Brasil-Estados Unidos: o desprestígio do Planalto diante da Casa Branca

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Em momento de crise singular, em que a oposição não consegue formular projeto alternativo viável para o país, mas apenas evocar de maneira romântica o passado recente para servir de ocasional referência ao futuro, o governo de Michel Miguel Temer prolonga sua agonia – e a da população - à custa de contínua redução de sua constituição física, ao anunciar rodada de privatizações como forma natural de sobrevivência temporária. Na proposta de desestatização, inclui-se do setor estratégico do desenvolvimento nacional a Eletrobrás.

Muito esquálido, o Planalto sobrevive graças à apatia da sociedade e à indiferença de parte da oposição quanto ao destino imediato do Brasil, vez que sua atenção se orienta pelo processo sucessório de 2018, não pelas necessidades prementes do povo.

Deste modo, tolera-se a continuidade da atual administração, mesmo rejeitada pela maioria maciça do eleitorado, até em decorrência da descortinada aliança em vários estados entre destituídos, ou seja, trabalhistas e afastadores, isto é, peemedebistas – só em um país de robusta tradição barroca esse tipo de parceria seria proposto e, mais lamentável, aceito por filiados de agremiação autointitulada de esquerda.   

Em 2012, o debate sobre a produção energética era outro. Referia-se ao Brasil e Estados Unidos, ao ter por marco a associação no segmento petrolífero e no biocombustível. No entanto, seria um relacionamento entre atores distintos: o privado norte-americano e o estatal pátrio, escorado na mercadológica – e bastante ilusória - posição de ser considerada a sexta economia global, logo acima da britânica. Naquele período, Brasília avaliava-se em patamar similar ao de Pequim e de Nova Déli, membros do acrônimo BRICS.

No primeiro tópico, o entrelace seria na área do chamado pré-sal, em fase incipiente de exploração, região na qual a Petrobrás tinha participação importante; no outro, o convívio seria mais avançado, ao vincular-se à eventual distribuição do produto derivado da cana de açúcar no mercado do norte.

Em abril daquele ano, a presidente Dilma Rousseff fez uma viagem com a duração de meros dois dias ao território estadunidense – duas cidades contempladas, Boston e Washington. De forma inaudita, ela intentou prestigiar o setor de ensino superior de lá, ao rumar para Harvard, decana das instituições locais, e ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Em país continuamente carente de prestígio à educação em geral, a visita da delegação presidencial deveria ter despertado o desejo de melhorar as instituições nacionais, não o de deslumbrar-se com as do exterior, ao valorizar sobremodo o denominado Ciência sem Fronteiras, projeto destinado em sua maioria a estudantes da graduação.

A inclusão de professores com o propósito de aperfeiçoá-los em setores menos desenvolvidos em solo brasileiro ou o trazimento de instrutores estrangeiros para o país com a finalidade de melhorar programas de (pós) graduação, de acordo com o projeto das universidades, teria sido de maior proveito para o progresso da sociedade.

Malgrado a expectativa, Washington desvalorizou a presença da dirigente brasileira em seu território, ao não conceder o caráter de visita de Estado. Não seria demonstração de insatisfação pela Casa Branca, porém de reconhecimento do peso real do Planalto naquela altura, apesar, como mencionado, da propaganda da autoexaltação econômica.

Acompanhe os demais artigos do autor sobre a relação Brasil-EUA

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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