“A crise econômica não vai acabar e precisamos emplacar uma outra agenda para o Brasil”

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As eleições se aproximam e as campanhas dão seus impulsos finais em seus candidatos. Campanhas, destaque-se, condicionadas pela lei eleitoral elaborada pelo ex-deputado Eduardo Cunha, que diminuiu drasticamente o tempo para a apresentação de propostas, cerceou os tradicionais comícios e aplicou fórmula que visa excluir do fundo partidário partidos de bancadas menores. Sobre isso e também a histórica manifestação das mulheres contra a chapa militar Bolsonaro-Mourão, entrevistamos Silvia Ferraro, candidata ao Senado pelo PSOL.  

“A grande mídia boicotou o ato de 29 de setembro. foi evidente. Para o tamanho dos atos, tanto em São Paulo como em outras capitais e até interior, não dá nem pra comparar com a cobertura que deram às manifestações pelo impeachment. E mesmo as manifestações de domingo em favor de Bolsonaro tiveram mais inserções na mídia, mesmo sendo bem menores”, criticou.

Sobre o contexto eleitoral, lamenta a lei elaborada por um dos mais notórios corruptos da história recente e seu viés de fortalecer ainda mais os detentores do poder econômico.

“Não dá pra explicar nada à população. As redes sociais são um canal para tentar chegar às pessoas, mas também neste terreno quem tem mais recursos aparece mais. Tem gente gastando 1 milhão por dia com rede social. Continua sendo uma campanha desigual e mina a chance de ficarmos conhecidas”, disse Ferraro.

Sobre sua campanha, coloca no contexto da ascensão feminista no debate político predominante, e também da necessidade de se elegerem pessoas oriundas do mundo do trabalho, em tempos onde a política oficial retira direitos sob justificativas pró-capitalistas.

“É uma campanha importante politicamente pelo caráter feminista, pela defesa dos direitos das mulheres, da legalização do aborto, tema que muitos candidatos não tocam e tivemos coragem de fazer (...) Precisamos aproveitar o momento pra intensificar as lutas, dos trabalhadores, das mulheres, dos sem tetos, dos LGBTs, para que um dia tenhamos condição de emplacar uma outra agenda para o Brasil”, resumiu.

A entrevista completa com Sílvia Ferraro pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: O que comenta do ato denominado “Ele Não!” convocado pelas mulheres neste 29 de setembro em repúdio ao candidato neofascista Jair Bolsonaro, e também sua forma de organização?

Silvia Ferraro: Foi um ato muito grande, a maior manifestação de rua de 2018. Majoritariamente de mulheres, mas havia homens. Acabou que foi além das mulheres e várias outras organizações participaram, a exemplo de professores contra Bolsonaro, torcidas contra Bolsonaro, sem tetos contra Bolsonaro... Vários grupos se organizaram pra se unificarem no ato. Ele foi puxado pelas mulheres a partir da internet, um grupo do facebook chegou a ter quase 3 milhões de pessoas e isso impulsionou o protesto.

Foi um ato suprapartidário, com muita gente independente do universo de partidos e grupos políticos. Em SP, a polícia não divulgou números, a imprensa tampouco, mas a organização chegou a falar em 500 mil pessoas. Sei que era muito grande, acho que dá pra afirmar que tivemos 250 mil pessoas pelo menos. Houve muitos movimentos sociais organizados, mas uma quantidade ainda maior de pessoas que foram por conta própria.

Correio da Cidadania: Como analisa a definição veiculada por alguns meios de imprensa de ter sido um ato “da elite da esquerda”, com base em pesquisa feita por alguns professores da USP?

Silvia Ferraro: O termo elite está errado. Eu sou professora da rede municipal, havia muitos professores, e não dá pra dizer que somos elite, né? Mas por outro lado o ato tinha um componente menos popular do que o necessário.

Talvez a manifestação das mulheres tenha atingido um público com mais acesso a informações e acesso à própria cidade. Fica o desafio de conseguir fazer a periferia e os mais pobres virem mais a tais atos. Ou tais atos irem para as periferias. De todo modo, “elite” não é uma definição correta.

Correio da Cidadania: E a repercussão, inclusive no espectro oposto? São mais positivas no final das contas?

Silvia Ferraro: A grande mídia boicotou, foi evidente. Para o tamanho dos atos, tanto em São Paulo como em outras capitais e até interior, não dá nem pra comparar com a cobertura que deram às manifestações pelo impeachment. E mesmo as manifestações de domingo em favor de Bolsonaro tiveram mais inserções na mídia, mesmo sendo bem menores.

Eu passei no ato pró-Bolsonaro na Paulista e posso afirmar com todas as letras que era minúsculo, pra 2 mil pessoas, e mesmo assim a mídia deu mais cobertura.

