“O modelo de negócio das arenas deu errado e os torcedores precisam se articular urgentemente”

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Já se foram três anos da Copa do Mundo sediada no Brasil e o que legado que se vê é uma série de caríssimos estádios – reclassificados de arenas – mostrando-se insolúveis do ponto de vista econômico. Ao mesmo tempo, a alertada elitização de seu acesso virou realidade inquestionável até na mídia esportiva que apoiou acriticamente os empreendimentos. Nesta entrevista, falamos com o jornalista e pesquisador Irlan Simões, que acaba de lançar o livro “Clientes versus Rebeldes”, inaugurador de um novo debate sobre os rumos do esporte mais popular do país.

“Quanto à nova arena, como sempre friso ao longo do livro, trata-se de algo muito além de uma estrutura arquitetônica sofisticada, de concreto armado, cadeiras de plástico e banheiros de mármore. Eu procuro sempre definir as arenas como um “conceito”. Um conceito de consumo esportivo, um conceito de equipamento urbano, um conceito de comportamento, um conceito de futebol...”, resume Simões.

Na entrevista, ele explica algumas conceituações a respeito do “sujeito torcedor” e como os novos interessados na indústria do futebol determinaram quais eram os públicos desejáveis e indesejáveis. De toda forma, assinala que o momento é ótimo para os defensores de um futebol mais popular se articularem, dado que a situação econômica de diversas praças bancadas pelo dinheiro público é precária.

“Talvez haja, sim, um modo de reverter tudo, e passa necessariamente por readequar o estádio para o público. Penso que os torcedores precisam partir de organizações dentro dos seus clubes, que entendam suas conjunturas políticas internas, entendam como atuar para garantir ingressos e planos de associação mais baratos, que vejam como articular outros setores para conquistar uma reforma estatutária que permita a democratização dessas instituições, que compreendam a sua torcida para propor projetos de estádios adequados aos seus interesses”.

Correio da Cidadania: Primeiramente, o que te levou a esse campo de pesquisa, como o livro Clientes versus Rebeldes foi gestado?

Irlan Simões: O livro é fruto de muito tempo de dedicação ao futebol em diversos sentidos. Seja como torcedor de arquibancada, como jornalista ou como pesquisador. Há muitos anos já venho me envolvendo diretamente com os assuntos que o cercam, até porque uma fase importante de meu amadurecimento – pessoal, político, profissional – se cruzou com o longo e complexo processo da produção da Copa do Mundo no Brasil. Desde as angústias com as contradições que envolvem o futebol, até a necessidade de entender o seu funcionamento político-econômico, entender o seu desenvolvimento histórico, passando pela curiosidade em conhecer as mais diversas culturas torcedoras... Foram muitos pontos que me incentivavam a mergulhar no estudo desse objeto.

O livro, mais precisamente, é a “consquência” de uma pesquisa desenvolvida em mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação na Universdade do Estado do Rio de Janeiro, sob a orientação de Ronaldo Helal, um dos principais “futebólogos” do país. Evidente que procurei adaptar seu conteúdo para tornar a leitura mais palatável para o público em geral, mas não deixa de ser um livro acadêmico, com utilidades acadêmicas, ainda que seus objetivos e seus fins buscassem extrapolar os limites da universidade.

O que posso dizer é que o mestrado em si foi um “detalhe” num percurso que eu já vinha seguindo há muito tempo. Diria até uma década. Boa parte da pesquisa “bruta”, em termos qualitativos e quantitativos já estava um tanto avançada, do ponto de vista da sua concepção. Obviamente que faltava o viés acadêmico indispensável para as investidas teóricas que me propus a fazer ao longo do livro. E felizmente fui muito bem servido da ajuda de pesquisadores de altíssima qualidade e generosidade nesse processo, entre os quais destaco Gilmar Mascarenhas, Bernardo Buarque de Hollanda e Anderson Santos.

Correio da Cidadania: Você faz uma longa introdução a respeito deste modelo econômico aplicado à indústria do esporte e que muitos chamam de “futebol neoliberal”. Como se deu isso, partindo dos locais onde o processo se verificou antes do Brasil?

