“Deixar a questão ambiental no fim da fila das prioridades não ajudou e nem ajudará a economia”

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Tereza Cristina, futura ministra da Agricultura, e Jair Bolsonaro. Divulgação

Enquanto Donald Trump renega a incidência das mudanças climáticas nos devastadores incêndios da Califórnia, o Brasil ainda se pergunta o que será de sua pauta ambiental no governo de Bolsonaro. Sobre este tema cada vez mais sensível, e sua completa ausência dos entorpecidos debates eleitorais, o Correio da Cidadania entrevistou a ativista ambiental e educadora Telma Monteiro, que analisa alguns sinais já dados pelo futuro presidente.

“Não houve nenhum debate ambiental. Marina Silva, de quem se esperaria tal feito na campanha e nos debates, limitou-se a ser ela ou mais dela mesma.
Meio ambiente, também, é a questão sanitária: saneamento básico, destinação dos resíduos sólidos e água potável nos mais de cinco mil municípios brasileiros; trata-se também da preservação dos rios esmagados pelas hidrelétricas e destruídos pelas barragens de rejeitos; da manutenção e recuperação de nascentes; da utilização indiscriminada de agrotóxicos, gentilmente chamados de ‘defensivos’ (não esqueçamos do PL do Veneno que tramita no Congresso Nacional)”, lamentou.

Na conversa, Telma Monteiro, também colunista do Correio, adianta alguns dos possíveis objetivos de exploração do meio ambiente do governo de extrema-direita. Como já evidenciaram os discursos do capitão reformado e deputado federal, as terras indígenas correm grande risco de avanço capitalista. E Roraima já se anuncia um grande alvo.

“Bolsonaro citou o rio Cotingo e manifestou intenção de retomar os projetos na Bacia do rio Branco para exploração do potencial natural pelos setores econômicos. Há muita terra ainda não ocupada no estado de Roraima. Sob o guarda-chuva da ‘segurança nacional’ a localização do estado de Roraima é considerada estratégica em relação aos países vizinhos. Sob essa ótica, o novo governo não pretende respeitar os povos tradicionais e pode pôr em perigo a integridade da biodiversidade da região”, avaliou.

Mas além de fazer alertas sobre as perspectivas que o futuro governo gera, Telma faz um duro balanço das políticas ambientais dos santecessores. E nesse sentido não cabem concessões ao partido derrotado no segundo turno, que a seu ver também ficará muito negativamente marcado na história. Já o sucessor, é tão breve quanto ativo na construção deste mesmo caminho de destruição ambiental de perigosíssimas consequências.

“Pode-se considerar que Belo Monte é um ícone, um marco amargo da nossa história já coalhada de exemplos malsucedidos na área socioambiental e que põem em risco a Natureza (...) Além do caso da Renca, o governo Temer protagonizou um verdadeiro desmanche das leis ambientais, o enfraquecimento do Ibama, o aumento das emissões de gases de efeito estufa e o aumento do desmatamento da Amazônia. Comprovação da má vontade dos governos brasileiros, culminando com Temer, em cumprir compromissos assumidos desde os anos 1970”, criticou.

A entrevista completa com Telma Monteiro pode ser lida a seguir.


Telma Monteiro. Arquivo pessoal

Correio da Cidadania: Primeiramente, o que comenta da vitória de Jair Bolsonaro para a presidência da República? O que representa da chamada Nova República e seu projeto societário que acaba de completar 30 anos?

Telma Monteiro: Vou fazer uma analogia usando a minha especialidade. Jair Bolsonaro equivale a um fruto extemporâneo produzido por um galho frágil, doente e escamoteado pelas folhas de uma árvore sólida, embora imperfeita, plantada após a ditadura, chamada Nova República. Digo que é extemporâneo porque o fruto se formou na sombra das folhas dessa árvore, sem luz, raquítico, encruado, quase invisível, deformado, sem sementes, incômodo e rechaçado pela própria árvore que dele não se livrou em respeito ao seu direito de estar lá. O fruto não amadureceu. Até que um dia a árvore forte perdeu seu galho mais frondoso atacado por fungos e nematoides, e o tal frutinho, verde, mirrado, emergiu ao receber luz e rapidamente se desenvolveu. Tão rapidamente que tanto a árvore como seus frutos saudáveis não o perceberam.

