Uma semana como qualquer outra no maravilhoso mundo da democracia liberal

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Começamos o texto apresentando um ponto de vista ignorado por todos aqueles que dispõem de alguma inserção na política institucional e nas engrenagens do Estado brasileiro: não fossem os anarquistas, autonomistas, socialistas sem partido ou como se queira chamar, as manifestações de junho de 2013 jamais teriam ocorrido.

Passado recente

Todos sabem que o Movimento Passe Livre e suas manifestações contra o aumento da passagem do ônibus em São Paulo foram o pontapé inicial de protestos que ganharam amplitude social e nacional, reunindo uma miríade de pautas reprimidas pela política vigente. E todos sabem que a impressionante violência policial foi o que conquistou a solidariedade da cidadania e animou-a a sair às ruas. Boa parte viveu naqueles dias sua primeira experiência de participação política.

Tais manifestações já entraram para a história, e devem voltar a entrar, pois expressaram uma crise já insolúvel de uma dita democracia de cerco fortemente fechado pelos interesses dos velhos e novos monopólios econômicos, estes sim a ditar todas as políticas públicas e possibilidades eleitorais. E como se veria adiante, uma perfeita expressão de um modelo econômico esgotado.

O que muitos fingem não saber é que este movimento de modesta robustez, mas bastante militância acumulada, representa uma nova geração de pessoas que se enxergam à esquerda do espectro político, mas marcam distância de partidos, sindicatos e agrupamentos vinculados a uma política que compreendem insuficiente para representar seus anseios. “Nossos sonhos não cabem nas suas urnas” é um dos slogans que marcou época na década, inclusive globalmente.

Anti-institucional por concepção inegociável, tal tipo de movimento e seus participantes sofrem discriminações por todo o espectro político. Tradicionalmente, foram escanteados dos espaços e debates até da esquerda, inclusive a que se reivindica anticapitalista. Desse modo, as manifestações de junho sofreram (e até hoje sofrem) tentativas de sequestro por todos os lados.

Depois de exigir tiro, porrada e bomba da Polícia Militar, o que quase provocou mortes naquelas jornadas, a mídia comercial e franca defensora dos interesses capitalistas (ou seja, das empresas que aumentaram a tarifa) sentiu-se no pleno direito de começar a pautar os manifestos. Da noite para o dia, Globo, Veja, Folha de S. Paulo passaram a sugerir propostas a serem levadas à rua. A má fé de tal movimento dispensa comentários.

A esquerda que odeia o anarquismo

Do lado esquerdo, um lulopetismo totalmente distante, que se manteve acomodado aos pactos de governabilidade e acreditava piamente ter resolvido os grandes problemas nacionais. Dessa forma, não só não compreendeu as manifestações como ainda reafirmou seus compromissos de conciliação com setores conservadores e monopólicos.

A crise veio de vez, a esquerda se permitiu embasbacar pela reeleição de Dilma, seu estelionato eleitoral desmoralizou inúmeros setores e o caminho ficou escancarado para aqueles que fizeram guerra ao PT e seu governo de corte popular desde o primeiro dia de 2003 (senão desde sempre).

Alheios a tudo que sempre consideraram uma farsa, os anarquistas e autonomistas continuaram a fazer basicamente a mesma coisa que já faziam. Veio 2015 e novamente se aplicou o reajuste das tarifas. O MPL respondeu com vigorosas manifestações e o prefeito Fernando Haddad (cuja auditoria contratada constatara centenas de irregularidades na prestação de contas das empresas de ônibus) não teve ideia melhor do que comparar o movimento ao Estado Islâmico em sua forma de agir. Nos dias seguintes, armou encontro secreto com os militantes petistas e aliados, que nunca lideraram nada a respeito da pauta, e anunciou que o movimento aceitava o aumento. De quebra, ambos atribuíram-se os méritos pela criação do “passe livre estudantil”, subsídio dado a estudantes da rede pública com número limitado (portanto não livre) de passagens.

Como se vê, uma relação de desprezo e até desonestidade intelectual com aqueles que de fato fizeram o trabalho no chão da cidade e enfrentaram repressões de distintos governos pelo país, ao longo dos anos; que acumularam muitos estudos, debates, vitórias e derrotas a forjar uma geração que nunca se identificou com os partidos mais tradicionais – e isso engendraria outro debate, a respeito da hostilidade que marca a disputa pelos aparelhos e espaços de representatividade das entidades vinculadas à esquerda ou aos trabalhadores, praticamente um desconvite aos incautos.

