Febre amarela: “consequência do corte de investimentos e demora na campanha de vacinação”

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No momento em que a implantação do Sistema Único de Saúde completa 30 anos, mais um surto de doença anteriormente controlada marca o verão brasileiro. A respeito das causas do retorno da febre amarela ao noticiário, com algumas dezenas de vítimas fatais, o Correio entrevista a médica Melina Pecora, que explica as razões de mais essa epidemia transmitido pelo mosquito aedes egypti.

“O problema se deve à falta de planejamento, que tem sua raiz em uma gestão ineficaz, aliada ao corte de programas de profilaxia e atenção básica. Ou seja, quando você diminui as consultas de rotina com o fechamento de Unidades Básicas de Saúde, automaticamente o controle das imunizações será diminuído. Pois são nessas unidades que o médico olha o cartão de vacinas e orienta a sua atualização”, explicou.

Dessa forma, Melina Pecora entra no mérito das decisões políticas dos atuais administradores da República e seu ministério, comandado por Ricardo Barros, oriundo da bancada evangélica e enfático defensor da iniciativa privada.

“As políticas para atacar as causas da epidemia deveriam ter sido feitas anteriormente, através de programas do SUS, com foco na atenção básica e primária. Em uma política de desmonte do SUS, com prioridade para empresas privadas gerirem a saúde, raramente se ataca a causa de qualquer enfermidade”, criticou.

A entrevista completa com Melina Pecora pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, a que se deve o atual surto de febre amarela?

Melina Pecora: O atual surto de febre amarela é uma questão complexa e se deve a vários fatores, entretanto algumas questões devem ser pontuadas: a saúde básica é aquela atinente às questões de prevenção e profilaxia de doenças, o que engloba humanização, bem como campanha de vacinação.

Ora, se a política atual é voltada para cortes de investimentos em saúde básica e primária teremos o reflexo na prática. As campanhas se iniciaram tardiamente após os casos de óbito decorrentes do surto que se alastrou.

Correio da Cidadania: Quais as possibilidades reais de se tornar uma epidemia de grandes proporções na população?

Melina Pecora: Diante do alastramento da patologia passou-se a buscar uma vacinação em massa. O problema se deve à falta de planejamento, que tem sua raiz em uma gestão ineficaz, aliada ao corte de programas de profilaxia e atenção básica. Ou seja, quando você diminui as consultas de rotina com o fechamento de Unidades Básicas de Saúde, automaticamente o controle das imunizações será diminuído. Pois são nessas unidades que o médico olha o cartão de vacinas e orienta a sua atualização.

Além disso, há os programas de orientação de vacinas, o que também não foi prioridade deste governo. Não estou avaliando questões partidárias e muito menos os governos anteriores, mas o que ocorreu pontualmente em termos de saúde pública e o atual surto de febre amarela tinham como ser evitados ou diminuídos em suas proporções.

Correio da Cidadania: O que pensa das campanhas oficiais de vacinação? Estão sendo feitas corretamente?

Melina Pecora: As campanhas oficiais devem ocorrer antes do aparecimento da patologia. E de maneira organizada a fim de não apavorar a população, causando as filas intermináveis, a falta de vacinas e até o extravio das mesmas.

Em uma maneira equilibrada de prevenção, analisando-se questões ambientais e populacionais, não há pânico nem óbitos em grandes proporções.

Correio da Cidadania: Há políticas, ao menos em processo de elaboração, para atacar as causas de tal problema?

Melina Pecora: As políticas para atacar as causas da epidemia deveriam ter sido feitas anteriormente, através de programas do SUS, com foco na atenção básica e primária. Em uma política de desmonte do SUS, com prioridade para empresas privadas gerirem a saúde, raramente se ataca a causa de qualquer enfermidade.

Correio da Cidadania: Não se tratava de mais um tipo de vírus erradicado em décadas anteriores em diversas regiões do país?

Melina Pecora: O vírus causador da febre amarela é um vírus da família arbovírus e gênero flavivírus. O mosquito é apenas o vetor (ou seja, transmissor).

A diferença na transmissão entre a febre amarela urbana e silvestre, é que a febre amarela silvestre é transmitida pelo mosquito hemagogus, já a urbana é transmitida pelo aedes egipty.

A febre amarela esteve controlada em anos anteriores. Não erradicada, mas controlada.

As políticas públicas envolvem também um combate ao transmissor, que é o mosquito, de maneira organizada e ordenada, bem como uma vacinação estratégica onde vivem as populações mais expostas ao risco. A vacinação deve ser estratégica e a vacinação em massa vir em um momento posterior.

Correio da Cidadania: Você enxerga tal endemia com as políticas de austeridade dos últimos anos? Há uma relação direta?

Melina Pecora: Toda política pública nada mais é do que uma escolha. Onde eu vou aplicar o dinheiro?

Com a atual gestão as opções são de retirar dinheiro das atenções básicas e aplicá-lo em especialidades, através da privatização da saúde. Com a volta de patologias antes controladas.

Correio da Cidadania: O que pensa da hipótese levantada por alguns especialistas no sentido de enxergar uma possibilidade de o surto ter se iniciado a partir das áreas contaminadas pelo rompimento da barragem da Samarco?

Melina Pecora: Todo desequilíbrio ecológico pode levar ao recrudescimento de patologias já controladas, uma vez que altera a flora e o ecossistema. Podemos ter indícios de que o rompimento da barreira da Samarco veio a corroborar com a epidemia, entretanto não há como aferir tal fato.

Correio da Cidadania: Neste 2018 completam-se 30 anos da criação do Sistema Único de Saúde. A febre amarela ser o assunto do ano seria, de algum modo, uma das sínteses possíveis da trajetória do sistema?

Melina Pecora: O SUS é formado pelo conjunto de todas as ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo poder público. À iniciativa privada é permitido participar desse sistema de maneira complementar. O SUS foi sem dúvida uma das maiores conquistas sociais da Constituição Federal.

Eu defino toda política pública como uma escolha. Uma escolha de aplicação do dinheiro público em determinados setores e serviços, com a finalidade do bem comum. Caso a política pública não tivesse esta finalidade haveria um desvio de finalidade.

A febre amarela seria uma síntese possível da escolha feita, onde não se prioriza a saúde pública. Sendo que cabe a esta questões como os esquemas de vacinação cuidadosamente estudados a fim de que se controlem os surtos, bem como esquemas de controle do vetor (transmissor). A expertise para medicina sanitária (que cuida destas questões) advém de um Sistema Único de Saúde integrado e funcional.


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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