“O 8 de março marca um novo momento de enfrentamento ao conservadorismo”

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Em meio a uma crise da economia neoliberal que já completa uma década sem soluções, continuamos a ver guerras pelo globo, ao lado de uma ascensão de ideias de extrema-direita, simbolizada em inúmeros acontecimentos de maior ou menor relevância. É neste contexto de depressão e miséria crescente que o feminismo se tornou carro-chefe das lutas por emancipação e justiça.

Dessa forma, o 8 de março de 2017 parece ter marcado uma subida de patamar nas confrontações capitaneadas pelas mulheres, que convocaram uma greve global e tomaram as ruas do mundo inteiro para exigir o fim do machismo em todas as esferas da vida. No caso brasileiro, as manifestações tiveram flagrante caráter de denúncia a uma ofensiva conservadora que afeta toda a população, em especial aquela dependente do salário e dos serviços públicos básicos.

“Acredito que foi uma das maiores manifestações de 8 de março dos últimos anos e isso ocorreu por dois motivos: o primeiro é que houve um chamado internacional para uma paralisação de mulheres, denominado 8M, a partir de feministas históricas e combatentes como Ângela Davis e impulsionado pela mobilização de milhões de mulheres contra Donald Trump. O segundo motivo é a proposta da Reforma da Previdência do governo golpista de Michel Temer, que vai atingir particularmente as mulheres”, declarou Silvia Ferraro, liderança da marcha realizada em São Paulo, ao Correio da Cidadania.

Fazendo ligação direta a um governo federal que deixou o mundo boquiaberto por seu caráter “branco, hétero, conservador”, Luka França definiu de forma radical o perfil social que haverá de se contrapor ao atual momento.

“Pra mim, o 8 de março deste ano marca profundamente a necessidade de se debater um projeto de esquerda que tenha em sua estrutura o combate ao machismo, racismo e LGBTfobia. É a localização de que os ataques aos direitos que o governo golpista faz e a sociedade capitalista assegura tem em seu cerne, pra além da questão de classe, a necessidade do racismo e do machismo”, disse a ativista e jornalista ao Correio.



Notoriamente, as marchas no Brasil tiveram caráter anticapitalista, de modo que foram hegemonizadas por grupos identificados à esquerda do espectro político e ideológico. E, desgastado pelos anos recentes, tal conceito vive suas próprias contradições internas, como se veria.

“Estes dois fatores que mencionei alavancaram o 8M aqui no Brasil como um grande dia de luta das mulheres. Em São Paulo, houve uma grande vitória com a unificação da Marcha das Mulheres que vinha da Praça da Sé com as passeatas de professores, categoria majoritariamente feminina. Esta unidade forjou uma passeata que reuniu mais de 20 mil pessoas, tendo as mulheres negras como protagonistas”, disse Silvia.

O discurso de Temer

Se o atual presidente do Brasil já não goza de legitimidade popular, em meio à manifestação das mulheres o repúdio à figura do ex-vice é unânime, em especial por conta da famigerada expressão que a Revista Veja consagrou a respeito da primeira dama Marcela. Pra completar, o discurso de Temer a respeito do 8 de março foi considerado uma afronta total.

“Ele confirmou o que já suspeitávamos do seu pensamento machista. Temer considera que a mulher ideal é a ‘bela, recatada e do lar’. Enfatizou o papel secular e machista da mulher como prisioneira das tarefas domésticas, do cuidado dos filhos e do marido, reforçando os estereótipos da família patriarcal”, criticou Silvia.

O discurso pegou tão mal que no dia seguinte o presidente se desculpou em público e disse acreditar na igualdade de direitos “no trabalho e em casa”, algo longe de convencer a maior parte da opinião pública, como se notou através da repercussão negativa de seu mea culpa.

“A grande mídia tenta imprimir junto à população a ideia de que Temer cometeu uma gafe. Mas o que ele falou ali é apenas a expressão máxima do programa político que a direita tem para o país. Coaduna-se diretamente com os cortes nas poucas políticas públicas de enfrentamento à violência machista no país. Ele só verbalizou suas ações”, pontuou Luka.

“Ele reforçou a ideia da dupla e tripla jornada para as mulheres. No Brasil, as mulheres trabalham em média 8 horas a mais do que os homens por semana. Temer quer que essa relação desigual permaneça, com mulheres trabalhadoras se desdobrando para fazer o que o Estado deveria se responsabilizar”, completou Silvia Ferraro.

