MPL: “estaremos nas ruas até o aumento ser revogado”

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No fim da tarde desta quinta-feira (11) houve em São Paulo a primeira manifestação do ano contra novo tarifaço nos transportes públicos, que chegam aos 4 reais. Convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL), o protesto contou com cerca de 5 mil participantes em seu ápice e sofreu repressão da Polícia Militar no momento final.

“Canastrão, mimado e senhorzinho de Casa Grande” foi como Toninho Véspoli, vereador pelo PSOL e presente na marcha, definiu João Doria em análise do primeiro semestre de gestão do prefeito, em entrevista para este Correio. Na ocasião, Doria já havia aumentado o valor das integrações, bilhetes temporais e realizado cortes no passe estudantil. Percebendo a empatia do prefeito que não esconde seu fervor pelo setor privado e corporativo, há meses as empresas que exploram o serviço cortam algumas linhas e aumentam o tempo de espera de outras.

Agora, neste início de ano, Doria quebrou sua promessa eleitoral de congelar a tarifa, elevando-a para 4 reais em tempos de profunda crise econômica e desemprego. “O aumento vai excluir ainda mais gente da vida na cidade”, criticou Anna, de 20 anos, estudante de pedagogia e militante do MPL (o sobrenome foi preservado a seu pedido).

“Uma pessoa que mora na periferia e precisa pegar mais de uma condução para vir ao centro trabalhar – basicamente, a vida do pobre hoje em dia é ir da periferia para o centro trabalhar e depois voltar pra periferia, sem fazer nenhum outro uso do espaço da cidade – o gasto será de 7 reais pra ir e 7 para voltar. São 14 reais por dia pra ir e vir do trabalho – levando em consideração que muitos pegam ônibus e metrô ou ônibus e trem devido à distância. Somando os cinco (ou seis) dias da semana e as quatro semanas do mês, dá um terço do salário mínimo. E tem gente que está precisando tirar da comida e de outras necessidades para poder circular pela cidade”, explicou.



De acordo com a militante, o problema reside na forma como o transporte público é pensado em São Paulo. “Tratam como uma mercadoria, não um direito. Doria, assim como quase todos os prefeitos que já geriram a cidade, pensa no transporte a partir de uma lógica mercadológica, que serve aos empresários de ônibus. Pensa no lucro deles e não no interesse da população. Nós defendemos a tarifa zero, ou seja, que todo mundo possa circular pela cidade livremente”, afirmou.

Por volta das cinco da tarde começou a concentração para a manifestação em frente ao Theatro Municipal. Se por um lado a tempestade que caiu sobre a cidade deixou a concentração mais tímida, por outro, o aparato policial estava bastante numeroso. Embaixo e em cima do Viaduto do Chá, ao longo da fachada do Theatro e em todas as ruas da região da Praça Ramos Azevedo havia um enorme contingente policial esperando pelos manifestantes.



O clima era de algum desapontamento na concentração, dada a presença massiva das forças repressivas e o baixo número de manifestantes presentes, mas após a saída da marcha, por volta das 18h, o número de pessoas foi aumentando consideravelmente. Poucos metros adiante do Theatro, quando passava em frente à prefeitura e se gritavam impropérios ao gestor da cidade, já era possível notar o crescimento da multidão.



A adesão ao protesto veio em sua maioria de jovens. E era possível notar um traço bem heterogêneo: desde jovens periféricos a estudantes universitários de classe média, além de secundaristas. Também foi notável a presença de partidos políticos de esquerda como o PSOL, PSTU e o POR – além de grupos, coletivos e movimentos autônomos existentes na cidade que defendem pautas adjacentes como moradia e saúde. A UNE, PC do B e a Frente Povo Sem Medo também marcaram presença, ainda que mais timidamente.

No começo do trajeto, o ato passou em frente a uma prefeitura entrincheirada – com uma dezena de veículos da GCM guardando sua portaria – e seguiu para a praça da Sé.



No meio do caminho, exatamente em frente à Secretária de Segurança Pública, foi que vimos as forças policiais começarem a provocar os manifestantes com ameaças de uso da força, como podemos notar na foto acima em que um policial apontava a todo momento sua escopeta em direção à multidão. Um colega jornalista pedia calma ao comandante enquanto manifestantes respondiam à provocação pedindo o fim da PM. Alguns metros adiante, ROCAMs observavam o movimento.



Já na Praça da Sé, enquanto a manifestação se dirigia para a Praça João Mendes, policiais manobravam seus escudos após um manifestante acender  sinalizador – daqueles de torcida de futebol.  