Falando em desonestidade, aqueles que gozaram juntos do sucesso econômico do país em anos recentes perceberam que poderiam tomar a rédea do centro de decisões e dispor diretamente da chave do cofre sem a incômoda mediação do “pai dos pobres” e sua “república sindicalista”, que segundo a mídia supracitada teriam trazido ao Brasil o advento da corrupção – pauta vazia e despolitizada por natureza.

O velho Brasil luta pela sobrevivência

Inventaram motivos suficientes para destituir Dilma Rousseff, num rito parlamentar que causou engulhos Brasil e mundo afora, e levaram ao governo uma equipe comprometida com o aprofundamento da inserção neocolonial do país na economia global, a manutenção a todo custo das taxas de lucratividade interna de uma burguesia nada inovadora, ao lado da concomitante necessidade de liberalização dos marcos legais que protegem os trabalhadores e a natureza. Enfim, tratava-se mais da reorganização do neoliberalismo brasileiro do que incompatibilidade com o indefeso governo.

Ou seja, as duas faces da mesma moeda, dentro daquilo que muitas vezes tachamos de “falsa polaridade” na gestão do Estado nacional, buscam repaginar sua imagem e voltar a ocupar a direção. Nenhum dos lados tem qualquer crítica ao período anterior e, em linhas gerais, apresentam ao país a perspectiva de se tentar de alguma maneira reviver aquele período em que o capital e o trabalho conviveram em paz. O problema é que ignoram as próprias condições objetivas do capitalismo e a crescente independência dos detentores do PIB frente aos poderes instituídos.

De todo modo, todos os lados que participam da política oficial trataram de varrer a radicalidade e o caráter democratizante daquelas jornadas, cada qual com suas desculpas para desmerecer as diversificadas e nem sempre organizadas indignações. E como era necessário garantir a festa dos megaeventos esportivos internacionais, a própria esquerda “que chegou lá” tratou de criar dispositivos legais que intimidassem e criminalizassem novas ousadias como aquelas indomáveis jornadas.

Ainda assim, vale dizer que as poucas manifestações que procuraram oferecer alguma resistência à ascensão de Michel Temer ao poder contaram com a presença de muitos desses ditos anarquistas, em quantidade não poucas vezes superior a cada vez mais virtual e envelhecida militância petista. Não à toa, ao ver o caráter parcialmente ingovernável das manifestações pelo Fora Temer, Lula e seu séquito trataram de esvaziá-las e mudar de tática, a deixar o governo Temer terminar sua obra e logo mais se apresentar como solução à “herança maldita”, em um processo eleitoral que certamente será movido a sentimentalismo e busca da memória afetiva da população pauperizada.

Cômodo, pra dizer o mínimo. Tão cômodo que Lula se permite afirmar que não anularia as mais cruciais reformas engendradas pelo governo Temer e “está perdoando os golpistas”. Sobre o ajuste fiscal sem data pra acabar, evidenciou sua simpatia pelas ideias de Henrique Meirelles (presidente do Banco Central entre 2003 e 2010) para solucionar a crise, o que já dá pistas do que se tentaria empreender num possível terceiro mandato do ex-presidente.

Retomando o foco, foi apenas pela deliberada apatia de PT e CUT, escancarada no inexplicável esvaziamento da greve de 30 de junho, que o governo Temer, o mais odiado do pós-ditadura, continuou em pé.

Colocar culpa nos verde-amarelos que deixaram de fazer manifestações “contra a corrupção” não é o bastante. Trata-se de massa de ideário conservador, que não possui familiaridade com a construção de processos coletivos, recheada de incautos que reproduzem todo o senso comum do bom mocismo ensinado nas escolas, instituições e mídia desde a infância. Pessoas que, mesmo sob boas intenções, são facilmente manipuláveis pelos velhos grupos entronizados no poder, suas grandes expressões econômicas e religiosas e a mídia associada a tal estado de coisas. Formalmente instruída, intelectualmente medíocre, sua visão de mundo se guia pelo imediatismo e permanente necessidade de “subir na vida”, a emular os mais altos padrões de consumo e conforto, conforme a publicidade vende há décadas.

Desse mato jamais sairá cachorro, em suma. E o que vemos das esquerdas eleitoreiras é uma absurda associação entre uns e outros manifestantes, o que não resiste a uma mera pesquisa de imagens no Google com os referidos anos descritos no campo de busca. De resto, quem não teve participação militante em momento algum dos processos de 2013 não tem história pra contar, no máximo narrativas a fabricar maliciosamente, como alguns entusiastas do lulismo admitem abertamente ao fazerem seus proselitismos. Mídia Ninja, que nasceu e se promoveu como contraposição ao discurso hegemônico naqueles dias de 2013, com sua total adesão ao lulismo é o grande exemplo.