A Nova República é isso, uma grande e frondosa árvore que acabou de completar 30 anos. Sim, vai viver eternamente e continuar dando sombra e mais frutos, uns fracos ou doentes. Mas todos terão, igualmente, a oportunidade de se desenvolver. Essa árvore, infelizmente, não conseguiu se livrar daquele único fruto moldado na sombra e na umidade.

Mas tal fruto extemporâneo pode alterar para sempre a robustez e a produtividade da árvore plantada em terreno ainda pouco fértil, há 30 anos. Esse fruto amadureceu e, parece, já conseguiu produzir sementes que estão germinando.

Espero que a sábia Natureza se encarregue de fazer a seleção para dispensar naturalmente aqueles frutos que podem matar a árvore.

Correio da Cidadania: Entrando no tema de sua especialidade, o que considerou dos debates ambientais na totalidade da campanha eleitoral? Houve alguma candidatura que se destacou neste aspecto?

Telma Monteiro: Sendo o mais direta possível, não houve nenhum debate ambiental. Marina Silva, de quem se esperaria tal feito na campanha e nos debates, limitou-se a ser ela ou mais dela mesma. Suas falas sobre meio ambiente foram promessas vãs de reproduzir algo que ela não fez quando ministra do Meio Ambiente.

Políticos em geral têm uma tendência hipócrita de transformar “meio ambiente” num único tema – Amazônia - para chamar a atenção de personalidades nacionais e internacionais. Parece que o que importa é só a salvação da Amazônia, exclusivamente. No entanto, meio ambiente não se trata só da preservação da floresta amazônica, mas de tudo que envolve a proteção da biodiversidade e dos biomas do território brasileiro.

Meio ambiente, também, é a questão sanitária: saneamento básico, destinação dos resíduos sólidos e água potável, nos mais de cinco mil municípios brasileiros; trata-se também da preservação dos rios esmagados pelas hidrelétricas e destruídos pelas barragens de rejeitos; da manutenção e recuperação de nascentes; da utilização indiscriminada de agrotóxicos, gentilmente chamados de “defensivos” (não esqueçamos do PL do Veneno que tramita no Congresso Nacional).

A Natureza não precisa de veneno para se defender; meio ambiente não é suicídio, é vida; meio ambiente é erradicar as monoculturas que empobrecem o solo, desertificam e induzem à devastação de florestas; trata-se, também, de preservar as unidades de conservação que hoje correm risco de extinção, porque reduzidas muitas já foram, como a Floresta Nacional do Jamanxim, pelo governo Dilma; trata-se de pensar em modais de transporte usando energias limpas; de criar programas de financiamento para que a população possa fazer uso de energia fotovoltaica; de descentralizar a geração e a transmissão de energia elétrica; trata-se de utilizar tecnologias já disponíveis para reduzir o lixo plástico que mata os rios, lagos e mares; de propor mecanismos de preservação da água sem que isso implique em vendê-la como mercadoria ou alterar o solo e a floresta; de exigir e obrigar o agronegócio a utilizar práticas sustentáveis e demonstrar que não vai ser possível produzir um grão sequer ou criar uma cabeça de gado, num futuro bem próximo, sem água; trata-se de mostrar que mudanças climáticas não significam apenas chuva de menos ou demais; que sacos plásticos devem ser suprimidos; que a mineração destrói biomas, populações, ecossistemas, terras indígenas, apenas para enriquecer grandes corporações internacionais; que a Noruega explora petróleo e destrói regiões frágeis do planeta que sequer podem se defender, buscando compensar um falso sentimento de culpa, injetando muito dinheiro, parcela infinitesimal dos lucros, em programas de conservação de biomas, sem se preocupar como os recursos estão sendo usados ou aplicados.

Correio da Cidadania: O que espera do tema ambiental no governo de Bolsonaro? O que é possível projetar, em especial após a boataria em torno da fusão do Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura?
 
Telma Monteiro: O que mais me marcou na “campanha”  de Jair Bolsonaro, se é que se pode chamar bravatas de campanha, foi a frase-resposta sobre terras indígenas: "nem um centímetro a mais para terras indígenas". Já se podia prever tal reação com o histórico farsesco do candidato que há 28 anos, sob a luz (fruto deformado escondido na árvore frondosa), como um Darth Vader invisível, minúsculo, que professou injúrias à Constituição Federal, que ofendeu a maioria dos brasileiros com apologias aos tempos do coturno e da tortura praticada por um déspota cujo nome prefiro não gravar aqui.

