“O debate sobre o racismo é a maior pólvora da luta de classes no Brasil”

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Enquanto o pacto social faz água no Brasil, manifestações de um conservadorismo tão caricato quanto de passado deplorável assustam o país e roubam tempo da discussão política e econômica. Enquanto isso, o desmonte geral dos marcos protetivos dos trabalhadores brasileiros promete atingir mais em cheio os setores das chamadas minorias. Neste contexto, entrevistamos Douglas Belchior, uma das principais figuras do movimento negro brasileiro, que na semana passada marchou pelas ruas do país.

“Agora percebemos a volta do Brasil a seu eixo mais cotidiano, habitual, ou seja, a posição ultraconservadora, de radicalmente explicitar a natureza da formação social brasileira, cuja característica é escravocrata. Vivemos avanços e experiências tímidas, e agora vivemos mais uma reversão deste processo. É uma reação ao nosso avanço? Sim, também existe essa dimensão. Mas acima de tudo é uma obediência à natureza do Estado brasileiro e ao perfil das elites estúpidas que o Brasil constituiu”, analisou.

Além de contar um pouco de sua trajetória, Belchior reafirma o caráter inequivocamente racista e escravocrata da formação social brasileira, o que ainda reflete nos ódios que pareciam extintos de nossas relações cotidianas. Em sua visão, esse racismo estrutural voltou a ser presente na chuva de críticas à ministra Luislinda Valois, que requereu em público salário acima do teto constitucional, a exemplo de tantas outras autoridades.

“Há outro pensamento que vale registrar: não podemos cobrar de negros e negras uma moral e uma ética, ou uma coerência, maiores do que cobramos da sociedade de modo geral. Sofremos muito com isso e tem a ver com o racismo também. Por que a negra não pode errar, a negra não pode se equivocar politicamente, a negra não pode ser de direita, esquerda, centro, sem posição?”, ponderou.

Dessa forma, Belchior, também professor da Uneafro, reforça o traço histórico que agora se volta raivosamente a setores que muito timidamente tiveram suas demandas históricas atendidas, em especial após a Constituição de 1988.

“A analogia que faço é terrível: políticas sociais e de igualdade de oportunidades, quando são genéricas, atingem menos o povo negro. Ao mesmo tempo, qualquer retirada de direitos, mesmo genérica, atinge especialmente o povo negro, pois este é aquele que mais especialmente necessita dos serviços públicos e direitos básicos”, resumiu.

A entrevista completa com Douglas Belchior pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Qual o significado da Consciência Negra na atual conjuntura do Brasil e também do momento histórico que observamos?

Douglas Belchior: Tem o significado que sempre teve, de importância revolucionária, dado que o povo negro sempre foi historicamente a massa dos oprimidos no Brasil. No conceito de Steve Biko, revolucionário africano, consciência negra é a ideia da percepção dos negros e negras de sua condição e realidade.

A partir disso, é união e ação conjunta para mudar a realidade. O exercício da negritude é a ação consciente do povo negro em sua tarefa de romper amarras e correntes que nos oprimem até hoje. A tomada de consciência negra no caso brasileiro é, atualmente, o principal potencial em termos de luta de classes.

O debate sobre o racismo no Brasil é a maior pólvora da luta de classes do país. O reconhecimento do racismo como estrutural das relações, desigualdades e conflitos sociais no Brasil tem em seu bojo a grande pólvora da luta de classes aqui.

Correio da Cidadania: Como você começou a militar pela causa negra?

Douglas Belchior: Vivi minha infância na divisa de Itaim Paulista, último bairro de São Paulo, com Poá, Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos, entroncamento que divide quatro cidades. Acompanhei minha mãe no ativismo na Igreja Católica, na Comunidade Eclesial de Base. Depois, na escola, participei de mobilizações e grêmios estudantis.

Adiante, entrei em cursinhos populares e comunitários para negros e tive a consciência despertada. A partir daí, com 17, 18 anos, passo a fazer luta política no movimento e sempre no campo da esquerda. Já tenho 39 anos, portanto, já temos duas décadas de caminhada.