Irlan Simões: O termo “futebol neoliberal” é um dos tantos que poderiam ter sido utilizados para explicar o mesmo processo que, no meu entender, é fundamental para compreender o futebol nos tempos de hoje. Por ser um termo compartilhado por autores que considero referências no debate, preferi deixar de lado o “futebol-negócio”, que ainda prefiro usar, para alinhar as leituras. Até porque quando se destaca a noção “neoliberal”, remete-se à indispensável lembrança a algum possível desavisado de que o mundo do futebol não está à parte da realidade.

Portanto, se remontarmos aos anos 1960/70 vamos encontrar o futebol enquanto um tipo de evento extremamente massificado, principalmente na Europa e na América Latina, praticado em estádios gigantescos comumente construídos pelo poder público, principalmente por governos que buscavam se utilizar da popularidade dos jogos e clubes para fins propagandísticos. Com o fim da “ressaca” do pós-guerra, a recuperação econômica das potências europeias, o crescimento avassalador da “indústria cultural” norte-americana e todos os seus efeitos na chamada “economia da cultura”, o futebol começou a ser repensado drasticamente. Assim, podemos dizer que há um processo de adequação do futebol a uma lógica comercial, mais próxima do que o “show business” já começava a fazer à época, inclusive se utilizando dos estádios de futebol, como era o caso dos concertos musicais. Esse é um recorte primeiro, necessário.

O “futebol neoliberal” sucede esse período. Trata-se de um aprofundamento de uma mercantilização do esporte que, inclusive, contou com resistência interna na FIFA e na UEFA, dominadas por uma perspectiva política, como diriam alguns autores, um tanto quanto mais “socialdemocrata”. Do ponto de vista da gestão, o futebol precisava ser “liberalizado”, desprendido das normas e regulações que até então o impediam de adentrar no novo mundo dos mercados. Para essa linhagem política do mundo da bola, os clubes precisavam se transformar em empresas e almejar lucros, adaptando-se a uma lógica esportiva já consolidada nos Estados Unidos.

É dessa forma que a virada dos anos 1980 vai perceber mudanças em alguns pontos-chave. Primeiro a contratação de estrangeiros nas grandes ligas européias; depois na mudança das relações contratuais entre clubes e jogadores; em seguida na liberação de anúncio nas camisas dos clubes (consequência direta das novas modalidades comerciais de transmissões das partidas) e, principalmente, na transformação de clubes em empresas, com participação na bolsa de valores. Em pouco tempo o estádio também será inserido nesse rol de transformações, uma vez que precisava ser pensado do ponto de vista da maximização dos lucros.

É evidente que o pano de fundo dessas transformações, para além dos tantos interesses financeiros que mobilizava, acabou sendo jogado em algumas questões centrais: a financeirização e mundialização da economia, a crise o estado de bem-estar social, a violência nos estádios e a relação cada vez mais espúria entre grupos criminosos e clubes de futebol, em diversos pontos do mundo. O salto de mercantilização seria uma espécie de saída necessária para a moralização da indústria. Em tese. Porque o que a gente vê no mundo do futebol de hoje é um escândalo que ninguém tem coragem de expor.

De outra parte, é muito difícil dizer que há algo de “livre mercado” numa indústria em que o topo da pirâmide só se sustenta com base em benefícios fiscais surreais do poder público, ou por financiadores bilionários que nada entendem de futebol, mas se beneficiam dele em termos de capital social.

Correio da Cidadania: O que é, de fato, a elitização do futebol brasileiro?

Irlan Simões: De forma categórica, é uma “hipótese” que ainda está em aberto, mas que vem se tornando cada vez mais concreta. Ainda lá no final dos anos 2000, quando soubemos que o Brasil seria sede da Copa do Mundo e prometeram erguer mais de uma dezena de novas arenas em todo o país, uma série de pesquisadores, grupos de torcedores, jornalistas etc. começaram a questionar os efeitos dessas novas estruturas, e a questão da elitização foi colocada em discussão. Na realidade, já compreendíamos que o preço dos ingressos estava sendo majorado de uma forma brusca, antes mesmo da conclusão das obras das novas estruturas. Tal questão também envolvia o fim dos setores populares como as “gerais”.