Afinal, unir dois polos antagônicos do desenvolvimento como Meio Ambiente e Agricultura, que disputam os mesmos territórios para usos opostos – preservação e culturas que exaurem as terras - num só ministério, seria só imaginável como um anátema. Há um movimento internacional de boicote aos produtores que não se renderam às boas práticas mínimas de conservação e produção agropastoril. Mas não é com isso que os barões do agronegócio estão preocupados. Eles não aceitam essa “união antagônica” entre Meio Ambiente e Agricultura, porque querem que o ministério do Meio Ambiente fique só, frágil, isolado, à mercê de decisões ditatoriais (já comuns nos governos anteriores). Só que agora estaria muito mais vulnerável diante de um novo governo com a síndrome de autoritarismo.

A legislação ambiental será desmontada como um jogo de armar, paulatinamente, despudoradamente, para dar lugar à fila de espera para imprimir o avanço do agronegócio sobre a floresta, da mineração sobre terras indígenas, das empresas internacionais em busca de riquezas, como a exploração de petróleo na bacia amazônica. Bolsonaro já escolheu quem vai dirigir o Ministério da Agricultura.

Enquanto eu respondia a essas questões, ele desistiu (sob pressão) de fundir a pasta da agricultura com a do Meio Ambiente. Escolheu para capitanear o ministério da Agricultura a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), engenheira agrônoma e empresária do setor e presidente da Frente Parlamentar Agropecuária do Congresso Nacional (ou bancada ruralista), que a indicou para o cargo.

Junte-se a isso o fato de que as eleições 2018 elegeram dois governadores ligados ao agronegócio, Ronaldo Caiado, em Goiás, e Antonio Denarium, empresário e produtor rural, em Roraima. Este último muito ligado a Bolsonaro que fez críticas aos tamanhos das terras indígenas Yanomami e à Raposa Serra do Sol, em Roraima.

O trio ruralista, fortalecido pela bancada ruralista no Congresso, terá todos os instrumentos e apoios para forçar a fragilização das leis ambientais e implementar um projeto de expansão sobre os biomas protegidos em todo o país.

Correio da Cidadania: Acredita que projetos hidrelétricos e minerais poderão voltar à ordem do dia, inclusive de forma associada, como se viu em Belo Monte, onde após a liberação da construção da usina você mesma trouxe à tona o projeto de mineração de ouro Belo Sun Mining, de empresa canadense? Quais são, a seu ver, os principais candidatos a este tipo de exploração econômica no próximo período?

Telma Monteiro: Li uma entrevista de Bolsonaro quando ele esteve em visita a Roraima em que afirmou ser uma necessidade barrar o rio Cotingo. “Vamos supor que eu seja presidente e queira fazer uma hidrelétrica no Rio Contigo (sic) - localizado no norte de Roraima. O rio cruza a terra indígena, banha e daí? Mesmo pedindo autorização para o Congresso, como acham que um país de primeiro mundo se comportaria no tocante a isso? Pelo que eu sei, no Rio Contigo (sic) caberiam três hidrelétricas”, afirmou.

Desde 1971 se fala em construir hidrelétricas no rio Cotingo e em 2006 a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) autorizou a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a realizar o seu Estudo de Inventário Hidrelétrico. Em 2008 os indígenas fizeram pressão e o projeto de construção de uma hidrelétrica na sub-bacia do rio Cotingo foi suspenso. O rio Cotingo é parte da bacia do rio Branco e está na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Essa região, prevista para a construção de hidrelétricas, está encravada num território onde 70% são banhados pela bacia do rio Branco, protegida legalmente por 30 Terras Indígenas (TI), 11 Unidades Conservação (UC) – seis são de Proteção Integral e cinco de Uso Sustentável.

Tem aproximadamente 392.000 habitantes de maioria indígena, que luta contra ocupação do seu território. O interessante é que por ser uma região pouco povoada foi considerada pela EPE como um grande potencial econômico – extração madeireira e commodities minerais – a despeito das terras indígenas e das unidades de conservação. Imagine a farra que um governo como o de Bolsonaro pode fazer por lá.

Há uma intensa procura por titularidade de terras nessa região. Os migrantes buscam oportunidades de trabalho, mas acabam criando conflitos com os povos indígenas e seus territórios. Conflitos que decorrem da disputa pelos recursos da biodiversidade, fundamentais para a sobrevivência de tais povos indígenas, que realmente se preocupam com a sua preservação.