Correio da Cidadania: Quais as grandes diferenças que uma pessoa como você sentiu ao longo do tempo em relação a tratamento e oportunidades de vida, e o que mudou desde quando você começou esta trajetória até aqui?

Douglas Belchior: A vida de uma pessoa negra num país racista como o nosso é completamente diferente de outra não negra. O negro aqui nasce condenado a enfrentar muito mais barreiras, impedimentos e negativas. Em todos os sentidos e quaisquer dimensões da vida. Uma pessoa branca, num país como esse, nasce com muito mais caminho aberto e possibilidades de desenvolvimento.

É o que sinto desde sempre. E como sempre estudei – apesar da família muito pobre minha mãe sempre se dedicou a demonstrar a importância do estudo – consegui ocupar espaços de destaque ou me saí bem nos espaços de trabalho, desde meu primeiro emprego.

Comecei a trabalhar muito cedo como comerciante de rua, vendendo geladinho na passarela da estação de trem de Ferraz, com 8 anos. Depois tive banca de doce na divisa de Poá com Ferraz, na Vila Romana. Com 13, fui para uma empresa, guarda mirim de uma fábrica. E era o único negro, praticamente criança, que estagiava no departamento de pessoal da fábrica.

Sempre me articulei e desenvolvi bem, lia muito, e assim conseguia me destacar no trabalho. Acumulei tarefas e funções que muitas vezes as pessoas duvidavam. Cheguei a presidir o clube da empresa, responsável pelos convênios que se faziam com lojas de roupas, de esporte, como benefícios aos associados. Muitas vezes as pessoas procuravam o clube para fazer convênio e duvidavam que era eu o responsável.

Enfim, eu sempre senti a negação. Apesar de mostrar na prática a capacidade, a desconfiança sempre existe. É assim até hoje, na vida de todos os negros do Brasil. Nós temos que provar no mínimo duas vezes o que somos, provar mais do que qualquer um precisa, para sermos vistos, entendidos e respeitados. Não tenho nenhuma dúvida de que se fosse branco, com a trajetória e acúmulo de experiência que tenho, além da atuação que desenvolvi ao lado de outros companheiros e companheiras de movimento negro, estaríamos todos em outro patamar, em outros lugares, com outro nível de organização, poder e condição de representatividade.

Mas ser negro fecha portas, limita atuações e a própria vida.

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Marchas em diversas capitais marcaram o último 20 de novembro. Foto: Solon Neto, Alma Preta.

Correio da Cidadania: Como enxerga a atual ascensão de movimento ou ao menos expressões ultraconservadoras na sociedade brasileira? Trata-se de uma reação tardia, exasperada, à ocupação do espaço do debate pelas ditas “minorias”?

Douglas Belchior: Vivemos agora um processo histórico que sempre existiu. Desde a invasão europeia e início do estupro histórico de nossa terra, primeiro no genocídio indígena e depois das populações africanas. Destes 517 anos, foram 388 de escravidão mercantil, três quartos da história. E não consideramos as permanências de tal período neste último quarto de história.

Imaginemos que depois da escravidão vivemos três décadas de transição, em que o poder ainda era radicalmente centralizado nas mãos de fazendeiros e, no transcorrer da história, vivemos mais duas ditaduras militares. Ou seja, as tentativas democráticas foram muito curtas. E mesmos nesses períodos de tentativa de experiência democrática – porque não considero que se tenha vivido democracia em nenhum momento – a situação da população negra sempre foi muito ruim, a perversidade das elites sempre foi muito grande.

Agora percebemos a volta do Brasil a seu eixo mais cotidiano, habitual, ou seja, a posição ultraconservadora, de radicalmente explicitar a natureza da formação social brasileira, cuja característica é escravocrata.

Vivemos avanços e experiências tímidas, e agora vivemos mais uma reversão deste processo. É uma reação ao nosso avanço? Sim, também existe essa dimensão. Mas acima de tudo é uma obediência à natureza do Estado brasileiro e ao perfil das elites estúpidas que o Brasil constituiu. Tanto pelas altas elites proprietárias como pela classe média ideologicamente dominada pelos interesses e também mediocridade da referida elite. Pois esta é estúpida, reitero, não acredita no país e por isso é entreguista. Abaixo dela, uma classe média que tampouco tem interesse na construção do país como nação, para além dos seus interesses particulares.

