Talíria Petrone: “estaremos ao lado das resistências populares e contra os velhos padrões”

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A pouco mais de um mês da posse de Jair Bolsonaro na presidência da República, os debates públicos seguem em busca de explicações sobre a volta da extrema-direita ao poder em diversos países, com toda a sua adesão popular. No entanto, de outro lado há a renovação ou eclosão de novas formas de luta antissistêmicas. A respeito desta nova dinâmica com a qual passaremos a lidar, o Correio entrevistou Talíria Petrone, deputada federal eleita pelo PSOL.

“Cabe dizer o que consideramos renovação da política. No nosso caso, é circular pelos territórios, periferias, subúrbios e favelas, escutar a população que mais sofre com o sucateamento dos serviços públicos”, afirmou.
    
Oriunda da militância classificada como identitária, Petrone explica que tais lutas cidadãs se inscrevem no círculo das lutas populares e democratizantes, o que também significa que tocam nas questões estruturais. “Quando nos afastamos da política abrem-se brechas para que a história colonial se apresente como nova, mesmo sendo a mais velha de todas”.

Nesse sentido, comemora o aumento do número de mulheres eleitas para o Congresso, mas não se ilude com uma confluência em temas sensíveis.

“A bancada feminina não é a bancada feminista, e muito menos a bancada do feminismo popular (...) que encampe a luta antirracista, das trabalhadoras domésticas, a luta popular”, disse a deputada eleita, que também fez comentários sobre a tragédia do Morro Boa Esperança, com 15 mortos, em Niterói, onde foi vereadora.

A entrevista completa com Talíria Petrone pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Em linhas gerais, o que comenta do processo eleitoral brasileiro e do futuro presidente Jair Bolsonaro?

Talíria Petrone: A democracia brasileira é muito jovem e incompleta, nunca chegou plenamente nas favelas, periferias e subúrbios. Mas sabemos que era essa a democracia que queríamos aprofundar para tais territórios e populações e agora é enterrada.

É inacreditável termos tamanho avanço conservador, tanto no Congresso como nas câmaras estaduais, a exemplo da bancada do PSL, ou das bancadas ruralista e da bala no plano federal. É uma onda de ódio o efeito Bolsonaro. E um desafio pra nós, pois pelo voto popular jogamos no lixo a democracia. Temos um presidente que prefere um filho morto a um filho gay, lembra da ditadura e das torturas de forma saudosa... Aqui no Rio um governador que fala em “atirar na cabecinha e matar”...

Estamos diante da expressão de uma grave crise da política democrática. Nossa tarefa é fazer a frente mais ampla possível pra garantir o cumprimento dos preceitos mais básicos da constituição, direito à luta, à divergência... Por outro lado, cabe pensar de forma estratégica: o que aconteceu para o povo votar em Bolsonaro.

Retornar aos territórios, encontrar e escutar esse povo tão afastado da política é necessário à esquerda, pois quando a máscara de Bolsonaro cair, com sua agenda de privatização e retrocesso econômico para a vida dos trabalhadores, teremos de estar ao lado do povo para de fato construirmos uma saída.

Correio da Cidadania: Muito se fala da figura do capitão reformado, mas o que comenta do Congresso, para o qual você também foi eleita?

Talíria Petrone: Na última legislatura falávamos do “congresso mais conservador desde 1964”. E esse novo congresso supera o anterior. Só o PSL aparece com mais de 50 deputados federais. Teremos de fazer frente a este campo que mistura a bancada da bala, a ruralista e a fundamentalista, a tríade do Brasil colonial que ainda não acabou.

Parte dessa ultradireita cresceu sobre o centro, mais fisiológico, que perdeu espaço, o que também ampliou o espaço do campo progressista. Não são tempos fáceis, é necessário reconhecer a gravidade do momento que se reflete na configuração do Congresso, mas também devemos usar a ampliação de nossa bancada, que tem a cara da diversidade do povo, a fim de fazer dos nossos mandatos instrumentos e ferramentas para garantir a democracia e, mesmo em momento defensivo, avançar em nossos projetos.

Correio da Cidadania: Da sua campanha mais especificamente, o que pode falar ao leitor? Que forma de militância e prática política foi representada?

Talíria Petrone: Antes de tudo, cabe dizer o que consideramos renovação da política. No nosso caso, é circular pelos territórios, periferias, subúrbios e favelas, escutar a população que mais sofre com o sucateamento dos serviços públicos. E lembrar que esse povo é concreto, não abstrato. Tem cor, gênero, ama, tem sua sexualidade...

As pautas e lutas entendidas como identitárias, em suas caixinhas, são parte das lutas do povo. Enfrentar o machismo, a lgbtfobia, o racismo, que se manifesta no encarceramento e genocídio do povo negro, no país que lidera o número de assassinatos de transexuais e é o quinto que mais mata mulher no mundo, é estar ao lado do povo, que é diverso, majoritariamente negro e feminino.

Nosso mandato se propõe a estar conectado com a luta popular, o que significa estar ao lado das resistências populares e contra os velhos padrões. Queremos ser ferramenta de potencialização de tais lutas.

Correio da Cidadania: Como enxerga essa ascensão eleitoral conservadora, refletida também no debate público? É possível enxergar, ao menos em parte, como uma espécie de volta “romântica” a um passado que já não pode ser realidade, um ressentimento em última instância inócuo?

