Kosovo: um livro brutalmente honesto
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Por Osvaldo Coggiola
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Andrés Calamaro, ícone do rock argentino, acaba de lançar um disco chamado Honestidade Brutal: esse seria, também, o conceito que melhor conviria a um comentário de Kosovo, a guerra dos covardes (São Paulo, DBA, 223 páginas), o livro do jovem repórter Kennedy Alencar, que cobriu a mais recente guerra nos Bálcãs. Relatando, com palavras e imagens, o que viu, ouviu e sentiu, sem nos poupar dos detalhes mais violentos e horríveis, o autor consegue destruir todos os mitos ("guerra humanitária", "operação cirúrgica") martelados durante um conflito que ainda não acabou.

Kennedy confessa, de saída, que quando foi cobrir a guerra ainda acreditava no "direito moral" da Otan de intervir contra a "limpeza étnica" levada adiante pelo exército sérvio contra os kosovares de origem albanesa (a grande maioria dos kosovares). E reconhece, com brutal honestidade, que a operação "humanitária" resultou em outra "limpeza étnica", de signo oposto, coberta... pela própria Otan. Nesta guerra sem mocinhos, portanto, as causas profundas não se encontram no campo da moral.

Onde estão, então? O risco dos livros-reportagem, é bem sabido, consiste em que o imediatismo espetacular dos fatos (e, no caso, também das fotos) sirva para esconder as causas histórico-políticas profundas. A literatura e a iconografia sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, parecem obedecer à seguinte lei: quanto mais recheada de relatos de heroísmo, ou de horror, quanto melhor ilustrada, mais ocultas as razões profundas do conflito, geralmente confinadas a um par de banalidades acerca do conflito entre "totalitarismo" e "democracia", que constituem o substrato da ideologia (mitologia) contemporânea, muito mais forte do que a mitologia antiga, porque laica e aparentemente "racional".

Kennedy atacou de frente este problema. Os relatos e depoimentos são ilustrados e entremeados por informações históricas acerca do povoamento dos Bálcãs, do papel de Kosovo na formação da nacionalidade sérvia e de seu valor simbólico atual, da passagem da Iugoslávia dinástica do Tratado de Versalhes à Iugoslávia socialista de Tito e da progressiva decomposicão desta a partir de 1989, quando o ex-"comunista" Milosevic decidiu tirar de vez o demônio nacionalista da garrafa. Tudo o que se poderia criticar aqui é o fato de Kennedy ter ficado só no primeiro patamar desse pano-de-fundo histórico.

De fato, o aparecimento de forças centrífugo-nacionalistas não foi um fato exclusivo da Iugoslávia, mas um fenômeno geral no ex-"campo socialista" (especialmente na ex-URSS). Fenômeno ao qual não foi alheia a política das grandes potências, tema que Kennedy apenas cita ao mencionar o papel da Alemanha como encorajadora do separatismo esloveno e croata em 1991 (enquanto os EUA apostavam, ainda, numa Iugoslávia reunificada como uma "Grande Sérvia", por obra e graça do mesmo Slobodan Milosevic, depois tornado vilão, assim como acontecera com Saddam Hussein, ex-agente da política americana no Golfo Pérsico em tempos de "revolução islâmica"). Fugir do "conspirativismo" (das grandes potências) não significa cair no extremo oposto, do qual Kennedy chega mais do que perto quando conclui que "a Otan subestimou o ditador iugoslavo e não previu o acirramento da política de limpeza étnica (depois do início dos ataques aéreos)" (p.139): bem...

No contexto geral do livro, esses problemas são, porém, secundários. A descrição do cotidiano da guerra, os relatos e as opiniões colhidas in situ constituem um material histórico (e político!) de valor inestimável, e também único, pois só podiam ser obtidas naquela hora, naquele lugar, e quem duvida que era necessária uma boa dose de coragem para estar nesse lugar, nessa hora? As famílias divididas pelas opiniões, o medo da espionagem e da delação, a vontade de depor apesar desse risco, a real oposição do povo sérvio à intervenção da Otan (inclusive daqueles que se opunham a Milosevic), os massacres provocados pelos bombardeios, chamados de "erros" ou " danos colaterais", o drama do(s) povo(s) sem alternativas, dependentes por inteiro de decisões tomadas por cima deles, sem possibilidades imediatas de pressão ou de controle, a desmoralização de uma juventude que luta para ficar e que sonha em fugir para o estrangeiro...

O outro lado da " globalização", em suma. Os mitos caem um a um: "Até meus 26, 27 anos, eu não sabia o que era racismo!", diz um sérvio: o decantado papel do "ódio ancestral" dos povos balcânicos fica reduzido à sua verdadeira dimensão, não maior, talvez até menor, da que existe no Brasil entre sulistas e nordestinos, ou na América do Sul entre chilenos (ou brasileiros) e argentinos —o tempo histórico a mais que aqueles tiveram para se odiar, também o tiveram para se compreender. O racismo e a rivalidade étnica não são uma pulsão animal sobrevivente na natureza, mas uma criação histórica e, eventualmente, política.

Kennedy não o diz, mas o deixa transparecer: a riqueza do seu contato direto com o cotidiano do país em guerra também deve muito ao fato de ser brasileiro (ou latino-americano). No mundo da mídia internacional também há cidadãos de primeira e segunda classe. À grande imprensa do "Primeiro Mundo" estão garantidos os "lugares reservados" nos hotéis, nas excursões ao teatro dos acontecimentos, nos meios de transmissão. Ela tem mais facilidade para chegar às versões "oficiais": aos brasileiros cabe o "jeitinho", baixar a guarda de soldados ou populares puxando conversa sobre Carnaval, Ronaldinho, Pelé (sei que os argentinos fazem o mesmo com Maradona e o tango). Por isso, dificilmente um repórter norte-americano ou europeu poderá escrever um livro como o de Kennedy —e essa talvez seja a nossa vantagem "global", a de sermos obrigados a situar no centro do fazer e do acontecer o drama dos "de baixo", onde outros só conseguem ter contato com as tribulações dos "de cima".

Kennedy só deixa um mito em pé: o do "ditador louco" (Milosevic). Que Milosevic seja um ditador, ninguém duvida. Quanto a louco, ninguém sabe, mas, de qualquer modo, introduzir a loucura de um indivíduo como fator de explicação histórica costuma ocultar mais do que esclarecer (recorrendo novamente à Segunda Guerra, a suposta loucura "expansionista" ou "homicida" de Hitler, real ou não, é um meio de obscurecimento dos processos históricos reais por trás da guerra e do Holocausto).

O repórter, isso é bom, se deixou envolver pelos fatos; a testemunha virou partícipe, a brutalidade da situação fez tocar e ultrapassar os limites da "objetividade" (jornalística ou qualquer outra): sem isso, não há sensibilidade, e sem sensibilidade, não há compreensão. Bem escrito e com ilustrações impressionantes, Kosovo, a guerra dos covardes é um livro imprescindível para compreender (a barbárie do) mundo em que vivemos.

Osvaldo Coggiola é professor de História Contemporânea da USP, autor de Imperialismo e Guerra na Iugoslávia (Editora Xamã, 1999) entre outros livros.

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