A expansão do PCC: “o grupo vive um dos maiores desafios de sua história”

0
0
0
s2sdefault

Em meio ao enorme desalento social e taxa de desemprego, uma das notícias mais chamativas dos últimos dias de 2017 era a que afirmava a intenção do Primeiro Comando da Capital em arregimentar 40 mil novos membros neste momento. Em tela, a já evidenciada expansão do grupo para todo o território nacional, como inclusive apareceu em vídeos da rebelião de presos na Colônia Agroindustrial do Complexo Prisional da cidade de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana de Goiás. Neste sentido, entrevistamos o jornalista Iuri Salles, que em 2014 publicou o livro PCC – Dias Melhores Não Virão.

“A explicação (da expansão da organização) é simples: quando o PCC já era uma facção estruturada financeiramente e organizada as autoridades de São Paulo distribuíram as suas lideranças por todo o território nacional - isso há mais de uma década. Essas lideranças plantaram as sementes e agora estamos colhendo os frutos. Outro fator é o capitalismo: o PCC hoje é uma empresa de grande porte, com faturamentos absurdos, e é natural que uma empresa que domina o mercado em São Paulo procure expandir seus negócios”, analisou.

Iuri Salles é um jornalista de 27 anos, formado na FMU e que cresceu no Jardim Hebrom, extremo norte de São Paulo. Como mostra a conversa, viu de perto o modo de atuação e crescimento – empresarial e econômico – da organização surgida há mais de 20 anos dentro dos presídios paulistas. E, como explica ao longo da entrevista, vive uma expansão que guarda total similaridade com as conquistas de novos mercados que marcam as disputas econômicas de qualquer setor.

“O PCC vive hoje um dos maiores desafios de sua história, que é penetrar em outros estados, onde já existem facções instaladas. PCC está em guerra por expansão fora de São Paulo e mantém sua matriz rentável como sempre. Parece que a facção vai atingir seus objetivos e daqui uns 10, 15 anos acredito que vai ser, definitivamente, um grupo criminoso com alcance nacional”.

A entrevista completa com Iuri Salles pode ser lida a seguir.


Iuri Salles. Foto: arquivo pessoal

Correio da Cidadania: O que te levou a escrever o livro PCC – Dias Melhores Não Virão e como foi sua pesquisa e produção?

Iuri Salles: O que me motivou a escrever o livro foi a vontade de produzir um conteúdo jornalístico que impactasse a juventude periférica. Eu queria que a classe média acessasse o conteúdo e falasse “nossa, é assim que funciona” e os moleques de quebrada se identificassem e percebessem a realidade daquilo.

O processo de pesquisa se iniciou muitos anos antes, ainda dentro de casa, pois com cerca de 11 anos eu já visitava um parente em presídios. Ele, hoje evangélico, integrou a facção por cerca de uma década, e de certa forma eu absorvi essa vivência e conseguia entender por um olhar externo como o grupo funcionava.

Muitas outras coisas eu presenciei na rua mesmo, como o PCC mediando conflitos entre moradores na periferia. E a parte da pesquisa foi feita com entrevistas, arquivos, conversei com procuradores, promotores, policiais, jornalistas e instituições.    

Correio da Cidadania: De 2014, data da publicação do trabalho, até aqui o que mais você acrescentaria a respeito da organização?

Iuri Salles: Acredito que a grande novidade, que já foi prevista no livro, foi a expansão do PCC para o Brasil inteiro. O que era óbvio que aconteceria está em prática agora.

Correio da Cidadania: Falando nisso, em 2017 vimos rebeliões em presídios do Norte do país e no Espírito Santo em janeiro, além de conflitos abertos no Rio de Janeiro e na rebelião em Goiânia já em 2018, que, entre outros fatores, representaram uma penetração da organização paulista nesses locais. Também ouvimos falar de sua entrada em estados do Nordeste. Como você explica toda essa expansão nacional do PCC?

Iuri Salles: A explicação é simples: quando o PCC já era uma facção estruturada financeiramente e organizada as autoridades de São Paulo distribuíram as suas lideranças por todo o território nacional - isso há mais de uma década. Essas lideranças plantaram as sementes e agora estamos colhendo os frutos. Outro fator é o capitalismo: o PCC hoje é uma empresa de grande porte, com faturamentos absurdos, e é natural que uma empresa que domina o mercado em São Paulo procure expandir seus negócios para fora do estado também.

Correio da Cidadania: O que pensa da notícia do final do ano a afirmar que o PCC visava conseguir 40 mil novos membros?

