Uma mulher chamada
Dorcelina de Olliveira Folador

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Por   Jorge Eremites de Oliveira
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Dorcelina O. Folador – Prefeita é o que está escrito em um cartão que recebi de uma das mais extraordinárias mulheres sul-matogrossenses que conheci. Lembro-me como se fosse hoje da inauguração do Museu Histórico de Mundo Novo, em novembro de 1998. Estava lá, a convite da prefeita e de sua assessoria de comunicação, juntamente com um amigo e colega de trabalho, o professor Cláudio Freire.

Na ocasião, Dorcelina discursou para centenas de pessoas sobre a importância de se preservar a memória dos pioneiros de Mundo Novo. Ela, que não possuía diploma universitário, falou de improviso sobre história e o fez com mais propriedade do que muitos historiadores que conheço. Pudera, não era uma pessoa de mera retórica; era autodidata, doutora pela Universidade da Vida, mulher de ação e luta em defesa dos direitos dos trabalhadores. Mais: Dorcelina era uma pessoa de origem humilde, uma deficiente física, sem-terra, educadora, socialista e, acima de tudo, mulher. Ainda era artista plástica, mãe e esposa. Só lhe faltava ser negra ou índia para que seu currículo ficasse completo, já que também era do PT, o partido mais odiado por grande parte das elites deste Estado.

Eram muitos os atributos que lhe renderam tantas discriminações. E foi preciso muita luta –mas muita luta mesmo!– para o governo municipal conseguir inaugurar o museu; os vereadores da oposição votaram contra o projeto, pois entenderam que o povo não precisava ter memória: "Quanto menos memória, menor a noção de cidadania!" —poderia ter pensado algum representante das elites locais.

Terminada a cerimônia de inauguração, reunimo-nos (eu, Cláudio Freire e Ribeiro Arce) com a prefeita. Antes, porém, ao adentrarmos no prédio da prefeitura, ela nos mostrou um elevador para deficientes físicos que foi construído em sua gestão. Dorcelina pensou em construí-lo para que todas as pessoas pudessem ter acesso à prefeitura e, é claro, à própria prefeita. A oposição mais uma vez tinha votado contra o projeto, ainda que um vereador tivesse um parente seu com deficiência física, a própria mãe (se não me falha a memória).

Depois, entramos no gabinete da prefeita. Ali, Dorcelina mostrou-nos um armário. Mas não era um armário qualquer; dentro dele havia, até pouco tempo, uma escada secreta que dava na garagem da prefeitura, local onde ficava o carro do prefeito. Era um esquema sórdido que alguns dos governantes anteriores usaram para fugir do povo e dos cobradores. Logo nos primeiros dias de seu governo, Dorcelina mandou retirar a tal escada secreta e a colocou exposta em praça pública.

As pessoas da cidade ficaram perplexas e não era por menos: parecia até coisa de filme de espionagem. Depois disso, tomamos um cafezinho em seu gabinete. Outra surpresa: não era cafezinho qualquer, era um café comprado com dinheiro da própria prefeita. Isto sim – avaliei na hora – é radicalizar na seriedade em tratar a máquina pública. Finalmente, fomos a uma churrascaria da cidade (cada um pagou sua própria conta). No trajeto, vi muitas obras que estavam sendo construídas com recursos municipais (e isto sem falar que a folha de pagamento do funcionalismo municipal estava em dia).

Foi então que, antes de almoçar, pedi ao garçom uma dose de cachaça. Após tomar o primeiro gole, passei o copo para três amigos que estavam sentados à mesa (Cláudio, Ribeiro e um segurança da prefeita). Fui deselegante: não ofereci a bebida à prefeita por imaginar que ela não apreciava uma boa aguardente de cana. Levei um pito: "Ô, companheiro, tá discriminando as mulheres?" – disse Dorcelina em tom de ironia. Confesso que fui pouco inteligente ao pensar que uma mulher como ela, que no dia anterior trabalhou com os operários na arrumação do museu para a inauguração, teria algum tipo de frescura nessas horas. Sem dúvida alguma, Dorcelina também era uma pessoa simples.

Com este depoimento, quero dizer que, em minha opinião, Dorcelina realmente era uma jovem mulher – tinha apenas 36 anos de idade – sonhadora e guerreira na defesa dos interesses dos trabalhadores; um exemplo a todos nós e às futuras gerações.

Mas hoje (31/10/99) pela manhã, quando preparava um churrasco para alguns amigos, como de costume, recebi a notícia de um colega: "A prefeita de Mundo Novo foi assassinada ontem à noite". Confesso que nos primeiros segundos não acreditei. Infelizmente a informação estava correta. Foi então que resolvi escrever este artigo.

No ano passado, ouvi da própria Dorcelina que ela constantemente recebia ameaças de morte. Eram tantas as ligações de ameaça que isto já fazia parte de seu cotidiano.

O assassinato, a tiros e pelas costas, de Dorcelina de Oliveira Folador foi claramente um crime político. Uma mulher como ela tinha muitos inimigos políticos. Não por menos: realizar um governo radicalmente democrático e popular incomoda muita gente. Deixo aqui algumas perguntas: quais de seus inimigos estão por trás do crime?; quem lucrará com sua morte, já que a reeleição de Dorcelina era praticamente certa?; quem estava sendo prejudicado com seu governo (contrabandistas, corruptos, "mafiosos", traficantes...)?; há policiais estaduais envolvidos no crime? Estes questionamentos não são só meus; também estão sendo feitos pela imprensa nacional e pela população sul-matogrossense.

Mato Grosso do Sul precisa deixar de ser um Estado marcado pela pistolagem. Aqui há até pessoas que tratam pistoleiro como se ele fosse alguma autoridade pública. Pistoleiro é sempre um covarde que, no mínimo, merece prisão perpétua. O mesmo vale para aqueles que encomendam crimes desta natureza.

Sinceramente, espero que o assassinato de Dorcelina seja rapidamente solucionado pela Polícia Federal e que TODOS os culpados sejam levados para o lugar que merecem, a cadeia. Minha preocupação não é por menos: Marçal de Souza (Tupã-I) também foi assassinado e os criminosos continuam impunes. Caso a justiça não seja feita, estarei convencido de que neste país ela só serve para punir ladrões de galinha, principalmente se esses forem negros e pobres.

Ainda que seja no calor da hora, avalio que o povo de Mundo Novo saberá reagir à altura dos ideais defendidos por Dorcelina e não colocará no poder alguém que não tenha compromisso com a maioria da população, os trabalhadores.

Dorcelina de Oliveira Folador está morta; foi covardemente assassinada por pessoas que temem um governo verdadeiramente do povo e para o povo. Suas idéias e seu exemplo, porém, não deverão ser esquecidos. Sua morte também não servirá de intimidação para governantes e parlamentares que atuam na mesma linha da prefeita de Mundo Novo. Outras mulheres do PT e, provavelmente, de outros partidos estão sendo ameaçadas de morte em Mato Grosso do Sul. Até quando isto vai continuar?

Espero que, daqui para frente, o dia 30 de outubro seja visto como o dia das mulheres sul-matogrossenses, daquelas mulheres que lutam pelos seus direitos e pela construção de uma sociedade mais feliz, via radicalização da cidadania, em busca de uma democracia sem fim, com liberdade e justiça.

Jorge Eremites de Oliveira Arqueólogo e professor junto à UFMS.


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