Antes mesmo das arenas, o problema do preço dos ingressos já estava dado. Primeiro porque houve um período curioso em que essas ciências de fazer dinheiro – marqueteiros, administradores de empresas, esses caras que gostam de palestras motivacionais – começaram a tomar gosto pelo futebol. Não muito surpreendentemente esses sujeitos não entendiam quase nada de futebol, absolutamente nada de torcer e definitivamente zero sobre a situação financeira do grosso do torcedor de futebol no Brasil. Mas eram eles que davam a linha em discussões como “aumentar o preço do ingresso para incentivar a entrada nos planos de sócio-torcedor”, ou “manter um valor médio no preço do ingresso para evitar a desvalorização do produto”, ou a genial ideia de que a violência nos estádios deveria ser combatida com o aumento do valor do ingresso para “abolir um público” indesejado. Logo na introdução do livro trato detalhadamente dessa “ideologia” do futebol-negócio no Brasil e comento como ela expõe preconceitos de classe e de raça, e uma mesquinharia assombrosa da parte de tais “especialistas” e “consultores”.

Talvez seja um dos pontos mais importantes de todo o livro, porque busco de forma crítica absorver esses discursos, para pensar como eles, além de fracassados do próprio ponto de vista dos negócios, estão repletos de falsas verdades, fraudes, dissimulações, ignorância e hipocrisias. E avalio que a reação dos torcedores nas redes sociais fez a turma parar de falar besteira publicamente.

Correio da Cidadania: Dentro disso, o que representam as arenas e como diferem do velho estádio, econômica, culturalmente etc.?

Irlan Simões: Neste ponto chegamos a uma questão indispensável para quem traz para si a responsabilidade de tocar o debate do direito ao estádio e o direito ao clube. Perdemos muito espaço no debate das novas arenas porque nos deixamos levar por uma nostalgia que não nos interessava, e a síntese deveria ter sido outra, algo que Gilmar Mascarenhas fez de forma brilhante: o antigo estádio não nos interessava também, apenas foi mais permissivo do ponto de vista do acesso do público mais pobre e das manifestações festivas no seu interior. Caso tivéssemos, nos tempos de hoje, e com o atual discernimento que temos, o velho Maracanã, a velha Fonte Nova e o velho Mineirão, acredito que teríamos outras tantas demandas a batalhar. Se não tivéssemos tais demandas, era o caso de escrever um outro livro falando sobre algumas adequações importantes para alguns públicos que não se sentiam à vontade naquelas estruturas antigas. É o que ainda precisamos fazer com os estádios que não se arenizaram.

Foi exaltando demais a “beleza” da geral que deixamos de promover um debate importante sobre um modelo de estádio que nos interessasse de fato. Em um evento que participei, e relatei no livro, Toninho Nascimento, à época secretário de futebol do Ministério dos Esportes, foi ovacionado depois de dizer que “só fala bem da geral quem nunca foi na geral”. O que é uma imensa mentira, mas também é um sintoma de como deixamos o debate ser raso ao ponto de ele jogar contra nossos interesses de torcedores. A geral que a gente exaltava não é a geral da falta de espaço para mulheres, para idosos e crianças, do esmagamento das pessoas, do banho de urina... A geral que a gente exaltava era a ideia de um estádio onde a parcela mais pobre da população tivesse condições de acessar, de curtir livremente, de carnavalizar as partidas e tornar cada partida de futebol uma grande e saudável competição, também, das torcidas.

Quanto à nova arena, como sempre friso ao longo do livro, trata-se de algo muito além de uma estrutura arquitetônica sofisticada, de concreto armado, cadeiras de plástico e banheiros de mármore. Eu procuro sempre definir as arenas como um “conceito”. Um conceito de consumo esportivo, um conceito de equipamento urbano, um conceito de comportamento, um conceito de futebol... E dentro desse conceito está estabelecido que o seu público é uma coisa gravemente diferente do que a gente está acostumado a conceber para o público do futebol, em especial aquele torcedor mais visceral, mais apaixonado, que se vê como parte do clube e entende o clube como parte de sua vida. Na arena esse sujeito não existe, ou não deve existir, porque ele é um impeditivo, ele é prejudicial ao negócio, ele é uma contradição dentro do “conceito” que a arena promove.

