“Em dez anos de Marcha da Maconha não vimos avanço nas políticas públicas”

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Enquanto o país monopoliza sua atenção à histórica greve dos caminhoneiros, o mês de maio voltou a ser marcado por dezenas de Marchas da Maconha nas principais cidades brasileiras. A este respeito, entrevistamos Julio Delmanto, do Coletivo Desentorpecendo a Razão, um dos principais organizadores do evento que completa dez anos e se tornou um mosaico de pautas antiproibicionistas e libertárias, que via de regra passam longe dos grandes debates políticos e institucionais.

“As Marchas da Maconha mostraram novamente crescimento e força, estão consolidadas no cenário político nacional. A Marcha da Maconha é hoje um dos principais eventos políticos do Brasil, não tem como negar. Provavelmente, é o que mais cresce. E se os tempos têm sido atribulados na política institucional, a Marcha tem passado por fora do que alguns chamam de polarização. Não que a Marcha da Maconha seja ‘isenta’; ela é heterogênea e multicolorida, mas tem seus consensos: a horizontalidade, o pacifismo, o combate ao racismo, à homofobia, ao machismo”, afirmou.

Apesar do entusiasmo com a afirmação da marcha e a confluência de setores diversos da sociedade brasileira, Julio critica a repetição de políticas públicas fracassadas, desde o âmbito municipal até o federal. A seu ver, apesar da maior compreensão da legalização e regulação do uso de certas drogas, o Estado segue incapaz de abrir mão de suas políticas repressivas, ainda que careça de argumentos sólidos para mantê-las.

“Não tenho ideia do que serão os debates eleitorais, se é que se debate alguma coisa em eleição. Qualquer um que se diga preocupado com questões básicas como violência, racismo, direitos humanos e corrupção, por exemplo, se não tiver como central em suas propostas o fim da guerra às drogas estará sendo equivocado, senão hipócrita. Os custos sociais da guerra às drogas são gigantes e inexplicáveis”, apontou.

A entrevista completa com Julio Delmanto pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: No meio de um ano politicamente atribulado como poucos, mais uma vez dezenas de Marchas da Maconha percorreram as principais cidades do país. Qual o resumo que você faz das manifestações pela legalização da maconha neste ano de 2018?

Julio Delmanto: As Marchas da Maconha mostraram novamente crescimento e força, estão consolidadas no cenário político nacional. A Marcha da Maconha é hoje um dos principais eventos políticos do Brasil, não tem como negar. Provavelmente, é o que mais cresce. E se os tempos têm sido atribulados na política institucional, a Marcha tem passado por fora do que alguns chamam de polarização. Não que a Marcha da Maconha seja “isenta”, ela é heterogênea e multicolorida, mas tem seus consensos: a horizontalidade, o pacifismo, o combate ao racismo, à homofobia, ao machismo. Mas ela é autônoma da política partidária e institucional porque ela defende – e aplica! – uma mudança não só de leis, mas de costumes, de mentalidade.

A Marcha da Maconha funciona em rede pelo Brasil, e cada cidade tem suas formas de organização. Falando por São Paulo, o que eu destacaria desse ano – além do tamanho pesadão! - é o processo anterior à manifestação desse sábado, no qual tivemos atividades e/ou pequenas marchas nas zonas sul, leste, oeste e em Francisco Morato. Neste próximo sábado ainda vai ter na zona norte.

Junto com os blocos, que de forma autogerida levam suas vozes e demandas específicas pra Marcha, essas articulações periféricas ajudam a Marcha da Maconha a ser mais diversa e presente em outras regiões da cidade pra além do centro. A tendência é a dinâmica se aprofundar nos próximos anos, pois estamos sendo cada vez mais, e literalmente, uma marcha de muitas marchas.

Correio da Cidadania: Mais especificamente em São Paulo, onde você esteve, a marcha reuniu uma grande quantidade de pessoas. Como foi a manifestação por dentro? Outras demandas se fizeram levantar de forma associada?

Julio Delmanto: Cara, de dentro é uma loucura! Estava fazendo umas coisas no meio dela, a exemplo de fechar ruas, e vi a Marcha passar quase inteira, era muita gente! Num cruzamento ali no começo da avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde fiquei parado e parando o trânsito, ouvindo buzina e xingamento dos motoristas que tinham de esperar a marcha passar, demorou uns quarenta minutos para terminar de passar todo mundo, foi impressionante.

E tinha muita coisa, fanfarra no meio, batuque, bloco medicinal, uma kombi pra redução de danos, muito moleque jovem de quebrada (infelizmente, um número menor de minas nessa idade e rolê) e depois de um mar de gente passando lá no fundo tinha um carro com música ao vivo. Só neste pedaço final devia ter umas 10 mil pessoas, era maior que a maioria das manifestações que já fizemos – e que muitas outras por aí.

Essa música não chegava a quase ninguém da Marcha, que já tinha passado por quarenta minutos seguidos antes, pra desespero de uma mulher que me gritava “o Lula preso e vocês aqui falando disso!”. Mas também por isso é muita coisa, difícil hegemonizar num só olhar, uma só narrativa, eram muitos universos ali, todas as idades, origens, rolês. Todos legalizando na prática e mostrando que já fumam, e vão continuar fumando até a guerra acabar.

