Conheça Bárbara Querino, jovem modelo negra presa duas vezes com provas frágeis. “É a regra”

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Ainda no rescaldo do assassinato de Marielle Franco, e as reflexões a respeito de um possível salto de qualidade no caráter da violência estatal e paraestatal no Brasil, trazemos ao leitor mais uma crônica do apartheid que marca as relações sociais e institucionais no país. Em entrevista ao Correio, Bruno Cândido Sankofá, advogado de defesa de Bárbara Querino, modelo de 20 anos residente na zona sul de São Paulo, conta detalhes de suas duas prisões, sob acusação de roubo, baseadas em imagens mostradas na televisão.

“Negar condição humana a Marielle e Barbara é o que o mundo racista e machista tem feito desde sempre. A interseccionalização das questões de cor, de gênero, geográfica e ideológica extermina a população negra, em especial pelo racismo institucionalizado. Elas representam a regra, não a exceção. A questão Marielle mostra ainda que as vestes institucionais não nos protegem, aliás, nem Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, ficou isento de ameaças e talvez coisa pior”, contextualizou.

Na conversa, o advogado detalha os pormenores que levaram à prisão de Bárbara, motivada por uma série de roubos na zona sul de São Paulo, em setembro passado. No entanto, além de alegar inocência total, em um deles, como demonstrado em matéria do site Alma Preta, Barbara mostrou sequer estar em São Paulo, mas teve seus registros de celular apagados pela polícia, dentre outras arbitrariedades bem conhecidas de parte de nossa sociedade.

“Há um vasto material acadêmico que comprova a dicotomia operante quanto a crimes relacionados a entorpecentes e ainda patrimoniais, que demostram a diferença de tratamento entre acusados negros e brancos”, disse Bruno.

A entrevista completa com Bruno Cândido Sandofá pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como analisa a segunda prisão de Bárbara Querino e a alegação que foi acolhida pela justiça?

Bruno Cândido Sankofá: As duas prisões tiveram base frágil, um reconhecimento por fotografia em sede administrativa, isto é, sem a seriedade burocrática em juízo, necessária para se limitar alguém de sua liberdade em pleno Estado Democrático de Direito.

Vale dizer que esse reconhecimento foi realizado apenas nos dois dias em que Bárbara foi equivocadamente televisionada como criminosa em uma reportagem sensacionalista. O delegado entendeu que não houve participação dela no delito, mas permitiu sua imagem negativamente televisionada. É a razão dos problemas atuais.

Correio da Cidadania: Como ela está na prisão? Tem apoio, visitas, estrutura?
 
Bruno Cândido Sankofá: Barbara está abalada. Mas é forte. Não teme o mal porque sabe de sua inocência. É visitada por sua mãe. E emocionou-se em saber que havia um movimento de familiares, amigos, políticos e ativistas pela sua liberdade.

Correio da Cidadania: Como você relaciona sua prisão e a maneira como foi tratada pela justiça com o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro?

Bruno Cândido Sankofá: A relação esta na coisificação da pele negra. Como já diz a canção, é a carne mais barata. Negar condição humana a Marielle e Barbara é o que o mundo racista e machista tem feito desde sempre. A interseccionalização das questões de cor, de gênero, geográfica e ideológica extermina a população negra, em especial pelo racismo institucionalizado.

Elas representam a regra, não a exceção. A questão Marielle mostra ainda que as vestes institucionais não nos protegem, aliás, nem Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, ficou isento de ameaças e talvez coisa pior.

Correio da Cidadania: Com as mesmas alegações, acredita que um jovem branco ou de mais posses materiais e econômicas estaria preso?

Bruno Cândido Sankofá: Há um vasto material acadêmico que comprova a dicotomia operante quanto a crimes relacionados a entorpecentes e ainda patrimoniais, que demostram a diferença de tratamento entre acusados negros e brancos.

Um exemplo mais recente é o catador de lixo Rafael Braga, preso por portar uma garrafa de pinho sol e o filho de uma desembargadora, cujo nome não citaremos, solto mesmo portando grande quantidade de drogas e armas.

Correio da Cidadania: Como enxerga a questão do chamado racismo institucional em 2018? Você concorda com essa definição?

Bruno Cândido Sankofá: Em 2018, com a execução de Marielle - e de nós junto a ela –, instaurou-se um conflito internacional onde finalmente, sob o preço de sua morte, o mundo é convidado à reflexão sobre a morte de jovens negros por execução policial e a condição da mulher negra no Brasil, que também pode se traduzir na violência institucional do parto, pra dar outro exemplo.

Significa que com a tragédia, por mais cara que nos seja, caminhamos no conflito. Movimentos sociais avançam nos conflitos. Avançamos como agências fora do Estado para ajustá-lo.


Bruno Cândido Sankofá: arquivo pessoal.

Correio da Cidadania: Colocando outra questão política na discussão, como enxerga o discurso de que o caráter do Estado brasileiro e sua violência teriam se aprofundado após a deposição de Dilma?

Bruno Cândido Sankofá: Teríamos, primeiramente, de discutir o que é profundidade no que tange violência no Brasil. E nesta reflexão devemos arguir a “invisibilidade” da violência histórica contra a população negra. Assim, quero dizer que o Estado Brasileiro sempre foi violento. Inclusive a história da corrupção mostra o rigor com que eram tratados os soldados da Coroa portuguesa, que os norteava no fim de buscar privilégios.
 
Com isso, me permita dizer, o que houve com a presidente eleita foi a continuidade de uma violência historicamente praticada contra a população negra, inclusive por seu segmento político. Só que, ao fim da história, de nós só ficam os corpos.

Repudiamos veementemente tais práticas e rogamos para que esse segmento deixe de apenas captar nossos votos e se tornem, de fato, aliado contra a violência no país, pois apenas reestruturando a condição humana da população negra poderemos ser de fato um Estado Democrático de Direito sem espaços para violações de qualquer natureza.

Correio da Cidadania: Por fim, quais os próximos capítulos do caso de Bárbara? Acredita em sua soltura?

Bruno Cândido Sankofá: Acreditamos na sua inocência. Lutamos por sua liberdade. Aguardamos a apreciação do Habeas Corpus em um dos processos. E ainda pela audiência de instrução no outro, com a máxima urgência em dar fim a esse pesadelo que representa a morte em vida de muitos e muitas jovens do Brasil.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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