Portanto, quando os “businessmen” do futebol se utilizam da frase “é preciso que as famílias voltem aos estádios”, me dá sempre uma sensação de que perdemos aí uma palavra de ordem bem bacana. Porque se a antiga geral não era adequada para essa família, o que dizer de uma arena que obrigaria uma família a gastar metade de sua renda mensal para assistir a uma única partida?

Correio da Cidadania: Para explicar o próprio nome da obra, o livro faz uma conceituação, baseada em autores ingleses que vivenciaram tal dinâmica décadas antes, que divide os diversos tipos de torcedores em categorias. Você pode descrevê-las?

Irlan Simões: Esse é um ponto interessante, que talvez permita ao livro dialogar com muitos pesquisadores do futebol. Quando resgato Richard Giulianotti, um dos maiores expoentes de uma dita “sociologia do futebol”, com seu esforço em elaborar uma “taxonomia” do público dos estádios ingleses, busco problematizar algumas questões levantadas por ele, tanto para trazer para a realidade brasileira quanto para vislumbrar a transformação das nossas possíveis taxonomias nessa nova realidade pós-arenização.

Em suma, o que Giulianotti vai fazer é estabelecer classificações sobre o público do estádio, no que concerne à forma que cada torcerdor se relaciona com o futebol, com um clube e com o resto da torcida. Para ele essas identidades torcedoras transitam, por um lado, entre uma relação mais arraigada, íntima, em que o torcedor se entende como parte de uma comunidade, em contraste com uma relação mais frívola, consumista, pontual. E define que mesmo esses dois extremos também observam relações mais intensas ou mais flúidas. Dessa forma propõe as identidades como supporters, followers, fans e flaneur.

A “taxonomia” de Giulianotti é uma iniciativa interessante, mas que não caberia para a realidade brasileira. Ao mesmo tempo em que eu não conseguiria fazer uma taxonomia do público de futebol do Brasil com as condições que dispunha. Mas, de fato, é possível dizer que tais identidades torcedoras estão sempre transitando entre dois polos: aquele que localiza um tipo de público que se comporta como “consumidores” do futebol e, portanto, desejam ser “retribuídos” na qualidade do serviço que pagaram; e outro polo onde se localizariam aqueles torcedores que acreditam desempenhar um papel muito mais importante ao clube, como detentores de um direito de intervenção nas suas instâncias diretivas, uma espécie de partícipe da propriedade do clube.

“Clientes versus Rebeldes”, mais necessariamente, se remete a essas novas formas de comportamento que as arenas fizeram emergir no Brasil. Já existiam, de certa forma, e no próprio livro acabo tratando delas. Mas o grande “xis” desse momento inaugurado em 2013/2014 é que as coisas se acirraram. Os “conceitos” que as arenas carregavam eram demasiadamente drásticos para o que se entendia por futebol no Brasil, e a própria chegada de diversos atores econômicos antes desinteressandos no futebol fez com que as contradições se tornassem mais explícitas.

O que quero dizer é que se por um lado há uma assimilação desse conceito, há a chegada de um público que antes rejeitava o estádio como um espaço adequado para o seu padrão de lazer, há o desenvolvimento de uma série de produtos e inovações para atrair esse público de perfil mais “consumidor”; por outro lado você tem a adoção desse “conceito arena” e a mercantilização excessiva do futebol como elementos de insatisfação desse público que insiste em ter uma relação mais visceral, mais intensa com o clube, que se entende como parte do clube e entende o clube como parte de sua vida.

Assim, evitando traçar uma “taxonomia” do público dos estádios brasileiros, faço menções à importância de se compreender a heterogeneidade dessas identidades torcedoras. E identifico que esse novo momento do futebol brasileiro serviu para expor a clientelização da assistência, ao passo que provocou a rebeldia dos torcedores.

Correio da Cidadania: Você fala também em “nova cultura torcedora”. O que seria a antiga e por que interessaria implantar uma nova? Não poderia ser até contraproducente ao business?

Irlan Simões: Na realidade essa ideia de “nova cultura torcedora” é uma ironia que lanço mão para falar da narrativa que imperou na imprensa esportiva nacional quando as arenas foram inauguradas em 2013. Qualquer ponto fora da curva era pauta para falar que o torcedor brasileiro precisava “mudar a sua cultura”, “mudar o seu jeito de torcer”, “se adequar ao novo equipamento”, e tantas outras baboseiras que fomos obrigados a escutar.

Busco analisar exatamente isso ao longo dos últimos anos. É curioso porque é uma premissa que parte tanto de uma visão preconceituosa como de uma leitura extremamente rasa sobre o principal objeto do trabalho desses jornalistas, consultores de marketing, dirigentes etc... Eles realmente acreditavam que o público ia se predispor a seguir uma cartilha de comportamento absolutamente alheia ao que estávamos acostumados a fazer dentro do estádio. Pagar ingressos caríssimos, entrar no estádio com mais de uma hora de antecedência, sentar no assento marcado nesse ingresso, permanecer sentado nesse assento ao longo dos 90 minutos... E que a rejeição a essas novas normas eram uma questão de educação, e não de “não somos obrigados, danem-se”.

Se é interessante para o business, na realidade a “nova cultura torcedora” era algo necessário, dentro do “conceito” adotado, como já falei anteriormente. Portanto, quando falo que uma dessas “novas culturas torcedoras” na realidade é o surgimento de uma postura intransigente, contestadora e crítica de uma série de torcedores, chamando-o de “rebeldes”, é exatamente para bater de frente com essa narrativa hegemônica que, curiosamente, se arrefeceu, seja por desistência ou porque as arenas fracassaram e os interesses financeiros já não estão mais alinhados. Uma pena.



Correio da Cidadania: Três anos depois da Copa do Mundo, qual o legado afinal de contas? Qual o balanço que pode ser feito deste processo?

Irlan Simões: A primeira questão é que não houve um esvaziamento claro do público. Os números se mantêm muito parecidos, ainda que alguns clubes tenham aumentado o seu público costumaz, e outros tenham reduzido parcialmente. Isso pode ser dito tanto nas arenas quanto nos estádios tradicionais, em que pese o valor cobrado pelo ingresso estar praticamente o mesmo nas diferentes estrurutas, e o valor mínimo de R$40 exigido pela CBF (algo completamente sem sentido!) ser burlado eventualmente.

Tais questões permitem lançar a hipótese da “substituição” do público. Com os altos preços uma parcela considerável do público tradicional foi alijada dos estádios, enquanto a nova estrutura e novos padrões estéticos e de serviços atraíram um público antigamente alheio ao futebol. Podemos até dizer que os businessmen foram relativamente vitoriosos, se considerarmos que a “elitização” estaria de fato expressa nessa hipótese, e era de fato um dos objetivos embutidos no “conceito” das arenas multiuso.

O grande dilema é o futuro. Como as futuras gerações reagirão, por exempo, aos ingressos caríssimos e restritivos da Arena Corinthians e aos ingressos sazonalmente baratos no Morumbi? A dicotomia vai ser incontornável, só não é possível se arriscar muito. As arenas estão aí para serem transformadas por dentro e os grupos torcedores estão aí para fazer a disputa pela democratização das arquibancadas e dos clubes.

Tenho o desejo de que o “Clientes versus Rebeldes” inspire outros pesquisadores a fazer esse trabalho quantitativo em grande escala, algo que foi inviável na minha pesquisa. No levantamento que consegui fazer, há um contraste interessante com relação ao período 2007/08/09, que simbolizou algo que também pôde ser visto na Europa. Refiro-me a uma geração posterior àquela que presenciou o processo de midiatização, fator esvaziador dos estádios no mundo inteiro. É uma geração que tinha todos os jogos possíveis à sua disposição, bastando ir a um bar, ou na casa de um vizinho, mas que nutre o interesse de estar no estádio por tudo o que ele proporciona, sendo impedido quase exclusivamente pelo fator custo ou horário. Entre 2007 e 2009 (há uma década!) vimos o público crescer, mas também foi o último período antes de uma inflação sem precedentes no valor dos ingressos, em que pese o bom momento econômico que o país apresentava.

Correio da Cidadania: Como enxerga a situação econômica das arenas após a Copa?

Irlan Simões: Drásticas, o que era previsível pelos próprios interessados em suas gestões. Um diretor de uma das empreiteiras que dominou o processo de construção e posteriormente os contratos nas PPP que gerem as novas arenas declarou à Policia Federal que todos eles estavam totalmente cientes da inviabilidade financeira desses equipamentos. Não foi à toa, a gente soube logo que vazaram os primeiros detalhes, que os contratos dessas arenas previam socorros mensais, com repasses de verba pública para as operadoras em casos de insuficiência das receitas dos produtos (jogos, shows, eventos) que ela promovesse. E era óbvio que não ia fechar a conta! Mas toda imprensa nacional fez ouvido de mercador, ou achou que supor esse desastre que estamos vivendo era coisa de gente pessimista e anti-futebol. Ou defensor de “bandido de torcida organizada”.

O caso mais surreal é o que vemos no Maracanã. Quando lancei alguns prognósticos sobre as arenas ainda em 2013, antes de começar a pesquisa que origina o livro, era de que o Maracanã seria o menor dos problemas, uma vez que contava com o maior número de “produtores de conteúdo”, além de estar numa cidade de altíssimo potencial turístico. No meio de todo o imbróglio que se seguiu, hoje os clubes cariocas são literalmente assaltados com taxas de aluguel e de custo operacional que superam o valor de 1 milhão de reais. É surreal, absurdo. O Consórcio não tem uma torcida para lidar, não tem que bancar o salário dos atletas que compõem o tal produto, não se responsabilizam por absolutamente nada que concerne ao futebol. São meros sanguessugas que se beneficiam de um patrimônio público que foi totalmente desfigurado com um custo de 1 bilhão de reais (dos quais tampouco pagou um centavo).

Correio da Cidadania: Mas os defensores do modelo batem incessantemente nessa tecla de ser preciso “pagar as contas”, a fim de justificar a elitização e encarecimento. Além do debate econômico, não há também um menos identificado viés ideológico em tais projetos?

Irlan Simões: Bom, que é “preciso pagar a conta” é um fato. Eles inventaram de trazer um equipamento de custo altíssimo para um país onde as pessoas não têm dinheiro pra se alimentar. Vai ser algo que vai perseguir os futuros gestores até o fim dos dias. O problema, mesmo, disso tudo, é que o preço é cobrado da torcida. Somos vítimas diretas desse projeto e de quem o defendeu e o promoveu. Mesmo em clubes em que a diretoria tem uma posição mais progressista, de se recusar a cobrar ingressos em preços altos, como é o caso do Santa Cruz, o custo para jogar numa arena como a que construíram em São Lourenço da Mata é mais que o triplo do custo “para abrir” o seu velho Arrudão.

Por outro lado há a necessidade de usar as estruturas dentro do conceito de arena, disponibilizando-a para outros tipos de produtos, como shows. O que é mais bizarro no Brasil é que tais produtos não conseguem coexistir, sendo os clubes usuários das arenas obrigados a jogar em outros estádios para permitir que shows aconteçam nas arenas onde jogam. Ou pior, que jogos importantes aconteçam em gramados destruídos pela realização de um show alguns dias antes da partida. Não há know-how, nem tecnologia suficiente para operar essas arenas dentro da própria cartilha que disseram ter sido adotada. É uma sucessão de bizarrices.

Talvez haja, sim, um modo de reverter tudo, e passa necessariamente por readequar o estádio para o público. Recentemente estive no show de Paul McCartney, realizado na Arena Fonte Nova. Para que o público tivesse acesso à pista (dentro do campo) a produção adaptou uma escada e um tablado num espaço atrás do que seria o gol da Ladeira da Fonte, removendo as cadeiras do setor. Uma medida inteligente, que seria condenada com pedradas se a gente sugerirsse que fosse feito exatamente a mesma coisa para fornecer mais espaço e liberdade de movimento para as torcidas organizadas que se localizam exatamente naquele setor. Remover cadeiras para fazer escada em show é justo, mas para dar mais espaço e baratear os ingressos em jogos de futebol é populismo, demagogia ou amadorismo. É impressionante.

Correio da Cidadania: Como reagir a isso tudo? Ainda engatinha a crítica a tais processos no Brasil ou podemos considerar que as pessoas têm se dado conta do que acontece?

Irlan Simões: Os torcedores precisam se articular e se organizar urgentemente. Tanto pelo “timing” que é esse momento decisivo para o futuro das arenas, diante de suas inviabilidades financeiras, mudanças de governos e desinteresse dos atuais consórcios, como pela sucessão de acontecimentos que necessitavam de um posicionamento mais articulado entre grupos de torcedores que se pautem pela democratização dos clubes e das arquibancadas. Sempre faço a comparação com o que aconteceu no PROFUT, em que o Bom Senso FC conseguiu atuar de forma a parar a votação da matéria no Congresso e articular emendas relativas aos interesses dos jogadores profissionais. Os torcedores, por sua vez, não tiveram qualquer capacidade de intervenção, afinal estamos ainda num processo muito incipiente de articulação. Na verdade, acredito que mesmo os debates precisam amadurecer bastante, e é um dos objetivos do livro.

Penso que os torcedores precisam partir de organizações dentro dos seus clubes, que entendam suas conjunturas políticas internas, entendam como atuar para garantir ingressos e planos de associação mais baratos, que vejam como articular outros setores para conquistar uma reforma estatutária que permita a democratização dessas instituições, que compreendam a sua torcida para propor projetos de estádios adequados aos seus interesses, de forma a garantir o acesso popular, de pessoas com necessidades especiais, mulheres, idosos, LGBT... Há uma infinidade de ações necessárias e possíveis de serem feitas dentro de um único universo clubístico, e essas experiências deverão aprender umas com as outras e se suportarem. Pouco adianta Bahia e Vitória avançando na sua democracia torcedora, se clubes como Sport, Santa Cruz e Náutico não avançam. Pouco adianta, num contexto mais amplo, as conquistas do Povo do Clube no Internacional (movimento político interno), se outros clubes não contam com movimentos equivalentes para tornar o debate da democratização dos clubes e arquibancadas uma verdadeira bandeira de agitação dos torcedores em todo país.

Experiências como o Coletivo Futebol, Mídia e Democracia (FMD), ou o grupo Arquibancada Ampla, Geral e Irrestrita (AGIR) são muito importantes nesses processos, e não foi à toa que convidei ambos para participar do lançamento do “Clientes versus Rebeldes”. São iniciativas que podem dar ânimo, autoestima e sustentação política e teórica para movimentos que possam surgir em clubes de todo o país. De minha parte, acredito que ainda estamos numa fase de maturação de tais experiências, fortalecimento e amadurecimento dos debates, para que futuramente tenhamos a capacidade de construir uma rede, ou um Fórum de torcedores pela democratização dos clubes e dos estádios.

Correio da Cidadania: Você tem outros trabalhos ligados à crítica do futebol em mente? Vem mais por aí?

Irlan Simões: Acho que não vou parar tão cedo. O futebol é um objeto fantástico para entender a realidade. Não é apenas algo que escolhi estudar porque é uma paixão pessoal. O futebol explica o mundo – bem mais do que aquele livro que afirmou isso, mas fez bem mal feito, que me perdoem os seus adoradores – no seu passado e no seu tempo atual. É um elemento indispensável, incontornável para a compreensão da realidade. A cada novo momento histórico nos encontraremos diante de novos desafios de interpretar a realidade e estudar como o futebol contribui para isso de forma muito importante. Vejamos até onde o “Clientes versus Rebeldes” poderá chegar e o que precisaremos aprofundar dentro de sua contribuição, ou o que precisaremos repensar, corrigir e maturar, de forma dialética, para que ele avance ainda mais, e nós, enquanto torcedores, possamos avançar nas nossas batalhas.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.



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