Correio da Cidadania: Indo às eleições, como analisa esta campanha eleitoral, travada sob a égide de nova lei, elaborada pelo ex-presidente da Câmara e deputado cassado, Eduardo Cunha, um dos mais célebres corruptos da história recente?

Silvia Ferraro: A campanha continua com os mesmos problemas de sempre. Muita desigualdade entre os partidos, com diferenças enormes de tempo de TV, 8 minutos para Alckmin e poucos segundos pro Boulos, por exemplo.

Não dá pra explicar nada à população. As redes sociais são um canal para tentar chegar às pessoas, mas também neste terreno quem tem mais recursos aparece mais. Tem gente gastando 1 milhão por dia com rede social. Continua sendo uma campanha desigual e mina a chance de ficarmos conhecidas.

A lei eleitoral deixou a campanha mais curta e isso também favorece quem é mais conhecido, quem já teve mandatos, poder econômico etc. A lei eleitoral veio pra prejudicar partidos menores e ideológicos.

No plano conjuntural, é uma campanha eleitoral muito polarizada. Nunca tinha visto um neofascista a liderar as pesquisas. É uma campanha bem diferente em relação às anteriores, ao menos desde a redemocratização.

Correio da Cidadania: O que pensa das declarações de Bolsonaro e o vice Mourão de que não pretendem reconhecer um resultado de derrota? É anúncio de que há movimentações golpistas e até ditatoriais em curso?

Silvia Ferraro: É muito preocupante eles fazerem tais declarações. Por mais que as eleições tenham caráter antidemocrático no Brasil, ainda tem algo de igualitário; cada pessoa, um voto. A eleição é uma das formas de se manifestar democraticamente. Além da pressão das lutas e ruas, a eleição é a forma que temos de canalizar o processo político. 

É preocupante eles falarem isso. Bolsonaro, Mourão, Major Olímpio sonham com ditadura militar, fazem apologias frequentes deste regime. Eles adorariam que não houvesse eleições. Adorariam governar o país sem essa mediação.

Correio da Cidadania: Acredita que a eleição do legislativo pode melhorar a correlação de forças em termos de termos mais representantes do campo progressista? Residiria aí o maior campo de luta da eleição?

Silvia Ferraro: É uma possibilidade. A campanha é muito desigual, mas apesar disso o PSOL pode ter um crescimento, ainda que ao mesmo tempo a extrema-direita eleja mais gente. Mas fiquei horrorizada ao ver a lista dos mais bem votados pra deputado em São Paulo, com Bolsonaro filho, o pastor Feliciano, Tiririca, Kim Kataguiri do MBL, Russomano... Mesmo assim vamos ampliar a bancada. A situação não é suficiente pra revertermos o quadro desastroso do Congresso Nacional.

Correio da Cidadania: O que você pode falar de sua campanha e suas bandeiras para o Senado? Qual a importância delas diante deste momento histórico?

Silvia Ferraro: É uma campanha importante politicamente pelo caráter feminista, pela defesa dos direitos das mulheres, da legalização do aborto, tema que muitos candidatos não tocam e tivemos coragem de fazer. Uma campanha que se colocou contra o golpe de 2016 e as reformas do governo Temer.

E também por ser de uma professora, mãe, que está no chão da escola, trabalha todos os dias, uma campanha de uma mulher trabalhadora e de uma lutadora vinculada à luta feminista.

Das candidaturas ao Senado em São Paulo, sou a única declaradamente feminista e isso é muito importante no atual momento do Brasil.
 
Correio da Cidadania: De todo modo, em entrevista passada você disse que não é mais possível fazer mudanças de grande envergadura por dentro da institucionalidade. O que fazer, portanto, para além do jogo eleitoral oficial?

Silvia Ferraro: A primeira tarefa é convencer as pessoas a votar numa alternativa programática ao Brasil, de ruptura de acordos com o mercado financeiro, com o agronegócio, em favor de projetos que respeitem os trabalhadores e seus interesses.

A segunda será no segundo turno, no caso, barrar uma vitória de Jair Bolsonaro. O EleNão tem que continuar, e que seja canalizado nas urnas pra evitar a vitória de candidato neofascista, que também se colocará a favor das reformas de mercado. Eles vão querer aprovar a Reforma da Previdência. E querem aprovar a Reforma da Previdência em todos os âmbitos, não só federal como estadual e municipal. A chance de mais retrocessos ainda é muito grande.

A crise econômica não vai acabar, o Brasil continuará sob tensões e precisamos aproveitar o momento pra intensificar as lutas, dos trabalhadores, das mulheres, dos sem tetos, dos LGBTs, para que um dia tenhamos condição de emplacar uma outra agenda para o Brasil. E nessa agenda não cabe a conciliação de classes.


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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