E falando em grande mídia, se por um lado as manifestações contra Trump tiveram impressionante endosso da mídia empresarial brasileira, com direito a discurso de Madonna falando em revolução no Fantástico, por aqui as manifestações foram escondidas dos noticiários. Talvez justamente por seu explícito caráter anticapitalista.



“No Brasil, a mais importante tarefa da luta feminista neste momento é derrotar esta proposta de Reforma da Previdência, que, na prática, retira o direito das mulheres a terem o benefício da aposentadoria. Uma Reforma que irá aprofundar a miserabilidade das mulheres trabalhadoras”, apontou Ferraro.
 
Dessa forma, e para além do escopo deste texto, é preciso estudar com cuidado as razões que levam uma emissora como a Globo a cobrir manifestações radicais em Nova York com entusiasmo e tratar como meras notas de rodapé aquelas que ocorrem aqui. Combate ao sexismo e ao racismo não são marcas do jornalismo empresarial brasileiro.

“Localizar a demarcação de terras indígenas, o genocídio da juventude negra, o alto número de feminicídio e tantas outras facetas da violência de um Estado capitalista, racista e patriarcal é marcar profundamente a história no Brasil e tem relação com o processo político internacional que denuncia a xenofobia e o recrudescimento nas fronteiras”, explicou Luka.

Em termos de diversidade, além dos distintos partidos, sindicatos e coletivos militantes, chamou atenção a presença do movimento indigenista, historicamente mais descolado de tais processos, ainda mais nas grandes cidades.

“Acredito que o movimento feminista, em especial as mulheres negras e indígenas, tem papel fundamental na luta contra a retirada de direitos e retrocessos políticos que temos visto – e não é de hoje. É preciso entender que todas as medidas que vêm sendo apresentadas pelo governo golpista atingem diretamente um setor social profundamente marginalizado: mulheres negras e indígenas. Não lidar com essas questões como parte universal de um programa de sociedade é apenas repetir erros. Encarar o problema do racismo e do machismo no Brasil é tão fundamental quanto pensar a questão de classe”, analisou Luka.



“Fora Temer” não é “Volta Dilma”

Se por um lado a junção de atos diferentes fortalece um processo maior de resposta aos drásticos projetos de ajuste neoliberal do governo Temer, por outro apresenta contradições aparentemente difíceis de superar, em especial com a iminente, ou desejada, candidatura de Lula à presidência.

Ao encontrar a marcha dos professores que descia a avenida Brigadeiro Luís Antônio, ambas viraram pelo viaduto Maria Paula. Foi aí que algumas diferenças internas da esquerda brasileira marcaram presença.

Enquanto a marcha das mulheres se caracterizava pelas novas dinâmicas de maior horizontalidade e pouco aparato, o carro de som da Apeoesp, ao encontrá-la, praticamente tomou conta da rua. E aquilo que um dia se convencionou chamar de “aristocracia operária” começou a fazer discursos que ligavam a pauta feminista ao “golpe”, fazendo ganchos de evidente interesse da narrativa lulista.

Como dito, o Fora Temer era unânime, mas quando a coordenadora do trabalho da CUT, Junéia Batista, soltou um altissonante “volta Dilma” de seu poderoso microfone, um silêncio constrangedor tomou a manifestação por breves segundos.

A partir daí, a marcha pareceu se dividir. As mulheres da manifestação do 8M rumaram para a prefeitura, ao passo que o caminhão da Apeoesp estancou metade da marcha defronte à Câmara dos Vereadores, onde a longeva presidente do sindicato dos bancários, Juvândia Moreira, faria discurso semelhante ao de sua colega cutista.

Adiante, a marcha se reencontrou em frente à prefeitura, onde um breve jogral reiterou as principais pautas de luta das mulheres brasileiras e bradou um “Fora Dória”, ante um contingente mais forte de policiais, que apenas observaram. Mais cedo, o ato transcorreu sempre em tom de tranquilidade e fraternidade pelas ruas do centro da cidade. Até a PM teve aparição bem mais discreta e tranquila, a ponto de substituir a “tropa do braço” pela “tropa da bike”.

“Arrisco dizer que os atos no Brasil e no mundo inauguram um novo momento de enfrentamento à direita e ao conservadorismo, de forma mais programática e pensando realmente o que significa o todo da classe trabalhadora”, sintetizou Luka Franca.

“As lutas feministas já provaram que são um importante fator mobilizador das mulheres. Mas como diz Ângela Davis no manifesto do 8M, não basta lutarmos contra o machismo e a misoginia, é preciso lutarmos contra os planos neoliberais que estão retirando, literalmente, a vida das mulheres”, reforçou Silvia Ferraro.


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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.  

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