O Brasil é fruto de uma experiência colonial e escravocrata, das mais perversas, senão a mais perversa e duradoura da história da humanidade, e é a partir de tal lugar que surge o Brasil que conhecemos. Assim, não há nenhum elemento da sociabilidade brasileira desprovido deste traço fundamental e característico, que continua sendo o da escravidão. No entanto, jamais foi assumido como pressuposto da nossa existência.

Correio da Cidadania: Como enxerga a disputa pelo imaginário da periferia, desde evangélicos até grupos de esquerda e talvez mais recentemente direita? O que poderia, de fato, satisfazer essa parcela da população excluída do universo de políticas públicas mais virtuosas, onde os negros são ampla maioria?

Douglas Belchior: É uma disputa ideológica que abarca toda a sociedade. Não é nova, apesar de ser óbvio que há mudanças em alguns aspectos. Novas narrativas, vertentes, grupos políticos que se destacam vez ou outra. Mas é a mesma disputa de sempre.

Desde o fim da escravidão e início da República, há a construção de instituições cuja tarefa principal é manter o poder, a opressão e o controle em relação à massa da população, de maioria negra. E são instituições que não garantem o controle pela força objetiva, como na escravidão, mas também pelo controle do imaginário, das ideias, da opinião, enfim, da ideologia.

As instituições se formam com esse fim. A escola é profundamente dirigida para tal tarefa, as religiões – não só uma ou outra – têm cumprido esse papel, a nossa cultura sempre fez da própria família um espaço de formação conservadora. E assim chegamos às instituições do próprio Estado, espaços políticos, legislativos e judiciários, que reproduzem e fortalecem tal ideário.

No campo privado, temos o espaço para o surgimento e crescimento de uma megaindústria de produção de informação, de grandes mídias, além das indústrias da cultura e do entretenimento. Tudo somado forma a cabeça das pessoas e a disputa mencionada na pergunta sempre se deu. Daí que nosso povo sempre teve mentalidade conservadora, não é algo simples falar da mentalidade de um povo que teve 400 anos de escravidão e vive a persistência de tal lógica, mesmo no pós-escravidão. Vivemos o fruto dessa situação toda.

A agressividade do discurso de agora assusta um pouco porque há coisas que nunca foram ditas antes. Mas a lógica da palavra não dita sempre foi posta em prática.

Correio da Cidadania: Diante disso, como analisa as inúmeras exortações de certa esquerda por um “estado democrático de direito” que teria sido quebrado com o impeachment de Dilma. Um governo dito progressista que sob sua gestão viu dobrar a população carcerária deveria falar nesses termos?

Douglas Belchior: Se a gente imaginar o Brasil por uma linha histórica, vamos perceber que foram poucos e curtos os espaços e momentos de tentativas de experiência democrática. Não vivemos democracia, mas momentos onde se tentou tal experiência. Aconteceu um pouco antes da ditadura dos anos 30, depois nos anos 50, e agora na fase pós-1985.

Portanto, tentativas. A ponto de só conseguirmos avançar alguns passos mais explícitos, em termos de garantias constitucionais, em 1988. Agora, sofremos um golpe, justo no momento em que os setores populares foram audaciosos a ponto de colocar em prática – mesmo com muitas limitações e parcimônia – alguns aspectos da Constituição de 88.

É um equívoco chorar a democracia derramada. Ela não existia, não enchia o copo. Não dá nem pra chorar o leite derramado porque não tinha leite no copo. É a analogia que faço. Nossa tarefa histórica é construir um ambiente de democracia real.

Correio da Cidadania: Sobre o atual governo, o que pensa do episódio de Luislinda Valois e sua reivindicação salarial acima do teto constitucional? Acredita que houve oportunismo em certas críticas, independentemente da avaliação que se faça da atitude da ministra?