Da João Mendes, a marcha desceu a rua Anita Garibaldi sentido Terminal Parque Dom Pedro sem maiores problemas. Gritando palavras de ordem contra a tarifa a multidão foi engrossando, com pessoas saindo dos seus trabalhos e aderindo. Neste momento, o protesto chegou a contar com cerca de 5 mil participantes.

Em frente ao Terminal Parque Dom Pedro as tensões se acirraram. O pelotão dos escudos se posicionou em frente à entrada do terminal para impedir um possível catracaço e a rua estreita, com fileiras de PMs nas laterais, diminuiu o espaço dos manifestantes. Mas o protesto seguiu em frente pela Rangel Pestana até a entrada do trem da estação Brás, onde se encerrou.

Como praxe em tais ocasiões, um grupo invadiu a estação e tentou promover a tarifa zero de forma autônoma, isto é, na correria. Dentro da estação, portões foram fechados, impedindo usuários de entrar e sair e enquanto manifestantes e usuários em geral tentavam furar o bloqueio para irem embora bombas foram lançadas.



Em transmissão ao vivo feita via Twitter por Ignacio Lemus, correspondente da Telesur em São Paulo, é possível ver um metroviário se desculpando com um usuário revoltado com o fechamento das portas e dizendo que foi uma “ordem superior”, com qual não concordava, mas tinha de acatar para não perder o emprego. A interdição da entrada na estação durou quase uma hora, mesmo após quase todos os presentes terem tomado o rumo de casa.

No final das contas, três manifestantes acabaram detidos e logo foram liberados. Também houve alguns feridos – entre eles um militante do MPL, ferido na Estação Brás e que terminou a noite com 5 pontos na cabeça. Além dele, um grupo que tentou caminhar até a estação Bresser-Mooca acabou encurralado e agredido por policiais. Por outro lado, um PM foi ferido por uma pedrada no rosto após atirar bombas de gás contra cadeirantes, segundo relatos de comunicadores independentes que presenciaram a cena.

“Sabemos que há um histórico de repressão. Desde o começo do MPL sempre houve muita repressão, pois a pauta toca a todos os trabalhadores e toda a população. Não temos como prever ou controlar a força e as ações policiais, mas estaremos nas ruas independentemente da repressão e resistindo até conseguir que o transporte público seja gratuito, ou seja, até a tarifa zero se tornar realidade”, afirmou a militante Anna ao ser indagada sobre o aparato policial presente.

Apesar da repressão no final do ato e de algumas provocações pontuais ao longo do trajeto, foi possível notar uma postura mais contida da Polícia Militar se comparada a jornadas passadas. Podemos especular que o ano eleitoral associado a uma perda de prestígio das lideranças do PSDB – tanto pela fanfarronice de Doria como pelos processos contra Alckmin a respeito dos carteis do metrô avançarem na justiça paulista – sejam as razões desta postura. O fato de o próprio aumento em si já provocar desgaste com parte da opinião pública complementa a conjuntura.

Neste sentido, tal como em anos anteriores, diversos empregados dos prédios do centro, vários deles de repartições públicas, empregados de lanchonetes e moradores das ruas por onde a marcha passava faziam filmagens, tiravam fotos e manifestavam apoio à passeata. “Valeu, vocês estão certos. Obrigada! Continuem!”, gritava uma mulher de sua sacada em um dos prédios da Rangel Pestana, já na dispersão do ato, ou seja, após as explosões e corre-corres que marcaram o desfecho.

Provavelmente, a prefeitura tentará vencer as mobilizações pelo cansaço, jogando com o calendário e a recusa em dialogar, tal como nos aumentos de 2015 e 2017.

Do lado dos manifestantes, a marcha de ontem foi considerada positiva e espera-se que nas próximas semanas mais gente compareça. O Movimento Passe Livre afirma que não sairá das ruas enquanto o aumento não for barrado e aposta na mobilização e engajamento popular para atingir seus objetivos.

“Sabemos que o MPL sozinho não vai barrar o aumento ou conseguir a tarifa zero, somos um movimento que luta pelo transporte e está propondo o debate. Esperamos que toda a população se mobilize por essa pauta. Com a mobilização popular o poder público vai ter de ouvir as ruas e, no mínimo, barrar o aumento”, concluiu Anna.

Para isto, o MPL convocou um segundo protesto contra o aumento das tarifas do transporte público para a próxima quarta-feira, 17 de janeiro, em frente à casa do prefeito João Doria, no bairro dos Jardins. O mesmo foi tentado em janeiro passado, mas a atuação militar impediu que o ato se dirigisse ao endereço em questão.








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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.
Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.

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