Jornalistas contra o assédio: “debate precisa conquistar o ambiente de trabalho”

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Passado o Dia Internacional da Mulher e as diversas marchas realizadas em todo o país, a condição de vulnerabilidade da mulher a diversas formas de violência, em especial no ambiente de trabalho, permanece. Para debater esta questão conversamos com a jornalista Janaína Garcia, uma das idealizadoras da campanha Jornalistas Contra o Assédio, que busca discutir, denunciar e buscar maneiras de prevenir e combater situações de assédio, ainda cotidianas no âmbito do jornalismo.

“Campanhas como a nossa ajudam a desnaturalizar atitudes que pareciam cristalizadas. E mesmo que incomodem são necessárias ainda muitas outras aberturas e iniciativas como esta, tanto pelas empresas quanto por parte dos funcionários, para trazer o assunto à baila. A demanda para se falar sobre o assédio é imensa e o primeiro vídeo da campanha deixou isto claro”, declarou.

A jornalista também falou sobre as diferentes formas de abuso sobre as mulheres, tanto na redação como por parte das fontes, e debateu a condição da mulher no mundo do trabalho de modo mais geral.

“Se as entidades que representam a categoria não colaborarem, é muito mais difícil. Precisamos dos sindicatos e, agora, da Fenaj, atuando nesse sentido, que façam pesquisas e apontem como e quanto se pratica o assédio na atividade jornalística para, então, as entidades, juntamente com o Ministério Público do Trabalho, coletivos e as empresas – e em vários segmentos, não apenas o patrão – serem chamados à mesa para pensar mecanismos que previnam e punam os casos de assédio”, concluiu.

A entrevista pode ser lida a seguir, na íntegra.



Correio da Cidadania: Como começou o projeto de vocês, Jornalistas Contra o Assédio? Que tipo e quais situações no ambiente de trabalho provocaram este debate e como tem sido lidar com isto?

Janaína Garcia: Começou com o episódio de uma estagiária do portal iG demitida dias depois de denunciar que havia sido assediada, durante uma pauta, pelo cantor Biel. O caso ganhou notoriedade nas redes sociais e achamos que a atitude da empresa, que, de algum modo, tirara proveito do assédio, o reportando em vários textos sobre o assunto, sinalizava uma forma de dizer à vítima que não silenciar significaria, um dia, ser punida.

Nos pusemos no lugar da Giulia, essa estagiária, e pensamos: e se fosse com uma de nós? A partir daí, começamos uma mobilização via WhatsApp, depois Facebook, para expressarmos isso em um vídeo – de solidariedade à garota, repúdio ao assédio e de aviso: não ficaremos mais caladas diante dessas situações, e nem de quem, direta ou indiretamente, compactua com o assediador – como sinalizou a demissão dela, e depois, da editora que escreveu o texto.

A discussão sobre o assédio a jornalistas ainda precisa conquistar o ambiente de trabalho. Campanhas como a nossa ajudam a desnaturalizar atitudes que pareciam cristalizadas. E mesmo que incomodem são necessárias ainda muitas outras aberturas e iniciativas, tanto pelas empresas quanto por iniciativa dos funcionários, para trazer o assunto à baila. A demanda para se falar sobre o assédio é imensa e o primeiro vídeo da campanha deixou claro.

Correio da Cidadania: O que podem falar da repercussão deste tipo de denúncia e como se dá o processo? As jornalistas se sentem à vontade para falar sobre o assunto?

Janaína Garcia: Falamos no âmbito da campanha e como leigas: não se pode silenciar sobre o assédio. O que não significa agir de forma intempestiva: buscar informação é sempre o caminho. Formar uma rede em que isso possa ser debatido com os amigos ou colegas, por exemplo, precisa ser parte do caminho. Só falando a respeito, buscando e repassando informação – com base em dados – é que se conseguirá falar com mais naturalidade sobre o tema.

No entanto, é fato: se as entidades que representam a categoria não colaborarem, é muito mais difícil. Precisamos dos sindicatos e, agora, da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), atuando nesse sentido, que façam pesquisas e apontem como e quanto se pratica o assédio na atividade jornalística para, então, as entidades, juntamente com o Ministério Público do Trabalho, coletivos e as empresas – e em vários segmentos, não apenas o patrão – serem chamados à mesa para pensar mecanismos que previnam e punam os casos de assédio.