Bolsonaro citou o rio Cotingo e manifestou intenção de retomar os projetos na Bacia do rio Branco para exploração do potencial natural pelos setores econômicos. Há muita terra ainda não ocupada no estado de Roraima. Sob o guarda-chuva da “segurança nacional” a localização do estado de Roraima é considerada estratégica em relação aos países vizinhos. Sob essa ótica, o novo governo não pretende respeitar os povos tradicionais e pode pôr em perigo a integridade da biodiversidade da região.

De um lado do estado está a TI Raposa Serra do Sol, do outro a imensidão da Terra Yanomami e entre elas um divisor, o rio Branco e sua bacia fluindo vida para os ecossistemas. As TIs ocupam 45% do território de Roraima e nela vive a população indígena com o menor contato com os não índios, entre os estados brasileiros. Temos de nos preocupar.

Correio da Cidadania: Sobre um importante marco dos governos petistas, o que você tem a dizer de Belo Monte a esta altura? Pode ser tido como simbólico deste momento que vivemos?

Telma Monteiro: Temo que se um governo dito de esquerda conseguiu fazer Belo Monte, a despeito da resistência dos povos indígenas, da população afetada, dos especialistas, pesquisadores, organizações nacionais e internacionais, vai ser muito difícil conseguirmos deter a sanha da equipe de Bolsonaro de retomar grandes obras de infraestrutura. Não faltaram declarações sobre a necessidade de fazer mais hidrelétricas, por exemplo.

O governo Bolsonaro já disse a que veio. Os problemas de infraestrutura e o atraso em que o Brasil se encontra nesse setor, infelizmente, tendem a reforçar a opinião pública a favor das grandes obras, na maioria em detrimento da preservação dos biomas e dos povos indígenas. A maioria da população esquece rápido. De quebra, há uma tendência orquestrada para demonizar as organizações sérias, nacionais e internacionais, que se dedicam à pesquisa sobre aquecimento global e as mudanças climáticas para alertar agentes públicos e população sobre as consequências do desequilíbrio ambiental.
 
Não vi uma menção sequer sobre prevenção de catástrofes como a de Mariana, por exemplo. Nem a promessa de responsabilização dos culpados ou ressarcimento dos atingidos que amargam até o momento o descaso da Samarco. Belo Monte vai pelo mesmo caminho, assim como as consequências dramáticas advindas da construção das usinas Santo Antônio e Jirau no rio Madeira, em Rondônia ou das hidrelétricas construídas no limite de terras indígenas como a UHE São Manoel, no rio Teles Pires, que põem em risco a sobrevivência e a história dos Munduruku. Isso só para citar alguns casos que ainda estão presentes na memória dos brasileiros.

Portanto, pode-se considerar que Belo Monte é um ícone, um marco amargo da nossa história já coalhada de exemplos malsucedidos na área socioambiental e que põem em risco a Natureza. Apenas para ilustrar e gravar, de todas as outras catástrofes que assistimos nos últimos 15 anos, Belo Monte é “o símbolo da relação inescrupulosa entre o governo federal e as empreiteiras”, como bem disse o procurador da República, Felicio Pontes Jr., em entrevista ao IHU – On-Line.

Só essa frase já diz tudo, que se encaixa como uma luva no caso de Belo Monte e também nos demais. É preciso não esquecer, jamais.

Correio da Cidadania: Temos um governo ainda em andamento, que aparentemente entrará para a história como nota de rodapé, ainda que tenha promovido reformas relevantes. No tema ambiental, há uma marca do governo Temer e seus dois anos e meio de mandato?

Telma Monteiro: Sim, várias. O governo atual, que se encerra em 31 de dezembro, nos deixará um legado de desacertos na área ambiental e uma lembrança emblemática que quase causou um terremoto social: Temer quis rifar a Amazônia.

Quem não se lembra do caso da Reserva de Cobre e Associados (RENCA)? Aquele quadrilátero no coração da Amazônia, meio esquecido até então, quando Temer resolveu, por decreto, liberar para exploração de toda a riqueza ali contida, na forma de commodities minerais.

