A hora e a vez da doutrina do choque no Brasil

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Parece que todos perdemos. Uma reportagem do El País descreve quem vai pagar pelo diesel. Fica cada vez mais evidente que o governo usou a greve dos caminhoneiros pra radicalizar a agenda antipopular e antinacional, debochou da sociedade aumentando o preço no dia seguinte do acordo e reprimiu eficazmente os petroleiros com ameaças de multa pela greve.

A crise virou oportunidade de lucro, como bem ensinou Milton Friedman. Estamos sob um capitalismo de desastre: para seus gestores, quanto pior melhor. Quanto mais caos, mais agressividade neoliberal. O golpe galopa. A crise o impulsiona. O governo se fez de tonto, mas tontos fomos nós aqui embaixo. Eles são programáticos, sabem o que fazer.

Independentemente da justiça da causa e do apoio popular massivo aos protestos contra o aumento do combustível. Independentemente da importante paralisação dos petroleiros apontando que o problema real era a política imperialista de preços. Independentemente de qualquer esboço de simpatia pelos novos sujeitos organizados, ou da mitificação confusa que seja criada em torno de um "Maio de 2018".

Independentemente disso tudo, existe um fato: a greve dos caminhoneiros se transformou em um subterfúgio para alçar a doutrina de choque brasileira a um novo patamar. Um novo arranjo perverso para o desmonte da economia nacional e destruição dos direitos sociais. A crise produz novas armadilhas, cada vez piores.

Uma pergunta é simples: quem pagará pelo diesel? A saúde, a educação, a pesquisa, a "reforma agrária" (atenção às aspas), as políticas de combate à violência de gênero pagarão pelo diesel. No atual andar da carruagem (literalmente), isso era bastante previsível. Porém, parece que a agenda do golpe avançou. É crucial dar atenção a outras políticas anunciadas para "pagar pelo diesel".

No mesmo pacote vieram o aumento de imposto para exportação de produtos industrializados (o que o pato da FIESP acha disso?), a redução de reservas para capitalização de empresas estatais federais, cortes em pesquisa e inovação do setor agropecuário (!), reoneração de empresas estratégicas de defesa, de transporte aéreo de carga e passageiros, de manutenção de aeronaves e embarcações... Vou até repetir: reoneração do setor de manutenção de aeronaves e embarcações. O que isso significa?

 O diesel virou o bode expiatório que faltava para acelerar uma agenda ostensivamente antibrasileira, que abre caminho para mais controle estrangeiro da infraestrutura.

Sabe essa sensação de confusão que todos atravessamos? É uma das partes mais fundamentais do choque. Para a doutrina do choque, quanto mais desgoverno e sentimento de caos melhor. Enquanto o governo parecia ter sido tomado por um imprevisto e os comentaristas econômicos mainstream não sabiam bem o que dizer, a doutrina de choque já atuava. Quando ninguém sabia dizer o que estava acontecendo, quando tudo parecia contraditório e já não sabíamos mais quem estava dobrando quem, essa é a hora e a vez da doutrina de choque.

Mas dessa vez parece que os prejudicados não são apenas os pobres, trabalhadores, negros, mulheres, indígenas, que obviamente são as vítimas diretas do golpismo. Parece que são também setores industriais e tecnológicos de classe média.

Quando surgirem novas fissuras no bloco golpista, a situação vai ficar mais confusa. E a confusão é o ativo mais valioso do golpe.

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Joana Salém Vasconcelos

Historiadora e mestre em Desenvolvimento Econômico

Joana Salém Vasconcelos

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