No caso do assédio cometido fora do ambiente de trabalho, por fontes, por exemplo, pensamos da mesma maneira: informação e um ambiente acolhedor dentro das empresas para se tratar desse tema podem servir de “vacina” para que o jornalista lide com isso também fora da redação.

Correio da Cidadania: Como vocês avaliam o papel da mulher no mundo do trabalho, em especial no jornalismo? O que avançou e o que segue atrasado?

Janaína Garcia: A situação da mulher no jornalismo avançou à medida em que os espaços hoje não são homogêneos no que se refere a gênero. Mas falta ainda avançar na equidade de oportunidades e de salários, nem sempre uma realidade, e também na cabeça do chefe que considera que uma mulher possa eventualmente ser menos preparada para lidar com temas espinhosos de política e economia, por exemplo.

Também em relação à maternidade é preciso avançar: as empresas precisam entender que o “ser mãe” não tira a capacidade de ninguém, assim como ser pai não afeta a produtividade do homem. Por outro lado, reconhecer que a jornalista mãe precisa do tempo minimamente definido para arcar com atividades tão essenciais como a amamentação ainda parece ser um pleito absurdo na cabeça de alguns homens. E isso, para nós, soa como uma falta de empatia terrível.

Correio da Cidadania: Ainda no mundo do trabalho, o que podem dizer sobre as especificidades da jornada de trabalho das mulheres?

Janaína Garcia: A mulher ainda é pensada como a pessoa que precisa cuidar da casa, do filho, da própria atividade laboral. Não deixa de ser um avanço perverso à antiquada posição da mulher “bela, recatada e do lar”: conquistamos um espaço importante, mas a jornada “extraoficial” ainda é pensada como sendo de maior responsabilidade das mulheres.

À medida em que o próprio presidente da República afirma, em um dia emblemático como o 8 de março, que atividades domésticas, criação dos filhos e pesquisa de preços em supermercados são atividades inerentes à mulher, é pra se pensar que tipo de valores estão dando a linha na sociedade. Ou ainda, quem detém o poder julga que sejam essas as obrigações da mulher perante a sociedade e, claro, perante o mercado de trabalho.

O combate à desigualdade nesse mercado passa também, necessariamente, pela tomada de consciência dos homens, no sentido de que eles não são ajudantes ocasionais, mas partes de tudo o que, historicamente, se delega à mulher: cuidado com a casa, com os filhos, com o mercado, com o orçamento doméstico. Essa, sim, esperamos que seja a especificidade dos nossos tempos: a noção de que todos são responsáveis.
 
Correio da Cidadania: Qual é a avaliação de vocês sobre as propostas de reformas previdenciária e trabalhista? O que pensam do atual governo Temer e do momento crítico que vivemos no país?

Janaína Garcia: Trabalhamos e falamos no âmbito da campanha. Tudo o que venha a representar perda de direitos por parte do trabalhador é algo que rechaçamos, porque, no mínimo, também nos afeta como jornalistas. Em relação ao momento político do país, é uma pena que o debate muito polarizado nos faça perder ótimas oportunidades de diálogo. Seja sobre PT, PSDB, PMDB; machismo ou feminismo, é como se tudo tivesse de ir direto aos extremos sem que pensemos o vão imenso que há entre eles.

Correio da Cidadania: Qual a importância, na opinião de vocês, de um forte movimento de mulheres nas ruas em um momento como este?

Janaína Garcia: Importância absoluta. Somos maioria na população mundial e nacional e historicamente estamos relegadas ao papel de coadjuvantes do sucesso do homem. Ou a mulher entende de uma vez por todas que sua luta precisa partir primeiro dela, ou serão mais algumas décadas de desigualdades de gênero, aptas a mantê-la sempre na sombra.

Nossa voz pode se insurgir e buscar mudança. E sentimos que a janela de oportunidade aberta para se falar disso, como nunca se falou no tom de agora, não pode e não deve mais ser fechada.

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 Raphael Sanz é jornalista do Correio da Cidadania

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