2018 e o pênalti que não voltou

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2017 chegou ao seu fim, mas o Brasil permanece mergulhado em profunda crise. A política nacional foi marcada pela “farra do ajuste”. Limitação de gastos públicos, inclusive pra saúde, educação, moradia e saneamento (este, agora em plena temporada de Aedes Aegypti). Afinal, pra que “gastar”, não é? Também tivemos a discussão da reforma previdenciária que nos fará trabalhar muito mais tempo antes de conseguirmos a aposentadoria. E pra fechar a lista dos grandes ajustes, a reforma trabalhista, que prevalecendo o negociado sobre o legislado, já gerou cenas lamentáveis como uma rede de supermercados no centro-oeste que obrigou suas funcionárias a usarem fraldas devido à menstruação, para otimizar o tempo de trabalho – e elas não podem sequer reclamar, senão é rua. Só para ilustrar, pois a lista de absurdos relatados na imprensa e nas redes sociais é imensa.

Pois bem, vieram o Natal, a virada do ano e é natural que as pessoas busquem esperanças e luzes nos fins dos túneis. E, justamente neste 2018, temos uma eleição nacional marcada. Presidentes, governadores, senadores e deputados serão eleitos.

Nessa brincadeira, já vimos em 2017 o prefeito de São Paulo, João Dória, passando mais tempo em viagens pelo Brasil do que em sua cidade – o que seria uma baita sorte dos paulistanos não fosse o estrago que ele proporciona à cidade quando nela se encontra. Neste Natal não foi diferente, distribuiu balas de borracha, cacetadas e bombas para os moradores de rua da região da Luz. Enquanto isso, Alckmin, com sua “esquerda pra valer” e discurso humanitário que não condiz com, por exemplo, o que aconteceu no Pinheirinho em 2012 (novamente, para ilustrar, pois a lista é grande), posa de “sensato” e vai se beneficiando da mesquinhez do colega de partido.

Pois bem, é o circo armado. Até Ciro Gomes, outrora um privatizador de carteirinha, hoje se faz de esquerdista e conquista a simpatia dos canhotos descontentes com o PT ou vinculados a outras correntes. Pra não falar do vilão favorito, Bolsonaro, maior cabo eleitoral dos outros candidatos e muitas vezes retroalimentado por suas campanhas e militâncias em redes sociais.

O PT já rascunha uma nova Carta aos Brasileiros e, enquanto greves contra reformas neoliberais são canceladas por cima, o Departamento de Marketing do partido torce com fervor para que a rejeição a Temer continue esmagadora e as pessoas esqueçam com quem Lula jantou por longos 14 anos na mesma mesa. Aliás, ainda janta, com muitos “perdões aos golpistas”.

Ainda em dezembro, Lula disse, após se reunir com empresários, que não quer se candidatar se for condenado pelo processo do tríplex. Deu na imprensa. Mais ou menos uns dez dias depois, ele esteve em Guararema, na Escola Nacional Florestan Fernandez, do MST, para inaugurar o campo de futebol do movimento que leva em o nome de Doutor Sócrates. Com a mesma chuteira usada numa pelada de 13 anos atrás, Lula jogou bola. Teve até jornalista afirmando que esta chuteira é a prova que Lula jamais se beneficiou financeiramente do povo brasileiro, afinal, ele usa uma chuteira velha.

Vamos ao jogo: o time de Lula teve um pênalti a seu favor. Ele mesmo foi pra cobrança. Errou. Mas o juiz mandou voltar. E assim saiu o primeiro gol oficial do campo Sócrates Brasileiro.

É marmelada! – diriam aqueles que “fazem o jogo da direita”. Mas o jogo da esquerda não parece fazer muito sentido. Não que o da direita faça, mas a direita ao menos é sincera ao dizer que não se importa com os camponeses pobres, com os indígenas e povos originários e toda a massa de trabalhadores e povos do campo e da cidade. Vale lembrar que durante os 14 anos de “progressismo” no Brasil, a reforma agrária não avançou em absolutamente nada.

Pudera.

O agronegócio andou de mãos dadas com Lula e Dilma por todos esses anos. O progressismo brasileiro surfou na onda das altas das commodities e incentivou e fortaleceu o agronegócio como “nunca antes nesse país”. Exatamente, nem os milicos! O período de Dilma foi o de menos terras indígenas demarcadas. Do outo lado, o agronegócio chegou a tomar para si alguns bons hectares de terras indígenas na base da grilagem com o absoluto silêncio do governo federal.

“No final das contas o milagre lulista – e também dos progressismos em geral – foi melhorar a situação dos pobres sem fazer reformas estruturais. Portanto, quando se termina o ciclo dos altos preços das commodities, não sobra nenhuma margem para melhorar a situação dos pobres, senão tocar a riqueza. E esse passo o lulismo não se atreveu a dar no Brasil, e nem o kirchnerismo na Argentina. Entre outras coisas, afetaria diretamente os interesses do agronegócio e vale lembrar que este setor do grande capital integrou o governo Dilma até o seu último minuto – o que indica que existe uma aposta de aprofundar o modelo extrativista independentemente do presidente que sente na cadeira. Tudo sem tocar a riqueza e os interesses das elites, é claro”, afirmou Raul Zibechi na entrevista que encabeça esta Edição Prospectiva do Correio da Cidadania.

São as reformas estruturais – e cadê elas? Cadê a democratização dos meios de comunicação? De tanto tomar cafezinhos com a Globo, a emissora cumpriu um importante papel na derrubada de Dilma. Caindo Dilma, caíram também os financiamentos aos “blogueiros progressistas”, mas nada de estrutural em termos de mídia alternativa foi feito. Inclusive, foi acatada a demanda da Globo de barrar a entrada da TeleSur no país. Equivalências podem ser ditas sobre Temer e o PMDB em relação à reforma política que outrora foi um projeto sério, como também sobre os affairs com o agronegócio e a não reforma agrária.

Mas a pergunta que fica é: o que quer o maior movimento social da América Latina? Eleger Lula presidente ou fazer a reforma agrária? Já sabemos, por experiência histórica, que as duas coisas ao mesmo tempo não vão acontecer. Reforma agrária e agrobusiness não andam juntos.

Ou ainda, o que querem os setores populares brasileiros? Empreender desde já uma mobilização e luta que vão de encontro ao pacote de reformas do Temer ou esperar mais um ano, a posse do próximo presidente da República, para começar a se mexer, independentemente da vitória ou derrota do seu candidato de preferência?

Têm coisas que vão além do dia da eleição e do “centralismo democrático” dos dirigentes partidários e seus departamentos de marketing. Entender esses limites é o principal desafio coletivo para 2018.


Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.

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