O presente institucional

Neste deserto de ideias, chegamos a novembro de 2017. Os que retomaram o poder a fim de aprofundar seus já privilegiados interesses continuam legalizando assaltos ao patrimônio coletivo. As revelações de corrupção continuaram a varrer a classe política, pegando em cheio praticamente todos os grandes nomes nacionais. Os que foram “golpeados” mantêm sua atuação amesquinhada e imediatista, sem oferecer nada de novo, exceto chantagem emocional contra o novo inimigo: “o fascismo”, “a onda conservadora”, cujos expoentes fizeram parte do “arco da governabilidade” e só agora teriam se tornado bestas-feras intragáveis.

A bem dizer, saiu sim cachorro do mato verde-amarelo, e agora todos se assustam com seu caráter raivoso e oportunista. Os supostos novos liberais não passam de uma nova geração de salafrários que querem galgar cargos e benesses no aparato de Estado, brandindo um conservadorismo cultural e moralismo hipócrita que causa náusea na própria burguesia esclarecida. Esta, surpreendida com a invasão de museus e guerras culturais de baixíssimo nível, se deu conta de que esses ditos liberais nada mais são do que proxenetas que bateram na porta da festa e avisaram: “com licença amigos, mas viemos brincar dessa mesma coisa que vocês brincam. Ou a gente entra, ou vamos continuar gritando pega ladrão”.

E assim vemos rapazolas recém-descidos de seus condomínios a se aventurar na máquina pública, como já evidenciam as prefeituras de Porto Alegre e São Paulo, onde a cascata dos “políticos não políticos”, adeptos dos conceitos do mundo corporativo, quando não dele próprio oriundos, encantou o público secularmente idiotizado pelas fumaceiras político-midiáticas.

Neste contexto, chegamos à reportagem publicada pela Rede Globo a respeito da investigação da Polícia Civil sobre as atividades subversivas de militantes anarquistas do Rio Grande do Sul, o que levou ao cancelamento da Feira do Livro Anarquista na semana passada, em Porto Alegre.

A matéria de 10 minutos exibida no Fantástico mostra ações diversas filmadas por câmeras de segurança, sem nenhuma comprovação cabal de serem eventos coordenados e com autores identificados. Ataques “à sede do Partido Democratas” e a carros de polícia são precariamente narrados e exibidos, sem que se saibam de fato seus perpetradores.

Segue-se uma breve citação de que Mikhail Bakhunin é o principal ideólogo desta corrente, “que é a favor da extinção do Estado”. Esqueceram de acrescentar da megapropriedade privada, das classes e hierarquias sociais, além do bom e velho patrão. Também passa ao largo de contextualizar a atuação ultraconservadora do partido herdeiro da ditadura militar, que apesar do nome carrega em sua história façanhas como o fechamento do Congresso Nacional.

E, apesar de mostrar uma ação contra viatura policial em 1º de julho de 2013, ou seja, quando o fogo ainda ardia pelo país inteiro, deixa de citar a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha pela mesma polícia civil, poucos dias depois, em ação sem mandado judicial, além dos flagrantes casos de violência das forças estatais nos protestos de então, o que, a despeito de qualquer apreciação das ações em si, é um evidente estímulo a retaliações violentas.

Pra completar, mostra-se um diálogo de Whatsapp do repórter que queria entrevistar uma das ativistas da Federação Anarquista Gaúcha, Lorena Castilhos. A militante evita conceder a entrevista, pois não espera nenhum tratamento digno da emissora número 1 do país a respeito de ideologia “subversiva”. Afinal, seu recente desligamento da UFRGS, mesmo com fortes traços de perseguição política, não teve repercussão no jornalismo “das pessoas de bem”. O repórter tenta apertá-la, ela deixa de responder e o breve diálogo privado é exibido na tela.

É de se questionar a ética da atitude do repórter, afinal, em inúmeros casos de suspeitos de crimes ou até inequívocos contraventores é praxe, quando não se obtém a entrevista, o singelo esclarecimento “entramos em contato com fulano de tal, que não quis dar entrevista”. Não se sabe se tentaram entrevistar Aécio Neves quando de sua imoral absolvição no Senado, mas seria interessante que os grandes ladrões e pilhadores da República sofressem o mesmo assédio e as perguntas de uma hipotética entrevista, e-mails de contato e chamadas não atendidas fossem exibidas em rede nacional.  

