“Doria não tem vontade nenhuma de acabar com a máfia do transporte”

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Pela primeira vez em seu mandato, Doria acatou o reajuste da tarifa de ônibus ordenado pelas empresas que dominam o setor. O MPL convocou suas tradicionais manifestações em prol da tarifa zero, mas nada feito. Em  momento algum o prefeito abriu diálogo com quem quer que fosse e os 4 reais na passagem são realidade. Sobre isso, entrevistamos Diego Soares, membro Movimento pelo Passe Livre.

“Doria na prática não demonstra ser entusiasta da iniciativa privada, ele representa um grupo de pessoas que sempre tirou vantagens do Estado, é o ‘capitalismo dos amigos’, ou seja, é o oposto da "iniciativa privada", provocou.

Além das usuais críticas ao esquema público-privado de favorecimento às empresas de ônibus, Diego também comentou sobre o atual contexto político da dita democracia, onde raramente os direitos políticos e de manifestação têm valor inequívoco, e concordou com a ideia de que existe certo ressentimento das esquerdas em relação ao MPL.

“O Brasil nunca foi democrático, Lula foi pego pelo próprio Estado que ajudou a criar, em anos anteriores houve manifestações que também não saíram do lugar, não é de hoje que os direitos estão sendo atacados. Esquerda de verdade destrói o poder”, afirmou.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como vocês do MPL encaram mais esse aumento das tarifas do transporte público em São Paulo?

Diego Soares: Temos dois gestores que estão diretamente ligados ao aumento, Alckmin (metrô/CPTM/EMTU) e Dória (SPTRANS). Alckmin não mostra nenhum tipo de novidade, muito menos sensibilidade com as necessidades da população mais pobre. Temos provas de que existe cartel, que os custos são elevados e o governador conta com a blindagem da polícia, judiciário e de parte da grande mídia.

O sindicato dos metroviários denunciou a gestão tucana sobre o processo de licitação das linhas 5 (Lilás) e 17 (Ouro), a denúncia diz que a entrega das linhas à iniciativa privada estava direcionada, estabelecendo condições que só uma empresa pode cumprir, a CCR. Posteriormente, vimos que foram eles que "ganharam" a licitação. Mesmo com todas as evidências e provas Alckmin continua impune, aumentando a tarifa pra sustentar um cartel.

Dória segue seu "padrinho" e não mostra nada de novo, descumpre promessas de campanha (não aumentar a tarifa) e mostra que sua gestão está comprometida com os "empresários amigos".

Esse aumento mostra mais uma vez que a elite nacional pretende acentuar os ataques contra os trabalhadores.

Correio da Cidadania: O que pensa da postura do prefeito em relação a isso? Houve algum diálogo com vocês, que promoveram manifestações contra o reajuste, ou com outras representações políticas e sociais, a exemplo do Conselho Municipal de Transportes?

Diego Soares: O prefeito vive de marketing e do apoio de uma classe média analfabeta politicamente. Ele não mostra nenhuma disposição pra acabar com a máfia do transporte. Tem uma retórica liberal que só fica no discurso, não existe livre concorrência na licitação dos transportes em SP, pois isso aumenta os custos. Doria atende os interesses dos empresários e não mantém nenhum tipo de diálogo com a população, não existe consulta nem na mudança de linhas de ônibus.

Correio da Cidadania: Houve mudanças entre as gestões de Doria e Haddad no transporte público da cidade e suas políticas?

Diego Soares: Dória acentuou os "ataques" contra a população mais precarizada, retirou direitos conquistados. A política é a mesma.

Correio da Cidadania: Acredita que o empresariado se sente mais à vontade com o atual prefeito, entusiasta confesso das virtudes da iniciativa privada?

Diego Soares: Depende de qual setor do empresariado, quem gera mais empregos, quem produz realmente, micros, pequenos e médios empresários, esses que pagam mais impostos, acho que não sentem diferença. Já os "grandes empresários" (os lobistas), os monopólios, esses sim ficam mais à vontade.

Doria na prática não demonstra ser entusiasta da iniciativa privada, ele representa um grupo de pessoas que sempre tirou vantagens do Estado, é o "capitalismo dos amigos", ou seja, é o oposto da "iniciativa privada".

Correio da Cidadania: Acredita que o debate da tarifa zero tenha se emparelhado com os debates a respeito de saúde e educação públicas, gratuitas e universais e, mesmo sem setores da esquerda, faltaria essa compreensão?

Diego Soares: Não acredito que emparelhou. Ainda falta compreensão da importância. Transporte público ruim e inacessível traz muitos problemas pra cidade. Esse modelo de transporte que reproduz a mercantilização do cotidiano acaba beneficiando um número restrito de pessoas.

O foco é lucrar com a ida e a volta do trabalhador, a população é tratada como gado. A lista de benefícios que a tarifa zero traz é gigante. Incide em saúde pública, poluição, trânsito, fatores econômicos, qualidade de vida etc.

Correio da Cidadania: Ainda sobre a longa disputa política e ideológica entre o público e o privado, o que o MPL comenta dos leilões das linhas 5 e 17 do metrô?

Diego Soares: Não existe licitação de verdade, é um "jogo de cartas marcadas", Alckmin continua operando como antes dos casos do mensalão, lava jato, o cartel do metrô e tudo que veio à tona nos últimos anos, como se nada estivesse acontecendo. Os escândalos aparecem na mídia, ninguém é punido e as licitações acontecem como sempre aconteceram. Não existe a tal livre concorrência que os adeptos da privatização apoiam. O que existe é um grupo de empresários que usa o Estado pra se beneficiar.

Correio da Cidadania: Agora falando dos atos de rua, como você descreve as três manifestações realizadas até agora contra o reajuste da tarifa e a relação com o poder público, mais especificamente a Polícia Militar?

Diego Soares: A corporação é usada pelo Alckmin; o governador usa a polícia pra fazer valer os seus interesses. Alckmin não respeita o Estado Democrático de Direito.

Correio da Cidadania: Sobre a última manifestação, que nem saiu do lugar, que sentimento ficou para vocês, em especial com a comoção em torno do julgamento de Lula realizado no dia seguinte e diversas afirmações de que sua condenação marcaria um ponto de inflexão na ausência de democracia de nossas instituições?

Diego Soares: Não existe ligação, Brasil nunca foi democrático, Lula foi pego pelo próprio Estado que ajudou criar, em anos anteriores houve manifestações que também não saíram do lugar, não é de hoje que os direitos estão sendo atacados.

Correio da Cidadania: Acredita que exista um ressentimento das esquerdas em relação ao MPL até hoje, por conta da explosão social de 2013?

Diego Soares: Sim, mas você olha pra direita e pra esquerda e o Estado continua lá te esmagando. Esquerda de verdade destrói o poder.

Leia também:

A sociedade contra o mercado: tarifa, violência policial, greve e o leilão do metrô

MPL: “estaremos nas ruas até o aumento ser revogado”

Estado Democrático de Mercado


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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