Talíria Petrone: O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, é marcado por uma lógica patriarcal, dos barões do café, dos grandes proprietários que ocupam os parlamentos e por uma lógica fundamentalista. Isso não foi superado. Se a colonização terminou, as relações coloniais ainda são muito fortes.

Assim, se facilita uma narrativa de apagamento da memória, de como esse passado é ruim, ao passo que se exalta a memória do ódio, de que “lugar de mulher é em casa”, “o negro não tem sua liberdade porque não cabe no país”, “a família tem um modelo único”...

Temos a responsabilidade de disputar essa narrativa contra os setores do ódio, do colonialismo. Parece redundante, mas novamente afirmo que precisamos estar nos territórios. Nunca foi tão necessário estar nos territórios de um povo que está lá, faz “seus corres” no cotidiano afastado da política... E quando nos afastamos da política abrem-se brechas para que a história colonial se apresente como nova, mesmo sendo a mais velha de todas.

É uma tarefa muito difícil, em condições muito adversas, mas não podemos fugir disso.

Correio da Cidadania: Considerando todo o arco partidário, o que você comenta da bancada feminina para o Congresso?

Talíria Petrone: A bancada feminina não é a bancada feminista, e muito menos a bancada do feminismo popular. A representatividade é muito importante, tivemos uma ampliação de mulheres, agora são 77, mas é importante falar dos limites da representatividade. Ela é muito, mas muito, necessária. Nós, mulheres negras, de origem popular, sabemos o que é carregar o cotidiano nas costas, levar filho na escola, ter medo da violência ao circular pela cidade...

Estarmos representadas é importante para que a realidade que experimentamos no corpo seja refletida. Mas representatividade não basta, tem de vir com uma política feminista. E não qualquer feminismo, mas um que encampe a luta antirracista, das trabalhadoras domésticas, a luta popular... Para isso, sem dúvida, não poderemos contar com a bancada feminina inteira, porque as mulheres que defendem o ódio, o racismo e o medo como elemento mobilizador não estarão ao nosso lado na luta pela emancipação de todas as mulheres.

É ótimo ampliar a representatividade, mas sempre precisamos lembrar que representatividade precisa estar casada com alguma política.

Correio da Cidadania: Mudando um pouco de assunto, você vem de Niterói, onde foi professora e começou a carreira política. O que falar do deslizamento de terra no Morro Boa Esperança, que culminou com a morte de 15 pessoas?

Talíria Petrone: Niterói tem IDH muito alto, um dos maiores orçamentos do Brasil, aparenta ser uma cidade de classe média e alta, branca, mas é profundamente desigual. Tem abismos raciais e sociais enormes.

A questão da moradia evidencia muito esse abismo. Em 2010 já tínhamos vivenciado uma tragédia socioambiental que deixou milhares de desabrigados e dezenas de mortos, o desastre do Morro do Bumba. Esses mortos também tinham cor, moravam em áreas precárias onde o Estado não chegava...

Infelizmente, a questão não foi superada. Vinte por cento da população mora em assentamentos precários e, embora a prefeitura apresente número de casas construídas, não há planejamento para incidir nas áreas de risco.

Pois além da desigualdade social e racial, as áreas são geologicamente propícias a eventos socioambientais. A prefeitura encerrou plano de mapeamento de riscos há mais de dois anos, pra incidir sobre os riscos em cada área e apresentar um plano de habitação. Embora a UFF tenha apresentado um plano, a prefeitura ignorou.

Na ausência de planejamento para mapear e atacar os riscos – com drenagem, urbanização, contenção de encostas e em último caso reassentamento das pessoas em áreas próximas – teremos novos desastres ambientais. A questão da moradia na cidade é grave e evidencia a falta de planejamento.

Niterói tem três setores econômicos que dominam a cidade e ainda financiam os parlamentares: especulação imobiliária, transporte e grandes lojistas. Ainda é uma cidade-mercadoria. Pra reduzir esses riscos, apenas fazendo planejamento.

Outro aspecto: a Defesa Civil funciona bem à beça na cidade. Interdita um monte de casas. Mas de que adianta interditar as casas e não apresentar saídas, no máximo abrigos precários? Os moradores voltam para as áreas de risco.

É um problema grave e é muito triste o que, mais uma vez, aconteceu na minha cidade. Esperamos que não ocorra mais.

Correio da Cidadania: E como colocar o acontecimento numa perspectiva estrutural, a considerar o tipo de agenda política que pode predominar em 2019?

Talíria Petrone: Uma das coisas que o presidente eleito fala é da defesa da propriedade. Uma forma de justificar que vai fazer guerra “em defesa da Constituição”. Ora, a defesa da propriedade privada não pode se colocar acima do direito à dignidade, de se ter uma casa... Preocupa muito a proposta de criminalizar movimentos sociais, num país de latifúndios e que tem mais prédio vazio que gente sem casa, que nunca fez uma reforma urbana a contento.

Teremos de romper com grandes grupos econômicos e especulativos que jogam os pobres para as periferias, dar suporte a movimentos que lutam contra a desigualdade, entendendo que os direitos de viver e morar, além da função social da terra, precisam estar acima do “direito” à propriedade privada.  

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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