Sobre outras demandas acho que se ligam com o que eu disse: havia muita coisa, tem questões específicas que vão do uso medicinal ao ritual, tem os psicodélicos, a questão do desencarceramento e da luta contra o racismo que são mais amplas do que a guerra às drogas. Há ainda as questões do feminismo, LGBT – a Marcha foi aberta com uma intervenção de “uma travesti preta do Capão Redondo/Campo Limpo” como ela mesma, a Terra, se descreve.

Portanto, tem uma articulação grande, sim, de vozes e causas dentro da Marcha, pela legalização da maconha e por liberdade.

Correio da Cidadania: Na sexta, véspera da marcha, o prefeito Bruno Covas enviou à Câmara dos Vereadores o projeto do programa Redenção, a política de drogas da prefeitura. Como vocês avaliam o plano?

Julio Delmanto: Não temos discussão dentro da Marcha da Maconha SP sobre políticas públicas específicas. Somos contra a guerra às drogas em todas as suas matizes e demonstrações, das leis à polícia, da família à igreja.

Pessoalmente, eu observaria brevemente que os programas municipais de drogas atualmente têm se afastado muito do que é mais efetivo e digno nesse campo, que são as políticas e reflexões do campo conhecido como redução de danos. Afastando-se disso eles oferecem mais do mesmo: polícia, repressão e dinheiro para o lucrativo lobby das internações em comunidades nada terapêuticas.

Correio da Cidadania: Há cerca de um ano, uma ação policial com traços de espetáculo foi deflagrada contra os usuários da Cracolândia, no início da gestão de João Doria. O prefeito de então alegava não se tratar de mera repressão militar e haveria políticas de saúde associadas. Isso aconteceu ou o poder público apenas colocou usuários pra correr?

Julio Delmanto: Um dos blocos na Marcha da Maconha é da galera da Craco Resiste, eles podem responder melhor, se formaram exatamente como reação às políticas do antigo prefeito Doria. Evidentemente, como todos já sabiam até mesmo antes das operações, não houve nada para além da repressão militar e midiática, tão espalhafatosa quanto inútil. Se ele quisesse realmente mexer no tráfico da região teria de começar mexendo com o DENARC (Departamento de Narcóticos), com a Polícia Federal, com os bancos, com os políticos, com os juízes, todo mundo sabe, ninguém planta coca nas ruas Helvétia, Dino Bueno. Para as pessoas que frequentam ou moram ali segue o mesmo descaso, a mesma desumanidade do governo, a mesma invisibilização da sociedade.

Acho que aqui cabe uma observação: obviamente, a legalização da maconha e das drogas é positiva em relação a esse cenário, das “cracolândias”, ao propor outra forma de lidarmos socialmente com as drogas, mas o que está em questão ali é muito menos uso de drogas e muito mais uma mistura de questões sociais, como moradia, trabalho, sistema prisional, saúde mental etc. etc.

Não vai ser a legalização das drogas que vai mudar um mundo em que é normal ver uma pessoa dormindo e morando na rua, passando frio, seja usuária de qualquer coisa ou não.

Como falei antes, não temos na Marcha esse tipo de debate específico, do nível municipal e seus detalhes. Somos pelo fim da guerra às drogas, pela legalização, pelo uso medicinal, pelo plantio, contra as prisões, a militarização, a corrupção, o preconceito, a polícia, a violência, a desinformação. Até hoje não vimos leis ou políticas, de nenhum nível, caminhando nesse sentido, infelizmente.

Correio da Cidadania: No âmbito nacional, o que vocês pensam das políticas do Estado brasileiro neste mesmo sentido?

Julio Delmanto: Um pouco semelhante ao que falamos das políticas municipais. Nesses dez anos de Marcha não teve nenhum avanço institucional nas políticas de drogas, pra além de recentes aberturas no uso medicinal de maconha, e que se deram sobretudo pressionadas pelo âmbito judicial (e às vezes empresarial) – e principalmente impulsionadas desde baixo pelos pacientes e seus familiares, num processo que continua crescendo e ganhando força.  

Correio da Cidadania: Acredita que neste contexto de profunda crise e aumento do temor social que vive o Brasil, a pauta de vocês – descriminalização e regulação pública da produção e consumo da maconha e até outras drogas – pode ganhar força nos debates eleitorais?

Julio Delmanto: Não tenho ideia do que serão os debates eleitorais, se é que se debate alguma coisa em eleição. Qualquer um que se diga preocupado com questões básicas como violência, racismo, direitos humanos e corrupção, por exemplo, se não tiver como central em suas propostas o fim da guerra às drogas estará sendo equivocado, senão hipócrita. Os custos sociais da guerra às drogas são gigantes e inexplicáveis. “Enquanto tem gente morrendo tem outros enchendo a pança” já dizia o Planet Hemp, há décadas.

Correio da Cidadania: A esta altura de tantos acontecimentos históricos e debates, em escala internacional, como abordar a ideia da Guerra às Drogas?

Julio Delmanto: A nossa abordagem na Marcha da Maconha é a de questionar a guerra às drogas: tanto no lado discursivo, no sentido de questionar as ideias que estão em torno da proibição – e nisso a gente dá uma surra, argumento contra é o que não falta -, como do lado prático, afinal, o que mostramos de novo no sábado é que pode ser proibido, mas não é por isso que a gente vai deixar de fazer, de gostar, de se orgulhar. Pelo contrário, vamos fazer mais até deixar de ser proibido, até deixarem de querer nos controlar, até pararem de matar a troco de nada.



Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.


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