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Bispo de Porto Velho relata a violência de Hidelbrando Pascoal
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Por José Emanoel Virgino
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O Correio reproduz nesta edição uma entrevista originalmente publicada na edição de novembro da revista Família Cristã, com o atual arcebispo de Porto Velho (RO), dom Moacyr Grechi. À frente da diocese de Rio Branco (AC) por 26 anos (1973 a 1999), Grechi testemunhou crimes contra trabalhadores que se viram presos aos políticos e policiais corruptos. Recentemente, o prelado desfiou uma série de denúncias à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investiga o narcotráfico no país. As acusações colaboraram para a cassação do ex-deputado Hildebrando Pascoal, um chefão do tráfico de drogas na região amazônica, e ainda ajudaram a desbaratar uma quadrilha formada na maioria por ex-policiais militares. E é sobre violência que dom Moacyr Grechi fala na entrevista que segue.

Pergunta: O que o levou a fazer as denúncias que provocaram a cassação de Hildebrando Pascoal?

Dom Moacyr Grechi: É uma história tão longa quanto a minha permanência na Amazônia. No Acre, testemunhei muitos fatos absurdos, sofrimentos, medos. Escutei tantas confidências… Também os organismos da Igreja vinham coletando dados há anos pelos jornais, indo atrás de pessoas que aceitavam escrever. Então, juntamos tudo e mandamos os dossiês para o Ministério da Justiça e para a Procuradoria da Justiça. Denunciamos o esquadrão da morte e os abusos cometidos nos presídios locais, atos de uma violência absurda.

Pergunta: Há quanto tempo o senhor vinha tomando conhecimento desses atos?

Dom Moacyr Grechi: Tomei conhecimento dos fatos nos últimos anos. Eu creio que, de 1984 para cá, as coisas foram se deteriorando mais. Antes, elas já aconteciam, mas em proporção menor. A situação se tornou aguda com o último crime cometido pelo grupo do Hildebrando, que aconteceu devido a uma disputa entre traficantes ou por uma questão de presos a serem soltos. Ali, uma coisa é sempre muito ligada com a outra.

Pergunta: Como foi esse crime?

Dom Moacyr Grechi: Um cidadão matou um irmão do Hildebrando numa disputa e desencadeou uma onda de violência. O primo do Hildebrando, comandante da PM (Polícia Militar) e com quase 2 mil homens a seu serviço, comprou a briga, com muita sede de vingança. Tanta, que a polícia toda se mobilizou para pegar o assassino. A fim de obter informações sobre ele, os policiais quebravam os braços das pessoas e até mataram um garoto de 15 anos. Acabaram pegando o Baiano, um companheiro do assassino, mas que nada tinha a ver com o crime.

Pergunta: E o que fizeram com ele?

Dom Moacyr Grechi: Depois que mataram o Baiano, cerraram os braços, as pernas, puseram um prego na cabeça, esmagaram os testículos e jogaram o corpo diante da emissora de TV mais importante do Acre, a Gazeta. Todas as autoridades ligadas à segurança fizeram uma reunião para tomar medidas. Lá estavam o secretário de segurança pública, o comandante da PM, o corregedor da Justiça e o superintendente da Polícia Federal.

Pergunta: O que houve durante a reunião?

Dom Moacyr Grechi: Hildebrando entrou na sala e desafiou todos publicamente. Falou assim: "Eu vou matar o assassino de meu irmão. E quem se puser no meio morre também’’. As autoridades nada fizeram. Um desembargador disse-me o seguinte: "Hoje a sociedade do Acre é refém de bandidos. Não se pode fazer nada’’. Eu fui falar então com o comandante do Exército, que disse: "Estamos à mercê desses cidadãos. O Exército, pela Constituição, não pode interferir. E, se interferíssemos, perderíamos a batalha, porque a polícia é tão numerosa quanto nós, bem armada e treinada". O fato é que não tínhamos a quem recorrer. Brasília nada fazia. Até então, a Polícia Federal tinha mobilizado apenas uns 20 ou 30 homens.

Pergunta: A imprensa nunca noticiava essas coisas?

Dom Moacyr Grechi: Nunca. Ou então noticiava de maneira tal que não dava pistas. Havia um clima de muito medo. Ninguém abria a boca. Por isso, não me parecia oportuno tomar sozinho a frente da situação. Agora, quem teve mesmo muita coragem foi o desembargador Gersino Silva, que denunciou o esquadrão da morte e o possível envolvimento de Hildebrando. Mas aí ele começou a ser cassado. Iam ameaçá-lo de morte dentro do escritório dele. Ele vivia protegido. Mas as coisas foram clareando.

Pergunta: Como?

Dom Moacyr Grechi: O procurador da República, Luís Francisco de Sousa, tinha uma documentação muito grande e estava sempre cobrando as autoridades. Jorge Viana, um homem livre de ligação com esse esquadrão da morte, foi eleito o novo governador do Acre. Já o Hildebrando foi para a Câmara Federal. E ficava lá em Brasília e não mais por aqui, dominando. Então, em certo momento, a pedido de pessoas que achavam que eu devia falar, eu falei. Foi aí que resolvi me manifestar.

Pergunta: O senhor também teve um desempenho fundamental no episódio que culminou com a prisão dos assassinos de Chico Mendes, em 1988. Um dos papéis da Igreja seria mesmo o de denunciar os atentados cometidos contra a humanidade e apoiar os que lutam em defesa dela?

Dom Moacyr Grechi: Eu creio que a principal tarefa da Igreja é formar os seus cristãos. E nessa formação estão a palavra de Deus, a oração, os sacramentos, a solidariedade e a luta pela justiça. A Igreja do Acre, por exemplo, foi praticamente a mãe de todos os movimentos populares desse estado. Eu diria que só é cristão de verdade aquele que se empenha na luta pela justiça para os seus irmãos, pelo bem-estar do povo. Mas nós nunca devemos misturar as coisas, a comunidade com os partidos políticos.


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