“A baixa representação política da mulher é estrutural e agora tende a piorar”

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Carro chefe das lutas sociais brasileiras e internacionais, o feminismo ocupa lugar cada vez mais relevante em todos os grandes debates, em especial num momento político caracterizado pela ascensão de ideias conservadoras. Em tal contexto, chamou atenção a passagem dos mandatos parlamentares do PSOL para as mulheres do partido durante o mês de março. Foi sobre isso e o atual contexto de luta das mulheres que conversamos com Isa Penna, que acaba de assumir uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo.

“Vivenciamos no Brasil uma ofensiva conservadora e, por isso, a presença de duas mulheres socialistas e feministas na Câmara Municipal (Sâmia Bonfim é a outra vereadora do PSOL) de uma cidade com a importância política e econômica como é São Paulo nos parece um acontecimento importante”, explicou.

Na conversa, Isa Penna, também advogada, faz uma análise do contexto político e social contemporâneo, no qual coloca o feminismo como fator central da alavancagem de lutas contra-hegemônicas. No entanto, ressalta o cenário desfavorável e a necessidade de se acumularem mais forças para enfrentar uma pesada agenda de contrarreformas e projetos que penalizam o mundo do trabalho, onde o desemprego comprovadamente já atinge mais as mulheres e negros.

“Nos últimos anos tivemos uma mudança qualitativa do movimento feminista no Brasil e em todas as partes do mundo. Por aqui isso coincide com um processo de mudanças políticas e estruturais que garantem um protagonismo autêntico e criativo da juventude, das mulheres e LGBTs. Parece-me que diante de uma etapa de acumulação do capitalismo que mais ataca os direitos da classe trabalhadora e dos grupos oprimidos, e da necessidade de reação da classe, tais setores foram aqueles capazes de grande mobilizações, no Brasil e no mundo”, afirmou.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Primeiramente, de onde surgiu a ideia de ceder os mandatos parlamentares dos homens às mulheres no PSOL?

Isa Penna: Nessa última eleição o PSOL teve um desempenho eleitoral mais expressivo no município de São Paulo, elegendo, pela primeira vez, dois parlamentares, com uma quantidade de votos grande para outras e outros candidatos, como foi o meu caso, com uma diferença de 26 votos da vereadora Sâmia Bonfim. Foi diante deste cenário e reconhecendo a importância do protagonismo das mulheres no mês de março, e a simbologia e necessidade política de termos duas mulheres feministas do PSOL na Câmara Municipal de São Paulo, que o vereador Toninho Véspoli colocou-se à disposição para tanto.

Correio da Cidadania: Qual a importância do gesto diante do atual contexto político e social brasileiro?

Isa Penna: A desigualdade de gênero é forjada, historicamente, pela divisão de papeis ditos femininos e masculinos, que definem os espaços públicos e de poder enquanto pertencentes a uma suposta racionalidade masculina e suas intrínsecas habilidades, enquanto a mulher teria naturalmente as tarefas domésticas e os trabalhos de cuidado, ou aqueles mais meticulosos, que requerem delicadeza e paciência.

Sendo assim, esta condição estrutural nos ajuda a explicar a baixíssima representatividade de mulheres nos espaços de ocupação política, o que tende a se agudizar diante do aprofundamento da peculiar crise capitalista e seus desdobramentos no Brasil, após o golpe parlamentar-jurídico-midiático.

Vivenciamos no Brasil uma ofensiva conservadora e, por isso, a presença de duas mulheres socialistas e feministas na Câmara Municipal de uma cidade com a importância política e econômica como é São Paulo nos parece um acontecimento importante.

Correio da Cidadania: Como você descreve o atual momento do feminismo, dentro e fora do Brasil?

Isa Penna: Nos últimos anos tivemos uma mudança qualitativa do movimento feminista no Brasil e em todas as partes do mundo. Por aqui isso coincide com um processo de mudanças políticas e estruturais que garantem um protagonismo autêntico e criativo da juventude, das mulheres e LGBTs.

Parece-me que diante de uma etapa de acumulação do capitalismo que mais ataca os direitos da classe trabalhadora e dos grupos oprimidos, e da necessidade de reação da classe, tais setores foram aqueles capazes de grande mobilizações, no Brasil e no mundo.

Com toda sua heterogeneidade e até mesmo certo espontaneísmo, penso que o movimento feminista neste momento histórico possui um intrínseco potencial anticapitalista e nós, socialistas, devemos nos incorporar sempre a esses processos, com afinco e radicalidade.

Correio da Cidadania: Nos dias que marcaram a posse de Donald Trump na presidência dos EUA, vimos a mídia empresarial dar um espaço quase nunca visto aos massivos protestos contra o Republicano, inclusive a grande marcha nacional convocada pelas mulheres dias depois da posse. Diante desse exemplo, como analisa a abordagem do feminismo aqui no Brasil por parte dessa mesma mídia?

Isa Penna: Penso que a eleição de Donald Trump tornou-se polêmica inclusive para boas parcelas da burguesia. Suas ações e as reações populares organizadas foram ambas repercutidas com intensidade. O fato é que foi um levante de mulheres de dimensão e força grandiosíssimas e não há seletividade e manipulação midiática capazes de controlar esse processo. A isso somo a força das mídias alternativas e da difusão de informações, individualmente e por grupos. Isso é uma ameaça à mídia tradicional e reacionária e, em momentos de grandes turbulências, explicita-se ainda mais. Não me parece, de modo algum, que signifique uma maior abertura ou mudança de perfil de atuação dessa mídia, tanto lá como cá.

Correio da Cidadania: Que comentário faria sobre o Partido da Mulher Brasileira, recentemente multado pela justiça eleitoral por descumprir a cota de mulheres em suas propagandas?

Isa Penna: Essa é uma piada de mau gosto contra nós mulheres, instrumentalizando-nos para reproduzir uma política velha e “macha”.

Correio da Cidadania: Como imagina o cenário da luta social brasileira em 2017, nesta e outras questões? Teremos um ano quente ou frio?

Isa Penna: Um ano fervente, sem sombra de dúvidas. Os ataques são brutais e em um ritmo difícil de acompanhar, mas, ao mesmo tempo, a necessidade de unidade nas lutas se coloca como prioridade na agenda de todos os grupos da esquerda brasileira.

As contrarreformas da Previdência e Trabalhista, duas grandes afrontas às conquistas sociais do processo de redemocratização após a Ditadura empresarial-militar no Brasil, somadas aos ataques ideológicos com a invenção das “ideologias de gênero” e da Escola Sem Partido, colocam a necessidade de um processo de reorganização e reinvenção do bloco histórico revolucionário no país.

Neste 8 de Março, neste 15 de Março e em todos os outros dias estaremos nas ruas defendendo nossos direitos e acumulando forças para processos de mais conquistas e libertação dos chamados 99%.

Correio da Cidadania: Mas a preparação do terreno da candidatura presidencial de Lula, e toda a repactuação já sugerida pelo ex-presidente, não poderia amaciar algumas lutas e reivindicações neste ano, em especial àquelas com perfil mais contra-hegemônico?

Isa Penna: Penso que essa é uma situação completamente em aberto e não me sinto apta a tais especulações sobre se esse projeto de fato se concretizará. Penso que temos o dever de dar mais passos na História e superar positivamente o ciclo de consolidação e crise do social-liberalismo no Brasil. Essa é uma tarefa que se faz nas lutas concretas e cotidianas.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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