Pra fechar a pobre matéria, que nada explica sobre anarquismo e faz ilações pouco aprofundadas de ações esparsas, temos entrevistas com o jurista Walter Maierovitch, colunista da Carta Capital, por sua vez identificada pelos conservadores como petista, e o professor de direito André Luiz Callegari. Ambos fazem afirmações pra lá de genéricas, a sugerir que os anarquistas pregam o terrorismo barato, o caos pelo caos e são pessoas do mal.

Uma pobreza total. Soma-se a mais esta investigação sobre os anarquistas o inquérito aberto em SP em 2013, que se tornou piada quando afirmou que o “PSOL paga pinga para punks quebrarem tudo em manifestos”, e o inquérito da Polícia Civil carioca que elencou Mikhail Bakhunin, morto em 1876, entre os suspeitos das manifestações contra a Copa do Mundo da FIFA. Podemos acrescentar à coleção de pérolas do anti-esquerdismo institucional a citação de procuradores do MP Paulista que, ao solicitarem a prisão de Lula em meio à Operação Lava Jato, escreveram que sua conduta envergonharia “Marx e Hegel”.

O Brasil sem anarquismo

Depois do Fantástico, os brasileiros sempre têm uma semana inteira pela frente. Começada a labuta, podemos esquecer mais esse episódio de perseguição política ao que a mesma mídia chamaria de “dissidentes”, caso se referisse à insignificante oposição liberal-conservadora ao regime cubano, para darmos um exemplo provocativo.

Pois bem. Esquecidos os anarquistas, vamos ao noticiário do Brasil, onde a realidade precisa ser perfumada incessantemente.

Destruído por todos os aspectos, o Rio continua a colecionar casos de violência extrema. Em meio a crianças baleadas toda semana, assassinou-se o comandante do 3º Batalhão de Polícia Militar, Luiz Gustavo Teixeira. Em poucos dias de investigação, aparecem indícios de que os próprios agentes do Estado podiam ter envolvimento com o crime, o que de modo algum seria uma novidade se lembrarmos do assassinato da juíza Patrícia Accioly.

Impaciente, o ministro da Justiça Torquato Jardim afirmou que toda a cúpula da polícia carioca tem vínculos com o crime organizado. Aparecem o governador Pezão e comentaristas de estúdio a dizer que faltam provas, o que é de causar gargalhadas em qualquer balcão de boteco que esteja vendo tão ingênuos analistas e chefes políticos.

O Secretário de Segurança, Roberto Sá, concede entrevista, diz não tolerar desvios de conduta e reivindica um heroico papel da corporação, que mesmo com menos pessoal e sucateamento estrutural “tem conseguido produzir 4000 prisões por mês”. Ou seja, prender uma enormidade de pretos e pobres (megatraficante filho de desembargadora não entra na conta) é um resultado celebrável, dentro da mais simplória noção produtivista (e liberal, pois incide nos salários dos agentes) da segurança pública.

Saindo da tragédia social, passamos ao noticiário econômico, onde as piruetas para vender ao público uma recuperação econômica que ninguém sente chegam a dar vergonha.

As polidas jornalistas da Globo News começam dizendo que o governo estuda novos cortes orçamentários. A afirmação de Natuza Nery é uma ode ao fetiche diuturnamente alimentado pela mídia de que, ao contrário da indecente política, a economia “é coisa séria, ciência exata, não tem brincadeira”. Isso poucos dias depois de o governo Temer torrar mais de 30 bilhões de reais para comprar sua absolvição através das emendas legislativas. Contra todo o sentimento popular, passa-se a ideia de santidade da equipe econômica deste governo afundado em roubalheira até o teto, como se formada por abnegados brasileiros que perdem noites de sono para cuidar do nosso bem estar, e não de revalidar monumentais favorecimentos aos grandes capitais representados no Congresso mais corrupto de todos os tempos.

Adiante, outra jornalista filiada ao clube do livre mercado entra com dados da recuperação econômica. A atividade industrial cresceu “incríveis” 0,2% no mês, no acumulado de 1,6% no ano, sem especificar como e onde. Cita, completamente ao léu, que um empresário do ramo de plástico com o qual conversou “pensa em comprar uma nova máquina e aumentar sua produção em 40%”. Um grande nada, em resumo.