Douglas Belchior: A Luislinda Valois é equivocada politicamente. Ela tem uma posição da qual discordo, não representa o histórico de luta e elaboração do movimento negro. Ela não é uma pessoa representativa de tal segmento da sociedade, em termos de propostas defendidas e formuladas por esse setor organizado. Não nos representa e nunca representou. Mesmo antes de ocupar o atual cargo.

Ela é uma mulher negra e por isso merece nosso respeito. Mas equivocada politicamente, como dito aqui. Sendo equivocada, formulou um pedido infeliz. Mas o fato de ser negra transformou tal equívoco. Se comparado com o equívoco dos brancos que ocupam postos similares, foi colocado numa proporção muito maior.

É claro que as críticas que recebeu por seu pleito e pelos erros de suas posições políticas são corretas. Porém, algumas críticas carregavam no preconceito, por razões óbvias. E é verdade que houve também gritos mais altos e mais repercussão que em relação a erros cometidos por brancos. Vimos que há muitos servidores e cargos comissionados que recebem muito acima do teto. E ela quis se igualar a pessoas que cometem erros e recebem mais do que a legislação propõe. Ela não é nem melhor nem pior que os outros, mas é tratada como pior por ser negra. Sem dúvida alguma o racismo apareceu.

Ainda a respeito, há outro pensamento que vale registrar: não podemos cobrar de negros e negras uma moral e uma ética, ou uma coerência, maiores do que cobramos da sociedade de modo geral. Sofremos muito com isso e tem a ver com o racismo também. Por que a negra não pode errar, a negra não pode se equivocar politicamente, a negra não pode ser de direita, esquerda, centro, sem posição? Negros e negras são pessoas que têm todo o direito do mundo de se equivocar, sendo apenas iguais aos outros nesse sentido.

A disputa ideológica se dá em todos os campos da sociedade, inclusive entre negros. Assim como não é simples cobrar consciência de classe de trabalhadores pobres, para que se sindicalizem ou compareçam a manifestações por direitos, entende? Assim como não é tranquilo exigir que todas as mulheres tenham consciência de gênero, do patriarcado histórico e devem estar juntas na luta contra a opressão. Não é nada fácil.

Nós somos alvos de um furacão permanente, uma avalanche ideológica, que forma nossas cabeças e opinião, e muitas vezes nos fazem reproduzir o pensamento do opressor. Portanto, não somos muito diferentes dos demais segmentos. Muitas vezes as críticas aos negros, por terem posições equivocadas, são exageradas. E se devem ao elemento racial.

Correio da Cidadania: Pra finalizar, o que esse governo e Congresso, com suas políticas completamente voltadas ao mercado e em especial aos grandes capitais privados, significam em termos práticos para o povo brasileiro de modo geral, e aos negros mais em particular, dado que suas desvantagens socioeconômicos já estão amplamente demonstradas?

Douglas Belchior: É óbvio que numa sociedade estruturalmente racista como a nossa, em que a pobreza, as desigualdades e violência atingem sobremaneira a base social da pirâmide, majoritariamente negra, qualquer política que tenha objetivo de diminuir direitos vai atingir desproporcionalmente a população negra.

É exatamente o que acontece. A analogia que faço é terrível: políticas sociais e de igualdade de oportunidades, quando são genéricas, atingem menos o povo negro. Ou seja, iniciativas positivas quando não focadas no negro tendem a atendê-lo menos. Por quê? Porque vai atingir primeiro os brancos pobres, pois há uma hierarquia racial que estabelece a desigualdade de acesso a oportunidades.

Ao mesmo tempo, qualquer retirada de direitos, mesmo genérica, atinge especialmente o povo negro, pois este é aquele que mais especialmente necessita dos serviços públicos e direitos básicos. Isto é, quando a iniciativa política é boa o negro é o último a usufruir dela. E quando é ruim os negros são alvo preferencial e imediato. Essa é a síntese do Brasil.

Leia também:

Des-Pensando o racismo colonial

Movimentos negros repudiam ministra Valois

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

Comentários   

0 #1 Direitos HumanosJosé Marques 28-11-2017 20:49
A atuação das UPP (Unidades pacificadoras no RJ), e da própria Policia Militar, esquadrões da morte. Será que se preso votasse adiantaria? Os assassinatos dos moradores de rua?
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