Tráfico de informações privilegiadas beneficiou banqueiros na desvalorização do Real
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por Luiz Antonio Magalhães
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A prisão do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, esquentou o clima político e derrubou a tentativa do governo FHC de propor uma "agenda positiva" e desviar a atenção da opinião pública da crise brasileira.

Na última segunda-feira, Lopes recusou-se a assinar um documento comprometendo-se em dizer somente a verdade na sessão da CPI dos Bancos a que fora convocado a depor. Teve voz de prisão decretada pelo presidente da CPI, foi encaminhado para um distrito policial, de onde só saiu após pagar fiança de R$ 300.

As denúncias sobre o comportamento de Francisco Lopes durante o breve período no comando do BC e, agora, suas negativas em prestar contas sobre o que fez serviram para colocar a investigação sobre o sistema financeiro definitivamente no centro dos acontecimentos políticos do país. "Tudo indica que a intenção original não era aprofundar as investigações. Mas não importa a motivação inicial, temos uma grande chance de passar a limpo uma série de fatos muito graves, pois diante dos holofotes ninguém se abastarda", diz o senador Roberto Requião (PMDB-PR), numa referência ao comportamento dos parlamentares da base governista que integram a Comissão.

De fato, a CPI dos Bancos originou-se de uma disputa política entre o PFL, na figura do senador Antonio Carlos Magalhães, e uma parte do PMDB, liderada pelo também senador Jáder Barbalho. Investigar o sistema financeiro significava, há um mês, uma maneira do PMDB governista ocupar espaço na mídia, constranger o PFL e tentar aumentar seu poder de barganha junto ao governo FHC.

Com o início das investigações e sobretudo com a ação firme do Ministério Público, no entanto, surgiram indícios de tráfico de influências e de informações privilegiadas, envolvendo principalmente Francisco Lopes, o banqueiro Salvatore Cacciola (Marka), a empresa de consultoria Macrométrica e o banco FonteCindam.

O que se descobriu até agora pode ser a ponta do iceberg de um enorme esquema de vazamento de informações privilegiadas e corrupção, envolvendo figuras que ocupam ou ocuparam cargos chave no governo FHC. "Existe uma máquina de tráfico de influências no governo. Essa máquina se revela não apenas nas evidências de que Chico Lopes ajudou os bancos Marka e FonteCindam. Há indícios de um esquema envolvendo, em algumas privatizações, o ex-ministro Mendonça de Barros, André Lara Resende, ex-presidente do BNDES, Ricardo Sérgio, do Banco do Brasil, e João Bosco, da Previ", afirma o deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP).

A opinião de Berzoini é endossada pelo senador Roberto Requião. Segundo ele, diante de uma política econômica que tem como um dos eixos centrais o programa de privatização, não se poderia esperar um comportamento diferente de seus operadores: "se você coloca uma gangue de individualistas doidivanas no comando do BC, não pode querer que se comportem como samaritanas do mal", ironiza o senador.

Quem ganhou com a desvalorização?

O deputado Ricardo Berzoini, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, vai além: "O problema não é o Chico Lopes, mas o comportamento do Banco Central, que tem como o função fiscalizar, e não ‘orientar’, os bancos privados", explica. "Estamos levantando uma série de documentos que mostram o comportamento de instituições financeiras que mudaram de posição nos dias 11 e 12 de fevereiro. O que descobrimos é muito interessante. O Chase Manhattam, por exemplo, inverteu sua posição em US$ 1,5 bi. Em hipótese alguma isso pode ser um "movimento de mercado", como alega o governo", diz ele.

Segundo Berzoini, há casos ainda mais escabrosos. "Temos informações de que uma pessoa física comprou US$ 1 bi logo antes da desvalorização, no dia 12. Já sabemos que se trata de um operador, mas não temos informações conclusivas sobre o mandante, ou os mandantes. Também temos informações de que o banqueiro Joseph Safra, como pessoa física, e não o seu banco, comprou US$ 340 milhões no dia 12, com a cotação de R$ 1,23."

Além dos casos citados por Berzoini, a imprensa noticiou, na última quinta-feira, uma lista de pessoas físicas que atuaram comprando dólares no dia 12. Entre os nomes citados estão Eduardo Rocha Azevedo (teria comprado US$ 2,5 milhões), Nelson Moreira Assad (US$ 5 mi), Lourenço Meirelles Reis (US$ 2,5 mi) e Edson Cerreti (US$ 71 milhões).

Segundo uma conta feita pelos jornalistas da Folha de S. Paulo, o Banco Central teria acumulado um prejuízo de R$ 5,4 bilhões com os contratos fechados nos dias que antecederam a desvalorização do real.

CPI vai acabar em pizza?

Se realmente existe uma rede de tráfico de informações no governo federal, é preciso ir a fundo e descobrir não apenas quem se beneficiou do esquema, mas sobretudo com o conhecimento e a anuência de quais autoridades do governo esta rede pôde se constituir. Em outras palavras: o ministro da Fazenda sabia do que se passava no BC? O presidente da República sabia?

Tanto o senador Requião como o deputado Berzoini concordam que a CPI dos Bancos, por si só, não vai conseguir chegar nos verdadeiros responsáveis pela total promiscuidade que se tornou a relação entre o Banco Central e os bancos privados. "Se a imprensa der uma boa cobertura das investigações, se o bloco de oposição mobilizar a opinião pública a fim de que haja uma real cobrança da sociedade pela apuração dos fatos, se o Ministério Público continuar com uma atuação firme nas investigações, aí sim poderemos colher bons resultados na CPI", analisa Berzoini.

Tudo somado, é certo que o governo FHC está saindo do episódio com a imagem bastante arranhada. "O povo não respeita mais o presidente da República", afirma o senador Roberto Requião. Ainda não se sabe a quantas anda a popularidade de FHC, pois as pesquisas de opinião estranhamente desaparecem nos momentos de crise. Mas, a julgar pelo que se ouve nas ruas, Requião pode até estar sendo condescendente com o presidente.

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