Logo a seguir, “recorde de superávit da balança comercial” (R$ 58,5 bilhões no ano), que se explica pela venda de alguns carros a Argentina, e, claro, muita soja, minério de ferro e petróleo (depois de mais uma rodada de leilão do pré-sal e, portanto, desnacionalização da economia, com futura desindustrialização). Pra fechar, a declaração da própria indústria de que a recuperação de sua atividade deve retomar o nível de 2009 por volta de... 2025!

Ou seja, arrebentamos o solo e subsolo por uma pequena renda imediatista (o último leilão do pré-sal cobriria 20% da barganha de Temer com seus julgadores), aprofundamos a primarização da economia, as importações chegam ao nível da nulidade (o lado oculto do superávit recorde), a indústria avisa que está morta e a conclusão é que devemos ficar otimistas. Outro detalhe que mereceria melhor exame é que mesmo dispondo de uma empresa do porte da Petrobrás a importação de combustíveis faz parte da lista de importados mais relevantes.

A doce utopia do “livre mercado”

Em meio a tudo, os que assistem o noticiário global já notaram o combate a Donald Trump desde sua posse, inclusive festejando a massiva manifestação convocada pelas mulheres daquele país no primeiro final de semana de sua presidência. Outro fato bastante abordado foi a marcha racista de Charlotesville, onde neonazistas foram fisicamente confrontados e a morte de Heather Heyer (de perfil ideológico muito similar aos anarquistas aqui criminalizados) foi amplamente condenada.

Frequentemente, elencam as demonstrações de estupidez e intolerância de Trump, sempre se baseando nos direitos civis e humanos básicos (ignoremos que temem a volta de um improvável isolacionismo norte-americano que afetaria bons negócios transnacionais). E se assustam com o aparente crescimento dos atos de terrorismo perpetrados por homens brancos conservadores dentro dos EUA.

Se formos à Europa, também veremos um jornalismo temeroso da ascensão das extremas-direitas. Mas sempre de olho em qualquer experiência de eventuais governos de esquerda que confrontem o sistema financeiro causador desta longeva crise e sua austeridade nos olhos dos outros. O alívio demonstrado com a vitória do liberal Emmanuel Macron na França evidencia o que expressamos aqui.

De volta ao Brasil, vemos que também começou um movimento da mídia empresarial de reforço do noticiário crítico às expressões dessa nova e fascistizada direita brasileira, simbolizada pela figura do deputado presidenciável Jair Bolsonaro, e suas “mídias alternativas” que vivem de espalhar as mais bizarras desinformações (o que também prejudica a audiência de seus sites, portanto, o business, como atesta esse editorial do UOL publicado em março).

Basicamente, os donos e operadores do capital não querem novos e ambiciosos concorrentes. A ordem é investir na cantilena de que esquerda e direita são polos extremados e indesejáveis à boa ordem democrática e, em tempos de crise profunda, tentam manter viva a grande fraude intelectual do “fim da história” e dos confrontos de classe. Ou seja, não nos surpreendamos se, até por aproximação óbvia, tentarem associar MPL com MBL ou coisa similar (no que terão a ajuda de lulistas e afins). Matérias do mesmo tipo da realizada pelo Fantástico sobre os anarquistas a distorcer contextos, sentidos e significados da Revolução Russa tampouco faltaram nos dias recentes, mas sua análise não cabe neste já extenso recorte.

A utopia neoliberal se encontra na parede e é cada vez mais questionada, dez anos após uma crise que viu soluções fortalecerem seus responsáveis e aumentarem os passivos social e ambiental. O problema é que o fascismo ora ascendente nunca foi derrotado apenas com comentários simpáticos de estúdio e se você anula aqueles que o enfrentam na prática pode ficar sem saídas, preso e torturado por aqueles que ajudou a tirar do armário sem medir consequências. O ídolo mercado não paira acima do bem e do mal.

Leia também:

‘MPL se coloca dentro do campo da esquerda no processo político’ – entrevista com Daniel Guimarães, julho de 2013

‘A democracia representativa não nos serve mais. Ficou claro que temos de tomar outros modos de ações’ – entrevista com Eliete Floripo, anarquista gaúcha, julho de 2013, sobre a formação do Bloco de Lutas, que reuniu militantes de esquerda de diversos agrupamentos

Afinidades revolucionárias - Nossas estrelas vermelhas e negras – por uma solidariedade entre marxistas e libertários - livro do filósofo Michael Löwy que incentiva a unidade entre anarquistas, socialistas e comunistas

Ataque aos anarquistas é o início de ofensiva fascista do Estado brasileiro


Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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