O governo Temer descobriu que a Renca tem um potencial incalculável de ouro, ferro, manganês e tântalo. Foi o então ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, quem soprou a ideia nos ouvidos do presidente Temer. Para o geólogo Antônio Feijão, ex-diretor do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) no Amapá, na exploração da Renca seria possível multiplicar muitas vezes a quantidade de ouro de Serra Pelada.

Pela Portaria 128, de 30 de março de 2017, do Ministério de Minas e Energia, Art. primeiro, os títulos minerários (autorizações de pesquisa, concessões de lavra, permissões de lavra garimpeira e registros de licença) regularmente outorgados, antes da criação da RENCA, em áreas na Reserva Nacional de Cobre e Associados (RENCA), permanecem em vigor, sujeitos ao Código de Mineração.

Não é preciso ser vidente para imaginar como tal informação poderá ser usada pelo governo que assumirá em primeiro de janeiro de 2019. Os generais de plantão podem já estar pensando numa Renca desbloqueada para ajudar a cobrir o déficit da dívida pública. Não esqueçamos que em 2016 começou uma verdadeira campanha para “recuperar” a credibilidade da mineração brasileira e foi criado o Programa de Revitalização da Indústria Mineral Brasileira, composto por três Medidas Provisórias.

Além do caso da Renca, o governo Temer protagonizou um verdadeiro desmanche das leis ambientais, o enfraquecimento do Ibama, o aumento das emissões de gases de efeito estufa e o aumento do desmatamento da Amazônia. Comprovação da má vontade dos governos brasileiros, culminando com Temer, em cumprir compromissos assumidos desde os anos 1970.

Seria injusto só mencionar a responsabilidade de Temer, no quesito ambiental, que além de dar continuidade ao descaso, aprofundou o abismo criado por seus antecessores para dar espaço aos interesses imediatistas. Isso, desde Estocolmo, em 1972. Tem sido uma somatória de escolhas equivocadas, depois de assumidos os compromissos da Rio 92 e da Rio + 20.

Apesar dos acordos, faltou fazer um controle eficaz da poluição e do desmatamento na Amazônia. Culminou com Temer, que pautou sua política ambiental correndo atrás do governo da Noruega, por exemplo, para evitar que ele deixasse de injetar os bilhões no Fundo Amazônia. Deixar a questão ambiental no fim da fila das prioridades não ajudou a economia brasileira. Nem vai ajudar. Esse é o recado que deve chegar aos ouvidos da equipe de Bolsonaro e da ministra da Agricultura.

Bolsonaro, para completar, quer seguir os passos do governo Trump e sair do Acordo de Paris. O Brasil já liderou muitos de tais acordos, quando muito para não colocar em risco o capital agropecuário que, hoje, já pode começar a sentir os reflexos de decisões tresloucadas como essa.

Correio da Cidadania: Voltando um pouco mais no tempo, temos pouco mais de 5 anos de funcionamento do Novo Código Florestal, sancionado pelo governo Dilma sob intensas críticas ambientalistas. O que podemos comentar deste recente marco regulatório até aqui?

Telma Monteiro: A guerra continua. Ruralistas versus ambientalistas e no centro do embate o novo Código Florestal (Lei 12.651/12), em vigor desde maio de 2012, e que já não é tão novo, com os quase cinco anos de vigência. Uma espécie de gregos e troianos. De um lado, para terror dos ambientalistas, o novo código veio favorecer o agronegócio com a redução da proteção das matas ciliares, de áreas de proteção permanente e certeza da regularização de propriedades com irregularidades ambientais.

Por outro lado, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), parte do novo Código, está tornando possível uma fotografia da realidade dos imóveis rurais privados de assentamentos da reforma agrária e de comunidades tradicionais. Talvez esse seja o único ponto positivo, que não traz divergências entre os lados.

No entanto, estamos prestes a embarcar num novo governo sabidamente ligado aos ruralistas e com uma ministra da Agricultura oriunda desse nicho que tem, ao longo da história, se interposto à preservação ambiental. Flexibilizar as leis ambientais passou a ser uma forma de incentivar a expansão do agronegócio em biomas que, embora protegidos, pode-se dizer só no texto da lei, desequilibrando por completo a balança que de um lado trazia a necessidade de expansão das atividades agropastoris sobre a floresta, e do outro a necessidade de se conter essa expansão sob risco de perdermos biodiversidade e criarmos um contingente de refugiados ambientais.