Iuri Salles: Não sei te dizer se isso é real, mas, pensando dentro do panorama que o PCC busca expandir nacionalmente seus negócios e doutrina, me parece possível que a chegada de novos membros seja algo necessário e esteja em pauta dentro da facção. Resultado de imagem para pcc dias melhores nao virao
O livro publicado em 2014, ao lado do também jornalista Pedro Cerantula

Correio da Cidadania: De outro lado, repercute a informação de possível disputa com outras facções em partes da periferia de São Paulo, algo que estava fora de qualquer cogitação nos últimos anos. O que pensa disso?

Iuri Salles: Vejo como boato, acredito que as chacinas que ocorreram em São Paulo recentemente não têm nada a ver com outras facções, tanto é que as cápsulas encontradas nos crimes são de .40, armamento da PM de São Paulo.

Não me parece inteligente acreditar que facções sem o know-how de décadas do PCC se arrisquem a vir até São Paulo pra matar pessoas a esmo, até porque isso não interfere no controle do tráfico de drogas.

Correio da Cidadania: Como você descreve a relação da organização com as populações dos bairros onde atua e se insere de forma mais aberta?

Iuri Salles: Isso ocorre de forma muito orgânica, o PCC não chega e se instala num bairro periférico, ele surge naturalmente ali, com pessoas que quase sempre residem uma vida inteira naquele local. Acho que a forma mais direta dessa interação entre facção e comunidade acontece na questão de controle sobre as brigas internas do bairro. Hoje ninguém mais pode matar outra pessoa dentro de uma favela sem o consentimento do PCC. E isso fica claro quando você cruza o crescimento do PCC com a queda no número de homicídios; as duas coisas acontecem simultaneamente em São Paulo.

Correio da Cidadania: Ante a isso, como observa discursos oficiais quando atribuem a suas políticas de segurança a diminuição no número de certos crimes?

Iuri Salles: O número de homicídios em São Paulo caiu por causa do PCC, por mais chocante que possa ser. Ainda que de forma criminosa, a facção conseguiu reduzir tal tipo de crime. Ocorre que existe uma “disciplina” dentro das periferias que diz que vida se paga com vida. E quem faz essa cobrança é a própria facção, ou seja, se você matar alguém sem autorização você também vai morrer. Esse é o ponto chave para a queda de homicídios em São Paulo.

Correio da Cidadania: Considera que existe negociação direta entre crime organizado e altos representantes do Estado? Indo mais além, seria possível que esses representantes do Estado ignorassem tal mediação?

Iuri Salles: Acho que existem acordos instituídos, pelo menos em São Paulo, como o próprio Marcola falou a respeito. O Estado entregou o controle dos presídios para o PCC, em troca, o Estado tem cadeias sem rebeliões e mortes. Mas se um dia o Estado quiser de fato recuperar o controle dentro do sistema penal vai ser difícil. E não pela dificuldade prática, que seria ter mais homens, um sistema de segurança melhor, profissionais mais preparados, isso tudo é possível.

O problema é aguentar as consequências. O PCC se estruturou de tal forma que pode fazer muito pior do que em 2006. Ou seja, o que já foi confortável para o Estado, hoje o torna refém; ou ele deixa o PCC controlando os presídios, o que é um ponto chave para a manutenção do poder da facção, ou enfrenta uma crise na segurança pública cujas proporções são difíceis de imaginar.

Correio da Cidadania: Você entrevistou funcionários de polícias e segurança pública, a respeito das possibilidades de extinção ou neutralização deste tipo de organização. Considera isso possível?

Iuri Salles: Hoje não acredito, pelo menos não por forças do Estado. O PCC vive hoje um dos maiores desafios de sua história, que é penetrar em outros estados, onde já existem facções instaladas. PCC está em guerra por expansão fora de São Paulo e mantém sua matriz rentável como sempre. Parece que a facção vai atingir seus objetivos e daqui uns 10, 15 anos acredito que vai ser, definitivamente, um grupo criminoso com alcance nacional.

Correio da Cidadania: Que importância você atribui à legalização de certas drogas de consumo ilícito para a sociedade brasileira, ainda mais neste ano eleitoral, onde o discurso de combate à criminalidade voltará a ocupar grande parte das campanhas?

Iuri Salles: Seria um duro golpe, o tráfico de drogas é o carro chefe da facção, mas o PCC já tem outros negócios também. Ainda assim, tirar a droga do PCC é a mesma coisa que tirar a carne da JBS.

Link para download do livro PCC - Dias Melhores Não Virão

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados