Nuzman caiu. Falta Del Nero. Mas nada irá mudar

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Um ano após o fim do ciclo de grandes eventos esportivos no Brasil, o quadro nacional das diversas modalidades, em linhas gerais, não apresentou evolução alguma.

Tocados por uma casta que conseguiu transformá-los em indústria capitalista altamente rentável e quase imune a crises da economia real, os esportes se tornaram excelente negócio para os que dele se apoderaram e montaram sua escala de comando, inclusive com jurisdição própria.

FIFA e Comitê Olímpico Internacinal nada mais são que camarilhas que há décadas abdicaram de valores tradicionalmente cultivados em torno do chamado “espírito olímpico” ou “amador” e fizeram tudo se tornar “produto”, discurso legitimado por uma mídia comercialmente associada.

O Brasil dos megaeventos

Como criticamos ao longo de anos neste Correio, Copa do Mundo e Olimpíadas nunca se pautaram por políticas esportivas consequentes, respeito aos atletas, treinadores e torcedores, atores que fazem a roda girar de fato e são sua razão de existir.

No caso brasileiro, vieram para coroar um projeto político-econômico que viveu anos de euforia, com direito a uma sensação de bem estar social inédita na história do país, o que garantiu a apatia da população frente ao processo.

Tal apoteose incluía a todos os sócios do poder, financiadores e financiados, cada um a extrair seu quinhão através da construção de novas e caríssimas arenas e muita publicidade.

Associada diuturnamente ao processo, a ideia do legado se baseava num pacote de obras estruturais que transformariam a vida das cidades eleitas para sede, o que criaria um potente ciclo econômico, benéfico a todos, capitalistas e trabalhadores. Uma panaceia incontestável, em suma.

Desse modo, a velha cartolagem que se viu acossada pelo sentimento popular de justiça na virada de século, desmascarada depois de tantos desmandos anteriores, corrupção e muita desorganização era reabilitada e convidada a participar dos novos tempos, “de gestão moderna e profissional”.

O encontro com a realidade

Pois bem. Depois de muitas histórias de subornos, favores, roubos e até manipulações finalmente apareceu uma investigação de envergadura que derrubou boa parte da trupe, como na operação desfechada pelo FBI em 2015 que acabou com o reinado de Joseph Blatter na FIFA e levou de roldão alguns outros príncipes do futebol.

No COI a coisa não era diferente e histórias de suborno e venda de votos para escolha de sedes de Jogos Olímpicos de Verão e Inverno pululavam há muito tempo nos noticiários.

Nesta longa história, o Brasil sempre teve lugar de honra, em especial através da figura de João Havelange – o grande ideólogo da transformação do futebol em ativo de mercado. Não à toa, o ex-atleta de polo aquático e cartola que foi falecer aos 100 anos justamente enquanto vivíamos os Jogos do Rio esteve envolvido em casos do tipo nas duas entidades em questão.

Seu ex-genro, Ricardo Teixeira, também foi da linha de frente, tendo marcado época à frente da CBF e na involução do Brasil e da América do Sul para o segundo escalão do futebol globalizado, sempre contente em transformar a Seleção nacional na única “marca” (como gostam de dizer) internacionalizada do esporte mais popular do país. Aceitou de muito bom grado a invencionice da FIFA que estabeleceu que amistosos entre seleções deveriam se jogar no máximo a 4 horas de avião da Europa ocidental, que assim praticamente afirmou-se como dona e senhora do futebol dito de alto nível. E não surpreenderia se topasse jogar até a Copa América e as Eliminatórias da Copa em estádios ingleses e suecos.

No entanto, tudo que era sólido se desmanchou no ar. O capitalismo brasileiro se deparou com a crise que já assola o mundo há 10 anos e travou. O governo da conciliação de classes perdeu seus instrumentos de contentamento geral e radicalizou sua opção pelos grandes capitais e monopólios econômicos. Naufragou, pateticamente, sem apoio popular e incapaz de aprofundar até o centro da Terra as “reformas” exigidas pelos donos da economia nacional.

A hora da ressaca

Sede dos Jogos, o Rio, que mercantilizou seu território como nunca e liberou a burguesia (chamada pelos fieis da igreja do mercado de “investidores”) de quase 130 bilhões de reais em isenções nos anos da euforia, bateu a cara no chão como nenhum outro estado da federação.

Um ano depois, não só se encontra falido como mais violento e inseguro do que nunca. O belíssimo Parque Olímpico, que poderia ser catalisador de uma ampla política esportiva já está largado, nunca tendo beneficiado de fato o esporte nacional e os abnegados atletas. Um vexame monumental, pra dizer o mínimo. Nem os mais pessimistas imaginávamos que aquelas belas estruturas estariam quase inutilizadas apenas um ano depois.

Dentro de tal contexto, de farra escancarada, apareceu a Operação Lava Jato, que veio revelar à sociedade brasileira aquilo que já se constatara há uns 180 anos: o Estado é o comitê de negócios da burguesia.

“Desafortunadamente, o caminho tradicional para aplicação da lei penal tem se mostrado ineficaz e instrumento de impunidade (...) Depois da colaboração da Odebrecht, o alvo da vez é o acordo com os proprietários do grupo J&F. Quando acreditávamos que nada mais poderia ser desnudado em termos de corrupção, esse acordo demonstrou que três anos de intenso trabalho não foram suficientes para intimidar um sistema político ultrapassado e rapineiro. Autoridades em altos cargos continuavam a corromper, e ainda se deixavam ser corrompidas, sem receios ou pudor”, escreveu... Rodrigo Janot.

Mas claro que não era Karl Marx o inspirador dos justiceiros oriundos dos estratos superiores da sociedade brasileira, esses eternos crentes nas virtudes da vida pautada pelo mercado e o lucro.

De posse de farta base material, a operação do Ministério Público e da Polícia Federal pegou alguns dos mais diletos – e reincidentes – bandidos nacionais, que sempre estiveram bem entranhados nos negócios do Estado Nacional – e assim continuam. Mas gostem ou não seus defensores, e por mais que tenha derrubado do cavalo figuras realmente nefastas, a Operação também mostrou propósitos políticos não muito elogiáveis.

O alvo central era a Petrobrás, grande bastião do PIB brasileiro (portanto, alvo número um de toda sorte de conchavo e aparelhamento), mas suas apurações não puderam evitar a inexorável revelação do imenso cipoal de relações entre o Estado e o grande empresariado. Não há um sem outro, o toma lá dá cá inunda ambas as esferas, pública e privada. Como era de se supor, ela tinha de chegar aos negócios da Copa e das Olimpíadas, através de seu desdobramento na Operação Unfair Play.

Pois bem. Eis que um dia a bomba veio estourar no colo de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) há 22 anos, em exercício frequentemente despótico e vingativo frente a eventuais críticos, tendo recorrido até a eleições de porta fechada para garantir a extensão do reinado.

Acusado de compra de votos e aumento de 457% de seu patrimônio entre 2006 e 2016, o ex-jogador de vôlei foi preso na manhã do dia 5 de outubro, ao lado de seu assessor (este já solto) Leonardo Gryner. Agora, pede habeas corpus no STF.

“Enquanto os medalhistas olímpicos buscavam a sua tão sonhada medalha de ouro, dirigentes do Comitê Olímpico guardavam o seu ouro na Suíça”, disse a procuradora da República Fabiana Schneider, membro da força tarefa da PF, sem dispensar a licenciosidade poética que costuma marcar os nomes de tais operações e as consternadas declarações que seus executores concedem.

A blindagem continua

Tal como nos principais casos de corrupção e clientelismo da República, a mídia que apoiou acriticamente a empreitada, excluiu de seus quadros jornalistas mais críticos do processo e ajudou a criminalizar a minoria que se organizou para contestar os megaeventos teve de fazer suas caras e bocas de espanto e indignação.

A este respeito, cabe o parêntese: tais acontecimentos da história recente brasileira demonstram, inequivocamente, como foi derrubado o velho “muro” que todos se jactavam de garantir a separação dos departamentos editorial e comercial. Não à toa, velhos conceitos do jornalismo crítico foram assumidamente substituídos pela ideia de que toda essa roda da fortuna que mexe com o sentimento de milhões de pessoas “é entretenimento”, numa ressignificação um tanto cínica do famoso ditado “o futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”.

E é nessa ideia que reside a resposta sobre como e por que “os homens que roubaram o jogo” (nome de livro que talvez tenha sido a primeira grande denúncia do futebol-negócio) deitaram e rolaram.

Tão protegidos politicamente, CBF e COB sempre se esforçaram em validar o discurso de que seriam entidades privadas, portanto, livres da inspeção de instituições públicas.

Em país tão fortemente assolado pela estrutura política e ideológica neoliberal e sua suposta desregulação estatal em tudo que gera fortunas, ideia defendida a ferro e fogo pela mesma mídia “boquiaberta” com tanta rapinagem, passou realmente ao largo da cabeça das pessoas a noção de que o Estado pode e deve acompanhar tais entidades. Subordiná-las ao Ministério dos Esportes (que subsidiou como nunca as federações neste século 21) nunca foi ideia levada a sério por aqui, por mais que seja prática mundialmente corriqueira.

Ainda neste sentido, se podemos ver como as agências reguladoras de setores estratégicos da economia e da própria soberania nacional não passam de cabides de emprego para acertos políticos e correias de transmissão de interesses privados, não seria naquilo que não passa de “entretenimento”, “diversão”, que a regulação pública e social se faria presente.

Era evidente que o que interessava a Cabral, Paes, Nuzman, Teixeira passava longe demais dos campos, quadras, pistas e piscinas. Já ao governo federal mais popular desde o fim da ditadura e seus sócios, tampouco escapou aos olhos dos “pessimistas” (Ronaldo dixit) que o grande galardão era a perpetuação a perder de vista de uma nova-velha casta no poder.

E Del Nero?

No entanto, prisões espetaculosas de alguns velhos dirigentes são apenas “gols de honra”. Primeiro porque nem metade dos butins está sendo devolvida à sociedade. Segundo porque a terra arrasada continua se expandindo por todo o território nacional, ante uma população perplexa e exaurida por uma crise sem data pra acabar, perpassada por aquilo que podemos considerar a própria destruição do “pacto social”.

Ódio, cegueira e avanço de aventureiros acanalhados são as notícias que nos dominam. Muitos acabam por sentir saudades dos dias ufanistas e alegres, o que dá boas chances de revitalizar alguns dos responsáveis fundamentais do que analisamos aqui.

As instituições que poderiam recuperar a credibilidade das entidades esportivas estão em liquidação (o que sugere ser questão de tempo a soltura de Nuzman).

Desse modo, Marco Polo del Nero, outro alvo contumaz de investigações e que desde 2015 sequer pode deixar o país para não ir parar numa prisão dos Estados Unidos continua bem, obrigado, no comando da CBF. Azar das mulheres, que viram a treinadora Emily Lima ser demitida sem razão aparente, até sair atirando contra os velhos joguinhos de interesse que foi obrigada a presenciar no comando da seleção feminina de futebol.

Na sequência do episódio, cinco jogadoras anunciaram sua retirada da seleção e um grupo de trabalho tenta acertar com a CBF a formação de um organograma que forneça novas diretrizes ao futebol feminino, de preferência a prestigiar as próprias protagonistas nos postos decisórios.

Enquanto isso, a Libertadores feminina, apesar do nome pomposo que lembra o grande torneio continental há 57 anos disputado pelos homens, é um desastre. Além da fórmula pobre, um torneio de curta-metragem, o descaso é imenso, com total falta de estrutura às atletas, que tiveram uma intoxicação alimentar coletiva, responsável pelo adiamento de algumas partidas. O detalhe é que o torneio se joga no Paraguai, nas barbas da Confederação Sul-Americana de Futebol, agora administrada por herdeiros idênticos àqueles processados pela justiça norte-americana.

Para resumir toda a conjuntura, aqueles que se dizem estupefatos com as revelações que levaram Nuzman à prisão continuam a nos ensurdecer pelo silêncio. Aliás, em quinze dias o assunto já some das manchetes. E é assim que tudo deverá seguir como dantes, apenas, e olhe lá, com alguns novos nomes e discursos. Isso já fica sugerido na entrevista do novo presidente do COB, Paulo Wanderley Teixeira, ex-mandatário da Confederação Brasileira de Judô, que também já foi alvo de investigações sobre desvios de materiais esportivos: “não sou amigo do Nuzman, mas seus feitos são insuperáveis”.

A “cidadania internacional” sempre foi um documento falsificado.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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