam ganhar de qualquer forma, obviamente sob obsequiosas ações e omissões de um Poder Judiciário servil.

Para tal, desenvolvem duas estratégias complementares: 1) de apoio tácito ou ostensivo ao candidato da extrema direita; 2) pela pressão tácita ou ostensiva para que o candidato do campo democrático – Fernando Haddad - se distancie de compromissos democráticos à esquerda, ou de quaisquer veleidades a um governo de mudanças significativas do jogo de privilégios que beneficia o referido tripé às custas do interesse público.

A onda do ‘novo fascismo’, que ao inverso do antigo nada tem de nacionalista, deixa um resquício de incerteza aos donos do poder, possivelmente pelas lições da história. Daí o motivo de uma certa dúvida no campo conservador à sua completa adesão ao candidato da extrema-direita, mesmo estando ele tão próximo da conquista eleitoral. Por esta razão, flertam com o campo democrático, desde que previamente cooptado.

Mas não nos iludamos, a eleição presidencial atual não nos deixaria iguais às eleições anteriores, quaisquer que sejam os seus resultados. Em caso de vitória da extrema-direita, vale a advertência de Dante às portas do inferno: “Aqueles que aqui ingressarem, percam toda esperança”.
 
A vitória do campo democrático, por sua vez, para se sustentar, precisa romper com os limites da economia política dos donos do poder. Precisa obviamente mudar significativamente de rumos e romper com os grilhões que nos aprisionam às oligarquias e levam ao seu jogo de cartas marcadas.

O preço da omissão, conciliação, coalizão ou o nome que se queira dar ao imobilismo no enfrentamento aos privilégios da riqueza e do poder preestabelecidos seriam fatais aos interesses populares e nacionais.

Por tudo que aqui se coloca, não se pode brincar com as esperanças legítimas à beira do caos.

Os profetas da tradição bíblica são profetas da esperança, que não se furtam a denunciar os ídolos e idolatrias de toda a espécie, mesmo quando esses ídolos estão ou vão para o poder.

Os verdadeiros profetas do século 21 não podem abandonar a esperança, desanimar perante os desatinos da besta e tampouco ceder à tentação dos ídolos, quando a esperança se expressa por uma tênue réstia de luz.

O dia seguinte da eleição presidencial de segundo turno nos aguarda. E em quaisquer das circunstâncias eleitorais, teremos que nos preparar para nova tarefa histórica de construção da esperança, cujo adversário maior provavelmente nem seja a besta com seu número eleitoral conhecido, mas a idolatria ao capital e ao dinheiro, expressa aqui entre nós pelo tripé desregulado – sistema financeiro, economia do agronegócio e mídias corporativas.

Guilherme Costa Delgado

Doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Guilherme Costa Delgado

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