Na vigência do novo código, pós-cadastramento pelo CAR, cumprirá aos estados fazer com que os proprietários sanem as irregularidades em relação às áreas passíveis de recuperação para se adequar à nova legislação. Muitos dos 27 estados não têm capacidade operacional, recursos federais, para empreender esse etapa da nova lei. Assim, o resultado não poderia ser outro: lentidão, que a priori cria impasses e abre brechas para uma nova discussão sobre as alterações necessárias ao texto do novo Código Florestal.

O novo governo herdará o problema ou o impasse e, com um Congresso receptivo às perspectivas de fragilização das leis ambientais, só resta temer o pior. Embora o novo Código Florestal não tenha beneficiado a Natureza, o não cumprimento do cronograma de sua implantação pode tornar ainda pior a relação meio ambiente e agronegócio.

Pode-se esperar uma guerra de interesses que se retroalimentará com o novo Congresso menos afeito à preservação ambiental. Os grandes agricultores e pecuaristas anteviram a possibilidade de regularização ambiental de suas propriedades, ajudada pelas novas regras do Código Florestal, e os ambientalistas se veem diante de uma espécie de trem parado a meio caminho entre duas estações.

Com o objetivo de corrigir erros no novo Código, ambientalistas recorreram ao Supremo Tribunal Federal, mas suas esperanças foram derrubadas. Um dos pontos mais polêmicos e que pode gerar grandes prejuízos à integridade da Amazônia é sobre a autorização concedida ao poder público para reduzir de 80% para 50% a reserva legal nos municípios amazônicos com mais de 50% de áreas indígenas e unidades de conservação.  O STF considerou constitucional o texto da lei. Perde o Brasil, perde o meio ambiente, perde a Amazônia.  

Correio da Cidadania: O que fazer daqui pra frente na defesa do meio ambiente e suas articulações? Acha que será possível lutar dentro dos marcos institucionais do Estado brasileiro?

Telma Monteiro: Eu gostaria muito de poder responder a essa questão depois de conhecer o nome do futuro(a) ministro(a) do Meio Ambiente do novo governo. Mas, num exercício de insanidade e apenas para deixar registrado, e quem sabe fazer chegar ao escolhido(a) acredito que ambientalistas, organizações voltadas à preservação do meio ambiente, organizações ligadas aos direitos indígenas, das populações ribeirinhas, especialistas e pesquisadores voltados à conservação dos biomas brasileiros devam formar uma grande corrente de resistência ao que está por vir.

Quando Bolsonaro declarou que fundiria os dois ministérios, Agricultura e Meio Ambiente, acreditei que estávamos irremediavelmente perdidos. Ele voltou atrás e hoje posso afirmar que teremos uma chance.

Por pior que possa parecer ter um ministério do agronegócio muito forte, a voz das mudanças climáticas é ainda mais forte. É impossível escamotear os prejuízos que pequenos, médios e grandes produtores amargarão se não houver um consenso no trato do meio ambiente no Brasil inteiro. No mundo inteiro.

Não podemos fraquejar diante de uma visão autoritária que defenderá o PL do veneno que tramita no Congresso, assim como não podemos nos apequenar nas demonstrações sobre o quanto uma administração mal versada no tema ambiental poderá colocar em risco toda a sobrevivência da espécie humana.

Isso não significa que tenhamos a pretensão de atribuir ao Brasil a salvação do planeta, preservando a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal ou os Pampas. Apenas significa que qualquer catástrofe futura poderia ser resultado da nossa omissão como humanos em detrimento da vida das futuras gerações.

Não importa que o futuro governo nos governe com mãos de ferro ou imposições que mais dia menos dia poderão concorrer para a destruição das populações mais fragilizadas, já reféns de toda a inconsequência e destrato da causa ambiental. Já temos desastres suficientes que estão marcados a ferro e fogo na história da causa ambiental desde tempos imemoriais. Temos que fazer ver a importância da água para a sobrevivência das espécies, a importância dos ecossistemas para a sobrevivência de todos os seres vivos.

Não basta termos a Amazônia e ouvir do resto do mundo que ela é importante para a vida do planeta, que dela depende. Temos de mostrar um Brasil que acima de tudo ainda pode ser um exemplo respeitado. Um Trump, ou um Bolsonaro e seus clãs não são páreo para a Natureza.

Leia também:

PL 6299/2002: “Toda a preocupação ambiental e relativa à saúde humana será deixada de lado em favor da ganância do agronegócio”


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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